Muito antes de dominarem o mundo com riffs de guitarra ensurdecedores, os australianos tentaram ser fofos no rádio. O resultado? Um arrependimento que dura mais de 50 anos.
Toda banda gigante tem aquele esqueleto guardado no armário — aquela música do início da carreira que faz os integrantes sentirem vergonha alheia de si mesmos. Com o AC/DC, a maior máquina de hard rock do planeta, a história não é diferente. Se hoje você associa a banda a canhões, dinamites e hinos sobre o inferno, saiba que eles já tentaram cantar sobre o amorzinho e as estrelas no céu.
O culpado pelo maior arrependimento de Angus Young atende pelo nome literal de “Love Song” (originalmente batizada de “Love Song (Oh Jene)”).
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Tentando tocar o que estava na moda
A faixa foi gravada para o álbum de estreia da banda, “High Voltage”, lançado originalmente apenas na Austrália em 1975 (ela foi limada da versão internacional do disco que saiu em 1976). A música nasceu de uma ideia instrumental do saudoso Malcolm Young e do primeiro vocalista da banda, Dave Evans. Quando Bon Scott assumiu o microfone, ele reescreveu a letra, dando a ela um tom romântico açucarado que passa longe de tudo o que o AC/DC se tornou.
Para se ter uma ideia do nível de romantismo brega, um dos versos dizia algo como: “Quando você sorri, eu vejo estrelas no céu / Quando você sorri, eu vejo o nascer do sol”. Algo bem distante de “Whole Lotta Rosie”, convenhamos.
Em entrevista à revista Vulture (via LouderSound), Angus Young relembrou o episódio com um misto de riso e desespero:
“Eu não sei se estávamos tentando parodiar as canções de amor daquela época. Eu nem me lembro das palavras direito. Lembro que um cara da nossa gravadora nos disse que aquele tipo de música suave era o que estava tocando nas rádios locais. Ele achou que deveríamos lançar a faixa porque ela teria espaço. Eu só conseguia pensar: ‘Quem em sã consciência ia querer que isso fosse lançado?’.”
O Lado B que salvou a pátria
O AC/DC só não ficou marcado como uma banda de pop romântico graças à percepção dos radialistas australianos. Como a banda já tinha fama de fazer shows ensurdecedores e puramente viscerais, os programadores de rádio sabiam que “Love Song” era uma mentira.
O que eles fizeram? Simplesmente viraram o compacto de vinil e começaram a tocar o Lado B: um cover elétrico e agressivo do clássico do blues “Baby, Please Don’t Go”. A faixa pesada virou um sucesso estrondoso na Austrália e ditou o verdadeiro rumo que a banda deveria seguir. “Essa foi a nossa salvação”, admitiu Angus.
Para os curiosos de plantão, “Love Song” passou décadas esquecida como uma relíquia obscura, até ser resgatada oficialmente em 2009 na caixa de raridades Backtracks. Ouvindo hoje, a faixa não é exatamente um lixo musical; ela apenas soa como se o AC/DC tivesse sido transportado para a Califórnia em pleno Summer of Love de 1967.
Angus pode até odiá-la, mas, sejamos honestos: se formos procurar bem, a banda lançou coisas bem piores no final dos anos 80. Mas isso é assunto para outra hora.
Imagem Destacada: Divulgação/AC/DC (via Instagram / Fotografia: @christiegoodwin)


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