7 de dezembro de 2019

A série The Affair, ai, a série The Affair. Dificilmente uma série causará esse impacto em mim tão cedo.

Em The Affair, leia-se O Caso, vemos dois protagonistas, Alison e Noah, e passeamos por suas perspectivas. Tudo em The Affair é ponto de vista, o espectador nunca tem acesso à coisa em si, mas será que na vida é diferente?

A série brinca com os fatos que mudam na visão de Noah e na visão de Alison. Ambos casados, se conhecem em uma viagem de férias dele com a família e iniciam um romance que parece ter consequências criminais. Nós temos aproximadamente 29 minutos para cada um, oscilando entre o passado, que conta onde tudo começou, e o futuro, em que ambos estão sendo interrogados por causa do assassinato de um dos personagens.

Brincar com perspectivas não é novidade, mas da forma que a Sarah Treem (produtora executiva e roteirista) fez, em uma série de TV, difícil superar. Porque o recurso visual e narrativo aqui não é enfeite nem fala mais alto do que a história. É a história e diz muito sobre a nossa própria socialização.

Explico: Na versão da Alison ela é uma mulher. De verdade. E uma mulher em luto. Ela acorda com o luto, almoça o luto, janta o luto e dorme com ele. Ela perdeu o filho pequeno e se culpa por isso. A vida interna dela é dor. Ela tem camadas. Ela vê no Noah a chance de se sentir viva, não por viver um romance, mas para sentir no corpo, nas relações físicas, alguma coisa que a tire daquele lugar de melancolia.

Na versão do Noah, bom, ela é projeção pura. Ela é a mulher desconhecida da cidadezinha distante que quer muito dar para ele. Muito. Ela usa uma sainha esvoaçante e o provoca desde o primeiro segundo em que o viu. Ela é a mulher que vai tirá-lo do tédio de classe média e da própria incompetência. Tanto é que ela vira o seu livro. Ela é mistério, sedução, novidade. Salvação. Talvez o único e fundamental ponto de contato entre as visões. O Noah quer fugir dos filhos, da adolescente problemática, dos pequenos barulhentos, da esposa que não é mais intrigante, que não inspira o seu gênio. E, ah, o que melhor que uma mulher objeto, que morde os lábios e o olha como se fosse o único homem da Terra, para fazer emergir aquela masculinidade suprimida em um cara que tem que aceitar dinheiro da família da esposa?

Aqui que é interessante nos perceber. As socializações feminina e masculina dizem muito sobre quem somos e quem vamos ser. Observei de perto recentemente como o discurso entre o filho homem criança e a filha mulher criança são completamente distantes. A menina: “ai, que princesa, tão linda, uma boneca.”. O menino: “ai, que lindo, esse vai dar trabalho, hein, vai fazer um estrago por aí.”.

E desde cedo as famílias já analisando as namoradinhas na escola que são insuficientes para aquele menino, que, nossa, já é um grande homem.

É por isso que na versão masculina a mulher só poderia ser mesmo um balão de desejo, uma aventura, um ser oco, que só existe para suprir o carinha meio fracassado (lá naqueles padrões americanos).

E é por isso também que na versão feminina a mulher não está reduzida a uma transa, porque, francamente, trepar com um desconhecido não a define. Porque não define ninguém. Dizem que a verdade mora em algum lugar no meio e você pode assistir The Affair com isso em mente.

Eu tendo a ficar com a versão da Alison, talvez porque tudo na versão do Noah me remeta a uma redução familiar. E acaba soando meio falso, ao menos no que diz respeito a ela.

O curioso é que a série causou um burburinho nos EUA, não por causa do roteiro, mas pela revolta que causou nas pessoas casadas.

Quem quiser observar parte disso, dá uma olhada na página da série no Facebook e nos comentários mais antigos. Há textos e mais textos de pessoas discutindo a questão de se ter um caso, e por qual motivo é injustificável. Parece que a série atingiu uma veia sensível, aquilo de expor que os casamentos tradicionais da classe média americana (na verdade quaisquer que durem muito) não são o paraíso. Ora, por que isso é novidade? Sei lá. Mas mesmo na primeira temporada, antes de ganhar a perspectiva dos personagens traídos na segunda, o público em geral demonstrava mais simpatia pela Helen do que pela Alison, embora tivéssemos pouco acesso a ela (o que foi curado na última temporada e também rendeu um Globo de Ouro à Maura Tierney e uma indicação ao Emmy).

O bom uso da perspectiva em The Affair é o que faltou à série Justiça, produto da Rede Globo que terá seu episódio final nesta sexta. Li muitos comentários online de pessoas que certamente não viram The Affair fascinadas pelo recurso. Assisti. O tema central é ótimo, as atuações são ótimas, mas falta alguma coisa. Emoção, talvez. Um detalhe ou outro no roteiro e na direção que me fizessem entrar no emocional dos personagens. As ações não podem estar lá apenas pelo shock value, as escolhas narrativas também não.

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Portanto: Assistam The Affair. Essa série foi pouco vista no Brasil, por não passar em nenhum canal aberto ou fechado e por não estar em nenhum serviço de streaming popular. Mas vale caçar um link e assistir. Até para discordar de tudo o que eu disse acima.

*Não é o meu último texto sobre a série, quem sabe traçar um perfil da Alison e outro do Noah na próxima (de longe o personagem mais odiado pelos telespectadores americanos).

Hasta la vista, Babys.


Por Érika Nunes

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