Stephen King é um escritor americano, nascido em 1947 e que tem mais de 350 milhões de cópias vendidas de suas diversas obras. Ele escreve horror, muitas vezes com um toque de fantasia ou ficção. Muitas de suas obras foram adaptadas para os filmes e tiraram nosso sono, nas versões impressa e nas telonas. O que pouca gente sabe é que ele escreveu entre 1999 e 2000 um livro com dicas literárias, publicado no Brasil pela Suma das Letras, chamado “Sobre a Escrita: a arte em memórias”, assunto da coluna dessa semana.

O livro se divide em quatro grandes partes, sendo elas: Currículo, Caixa de ferramentas, Sobre a escrita e Sobre a vida.

Na primeira parte, Currículo, Stephen conta um pouco sobre sua vida pessoal e sobre como ele se tornou escritor. A narrativa é permeada de lembranças de seu passado e temperada com importantes dicas. Serve um pouco para contextualizar o leitor no objetivo do livro e para entendermos quem é nosso interlocutor, Stephen King. Minha parte preferida dessa etapa do livro foi:

“Isto não é uma autobiografia. É, na verdade, uma espécie de curriculum vitae, minha tentativa de mostrar como se forma um escritor. Não como se faz um escritor; eu não acredito que escritores possam ser feitos, nem pelas circunstancias nem por autodeterminação (embora já tenha acreditado nessas coisas). O equipamento vem na embalagem original. Embora não seja, de forma alguma, um equipamento incomum. Acredito que muitas pessoas têm pelo menos algum talento para escrever ou contar histórias, e esse talento pode ser fortalecido e afiado. Se eu não acreditasse nisso, escrever um livro como esse seria perda de tempo”.

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Quando passamos para parte seguinte, da CAIXA DE FERRAMENTAS, Stephen nos convida a montar nossa própria caixa de ferramentas.

As ferramentas mais comuns ficam em cima, como o vocabulário e a gramática. Sobre isso, Stephen tem pouco a nos dizer (ele ressalta que o livro não tem a intenção de ensinar sobre isso e que se alguém tem interesse em aprofundar seu conhecimento, deve procurar os manuais), mas ainda assim, suas dicas são muito interessantes. Primeiramente ele diz que devemos usar a primeira palavra que nos vier a mente, se ela for adequada e interessante. Não devemos ficar tentando rebuscar nossa escrita. Ele é veementemente contra o uso da voz passiva, de expressões como “no fim das contas”, “nesta altura” e etc. e não suporta nem ouvir falar de advérbios (voltando ali atrás para cortar o veementemente agorinha). Ele também defende que devemos omitir as palavras desnecessárias, não usar metáforas manjadas e focar no uso dos verbos dicendi[1] simples (e JAMAIS acompanhá-los de um advérbio).

Na bandeja debaixo você deve guardar seus elementos de forma e estilo – como, por exemplo, fluidez e construção dos parágrafos. Sobre isso, o que Stephen tem a dizer é: não se encane demais. Se você estiver se preocupando muito com o tamanho de suas frases ou de seus parágrafos, provavelmente está fazendo algo errado. Especialmente na primeira versão do livro (aquela que você escreve de portas fechadas, sem interferência e sem muito espaço para revisão), é normal que seus parágrafos e frases tenham alguns problemas e que isso impacte na fluidez do seu texto. O ponto é: não se apavore. Siga em frente seguindo um pouco do seu espírito literário. Se preocupe com as edições posteriormente.

Por fim, na terceira bandeja, você deve guardar sua “ficção de verdade”, assunto que ele se debruça na seção seguinte do livro – que é a mais longa (que bom!).

Stephen começa falando que um bom livro não deve demorar mais de três meses para ser escrito, ou começa a “parecer estranho”. Ele coloca a meta de escrever pelo menos 2 mil palavras por dia e só encerra seu “expediente” depois dessa meta ter sido cumprida. Ressalta ainda que um bom livro tem por volta de 180 mil palavras, mas que muitas vezes livros comerciais tem só 50 mil. Ele é partidário que todos precisam ter um lugar solitário para escrever, sem interrupções. A porta deve ser fechada e permanecer dessa forma durante todo processo de escrita.

Uma das partes que achei mais interessante dessa seção é quando ele expõe sua opinião sobre a elaboração de um enredo. Ele é partidário (assim como eu) da ideia de que histórias praticamente se fazem sozinhas e, conforme cito abaixo, o enredo é o último recurso do bom escritor:

“O enredo é, penso eu, o último recurso do bom escritor e a primeira escolha do idiota. A história advinda do enredo está propensa a ser artificial e dura”.

Uma situação suficientemente robusta torna, segundo Stephen, toda noção de enredo irrelevante. Normalmente uma situação suficiente robusta é identificada quando ela se encaixa numa pergunta do gênero: E Se? O autor exemplifica fazendo perguntas do gênero para diversas obras de sua autoria, mas a ideia é a seguinte: pense em Harry Potter, por exemplo. Sua pergunta de enredo seria algo como: “E se um garoto órfão descobrisse que na verdade é um bruxo?”. Todo resto sai daí.

Quanto ao conteúdo, Stephen crê que romances são compostos por três principais fundamentos: narração, diálogo e descrição. É neles que ele se debruça posteriormente na seção.

Um dos principais problemas que diversos autores encontram é encontrar o ponto perfeito da descrição. Descrever demais torna a narração extremamente cansativa, mas descrever pouco torna a história superficial e confusa. Dessa forma, como é a descrição ideal? Segundo Stephen, ela deve começar na imaginação do autor, mas terminar na do leitor. Deve ter vocabulário simples. O autor deve fazer um exercício que ele auto intitula de “olhar mental”. Quando pensar na cena a ser descrita, ou na pessoa, pensar como um todo. Abrir todos os sentidos para que seja possível obter uma boa descrição. Neste ponto, vale uma ressalva. O mestre do terror é veementemente contra usar a descrição física para falar de aspectos de caráter (por exemplo: seus astutos olhos azuis).

Outro ponto de atenção levantado pelo autor é: cuidado com seu pano de fundo! Tudo aquilo que aconteceu antes da história, mas que tem relevância para ela, se chama pano de fundo. A palavra mais importante nesse termo é fundo. É lá que esses dados devem estar, sem se tornarem protagonistas da história. A pesquisa, quando necessária, precisa seguir o mesmo rumo. Ficar tão de fundo quanto possível, misturada no contexto.

No que diz respeito aos diálogos, Stephen King é categórico: a chave para escrever bons diálogos é a honestidade, ainda que isso te gere críticas. Ouvir a verdade (ou, no caso, ler) é difícil para algumas pessoas e, muitas vezes, elas transformam suas dificuldades em críticas literárias em sentido. Esqueça as críticas. O importante, segundo o mestre, é prestar atenção no comportamento das pessoas a sua volta e dizer a verdade sobre o que você vê.

Da mesma forma, os personagens precisam ser críveis. Por isso, mais do que nunca, é preciso evitar os estereótipos. Eles precisam se comportar de maneira que ajude a história e que, ao mesmo tempo, pareça razoável. Os personagens são uma união de três elementos: o autor + outras pessoas que existem + criatividade sem limites. Os personagens são elementos muito importantes da história, pois são eles que a guiam. De verdade. Outra parte que gostei muito do livro foi essa, pois também me identifico imensamente! Cito:

“E, se você fizer seu trabalho, seus personagens vão ganhar vida e começar a agir por conta própria. Sei que isso soa um pouco assustador se você nunca tiver vivenciado algo parecido, mas é incrivelmente divertido quando acontece. E vai resolver vários de seus problemas, pode acreditar”.

Também é importante dar um toque pessoal a história, adicionando seu conhecimento. Tudo que melhora a qualidade de sua escrita e não atrapalhe a história pode ser utilizado. Quando você terminar seu livro, é necessário que esteja convicto de que a história tem o mínimo de apelo para o leitor. Que alguma coisa vai atraí-lo a ponto de ele tirar um exemplar da prateleira e levar para morar com ele.

Stephen King também dá dicas para revisão de originais, quando eles já estão prontos. A pergunta principal nessa etapa é: Do que se trata o livro? Como posso tornar o tema, as questões fundamentais, ainda mais claras? Quando o tema do livro é claro, os leitores conseguem inferir por conta própria a moral e tirar suas próprias conclusões. A revisão tem que ter como foco a ressonância, ou seja, como fazer para aquele livro perdurar na vida do leitor.

Outro ponto a ser considerado na revisão é a busca por padrões subjacentes, ou seja, símbolos que permeiem a obra e possam ser utilizados. “O simbolismo existe para adornar e enriquecer, não para criar uma sensação de falsa profundidade”. Ou seja, não force a barra. Nem todo livro tem símbolos – e nem todo livro precisa ter.

Além disso, outros focos revisionais devem ser, claro, marcar incoerências e corrigir erros. É muito comum que encontremos diversos erros de segmento nas obras, buracos no enredo que seriam capazes de comportar um caminhão. A dica, segundo Stephen, é não se autoflagelar. E, não sei vocês, mas saber que Stephen King também passa por isso, acalma meu coração.

A fórmula para revisão é: 2ª. Versão = 1ª. Versão – 10%. Stephen diz que se você não consegue reduzir pelo menos 10% do seu texto na revisão, você não está se esforçando o bastante.

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Ademais, Stephen ainda traz dicas de vida pessoal e mercado literário. Segundo ele, é estritamente necessário reservar um tempo do dia para exercícios físicos (no caso dele, uma hora). Televisão é a última coisa que um escritor precisa (mas ele faz exceções para jogos do seu time favorito, por exemplo). Um bom autor precisa ler muito e escrever muito. Não tem como escapar disso. E, na vida de um escritor profissional, entre 4h e 6h do dia tem que ser dedicadas exclusivamente para isso: escrever. Fora isso é importante lembrar que o editor sempre tem razão. É ele que conhece o mercado, você só conhece suas ideias loucas. Não dá para obrigar uma editora ou um agente a gostar da sua história, mas dá para facilitar que ele goste, não é mesmo? Seja sempre gente boa e profissional!

Por fim, finalizo a resenha com meu trecho favorito, que sumariza a ideia central do livro e é um acalanto para o coração dos escritores:

“Escrevo porque é algo que me completa, sempre escrevi por paixão. Pela alegria sincera que a escrita me dá. E, se você consegue escrever porque sente alegria, vai escrever para sempre”.

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Um livro imperdível para quem, como eu, é apaixonado por esse ofício e quer aprender sempre mais! <3

[1] Verbos “dicendi” são aqueles que empregamos para introduzir a fala de pessoas ou personagens. Ex: dizer, falar, comentar…

Por Clara Savelli