Longe da zona de conforto do Guns N’ Roses, o guitarrista detalha a troca “herética” de seus lendários amplificadores Marshall, relembra a influência de sua avó e antecipa um novo álbum para o início de 2027
Se você fechar os olhos e pensar em Slash, a imagem mental é instantânea e imutável: a cartola icônica, os óculos escuros, a Gibson Les Paul pendurada no limite do quadril e, claro, uma parede monumental de amplificadores Marshall roncando ao fundo. Essa identidade moldou o DNA do hard rock dos anos 80 e 90.
No entanto, o guitarrista do Guns N’ Roses está vivendo uma fase de desapego de seus próprios mitos.
Em uma reveladora entrevista à revista Guitar World, o músico destrinchou a sua mais recente jornada pelas raízes da música negra americana com o projeto Live At The S.E.R.P.E.N.T. Festival. Longe de ser apenas um passatempo de luxo entre as turnês gigantescas com Axl Rose, Slash defende que estamos presenciando uma verdadeira renascença do blues na guitarra — e que, para fazer jus a esse movimento, ele precisou abandonar sua zona de conforto técnica e espiritual.
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👵 De B.B. King ao Guns N’ Roses: o legado de uma avó

A relação de Slash com o gênero é antiga, mas costumava ser tratada com menos solenidade. Nos anos 90, logo após sua primeira saída do Guns, ele montou o Blues Ball, um projeto de covers que ele mesmo define hoje como “basicamente uma desculpa bêbada para sair por aí e fazer uma jam”. Trinta anos depois, o tom mudou.
A faísca original, contudo, veio de dentro de casa, cortesia de sua avó:
“Quando comecei a tocar, minhas primeiras influências foram os caras do rock and roll dos anos 60 e início dos 70 que eram orientados pelo blues. Mas fui apresentado ao B.B. King nessa mesma época pela minha avó, que já estava de saco cheio de me ouvir escutando todos aqueles caras do rock. Ela disse: ‘Não, isso aqui é o negócio real’. Ela realmente me abriu essa porta.”
Essa fundação acabou se tornando o alicerce invisível do próprio Guns N’ Roses. “Quando a banda se juntou, era uma amálgama de estilos diferentes, mas, para mim, o cerne de tudo sempre foi o blues”, reflete.
🔌 A traição sagrada: o fim da Era Marshall?
Para os puristas de equipamentos, a maior revelação da nova fase de Slash beira a heresia: o guitarrista substituiu seus lendários cabeçotes Marshall pelos combos da Magnatone (especificamente o modelo M-80 2×12). E a mudança foi tão profunda que ele acabou levando os novos amplificadores secretamente para a última turnê do Guns N’ Roses.
“Eu usei Marshall por tanto tempo que nunca tinha dado chance a mais nada. Mas o som do Magnatone simplesmente parece muito mais encorpado nos graves e mais limpo. Quando você faz um acorde, você ouve todas as notas. Foi uma grande revelação… Eu estava começando a ficar cansado — por mais que eu odeie dizer isso — daquele som de Marshall muito previsível pelo qual sou conhecido.”
Para o festival e o disco ao vivo, o arsenal também mudou. A clássica Les Paul deu espaço a guitarras que raramente associamos à sua figura no palco, como uma Gibson ES-335, modelos Firebird com captadores mini-humbuckers, uma réplica de Explorer de 1958 e até uma guitarra de pedal steel da Jackson,
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Sem ego: “não estou tentando ser o ‘cara do blues'”
Apesar do preciosismo técnico e das parcerias de peso no álbum de estúdio “Orgy Of The Damned” (2024), Slash mantém os pés no chão e evita o clichê do rockstar veterano que se autoproclama um purista tardio.
“Eu não estou tentando ser um ‘cara do blues‘. Muitos caras do rock fazem isso: eles são músicos de rock e, de repente, descobrem que são puristas do blues [risos]. Estou apenas fazendo uma interpretação de coisas que tiveram um impacto e uma influência massiva em mim quando peguei no instrumento pela primeira vez.”
O guitarrista enxerga o cenário atual com extremo otimismo, apontando que o gênero vive seu melhor momento em duas décadas graças a uma nova safra de músicos extremamente educados e dedicados ao estilo. “Para mim, isso é uma renascença”, crava.
E os fãs não precisarão esperar muito por novos capítulos dessa mente inquieta. Slash confirmou que já está com um novo álbum do Slash feat. Myles Kennedy & The Conspirators completamente pronto para ser lançado no início de 2027, enquanto tenta encontrar uma brecha na concorrida agenda do Guns N’ Roses para gravar mais um disco de blues e trazer o aclamado S.E.R.P.E.N.T. Festival para a Europa.
Aos 60 anos, o homem por trás da cartola prova que o segredo para não envelhecer no rock é nunca parar de cavar as próprias raízes.
Imagem Destacada: Divulgação/Slash Online


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