Com Jason Momoa irreconhecível como Blanka, golpes clássicos e um elenco quase tão lotado quanto a tela de seleção, o novo filme tenta quebrar a maldição da franquia nos cinemas
“Street Fighter” volta aos cinemas cercado por uma mistura perigosa de empolgação, nostalgia e trauma coletivo. O primeiro trailer do novo live-action finalmente mostra a franquia com seus golpes especiais, cabelos impossíveis, uniformes coloridos e personagens exagerados. Parece uma observação óbvia, mas Hollywood precisou de mais de três décadas para entender que esconder o videogame dentro de um filme genérico talvez não fosse uma grande ideia.
Com direção de Kitao Sakurai (“Twisted Metal” e “Treta”), o longa será ambientado em 1993 e acompanhará Ryu e Ken Masters, agora afastados, sendo recrutados por Chun-Li para o World Warrior Tournament. O torneio esconde uma conspiração capaz de colocar os antigos amigos em lados opostos. Andrew Koji interpreta Ryu, Noah Centineo vive Ken e Callina Liang assume Chun-Li. O lançamento acontece em outubro de 2026, com distribuição da Paramount Pictures e produção da Legendary em parceria com a Capcom.
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Dos Fliperamas ao Fenômeno que Hollywood Nunca Entendeu

O primeiro “Street Fighter” chegou aos arcades em 1987, mas foi “Street Fighter II”, lançado em 1991, que transformou a série em fenômeno mundial. A variedade de lutadores, os estilos de combate e a possibilidade de enfrentar outro jogador ajudaram a definir o gênero. Décadas depois, a franquia ultrapassou 50 milhões de unidades vendidas, enquanto “Street Fighter 6” superou sete milhões de cópias em junho de 2026.
O segredo dos jogos sempre esteve na personalidade. Ryu representa disciplina e aperfeiçoamento. Ken combina talento, vaidade e impulsividade. Chun-Li carrega uma busca pessoal por justiça. Blanka mistura aparência monstruosa, instinto e humanidade. M. Bison é um ditador teatral movido pelo desejo de poder. Cada lutador precisa ser reconhecido antes mesmo de soltar o primeiro golpe.
Essa clareza costuma desaparecer nas adaptações. O novo filme parece compreender que o público quer reconhecer os personagens, os cenários e os movimentos. Hadouken, Flash Kick, eletricidade de Blanka e outras habilidades aparecem sem aquele constrangimento típico de produções que tratam o material original como algo infantil a ser corrigido.
O acerto está em assumir o exagero. O risco aparece quando a fidelidade visual se torna uma coleção de referências sem história para sustentá-las. Uma sequência pode arrancar aplausos ao reproduzir um golpe. Um filme inteiro precisa criar motivos para o público se importar com quem recebe o golpe.
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O Filme de 1994 Virou Cult, mas Errou o Centro da Luta

Lançado em 1994, “Street Fighter: A Última Batalha” colocou Jean-Claude Van Damme como Guile e Raúl Julia como M. Bison. O filme custou cerca de US$ 35 milhões e arrecadou aproximadamente US$ 99 milhões mundialmente, resultado comercial bem menos desastroso do que sua reputação sugere. A crítica, porém, recebeu mal a trama desordenada, as lutas pouco marcantes e a distância em relação aos jogos.
A escolha mais problemática foi transformar Guile no grande protagonista militar, enquanto Ryu e Ken viraram vigaristas coadjuvantes. Os elementos sobrenaturais também foram reduzidos. O diretor Steven E. de Souza preferiu aproximar a produção de uma aventura de guerra com toques de espionagem, tentando tornar aquele universo “acreditável”. O resultado possuía os nomes e figurinos, mas raramente reproduzia a sensação de jogar “Street Fighter”.
Ainda assim, o longa sobreviveu como clássico cult. Parte desse carinho vem da energia descaradamente exagerada e da atuação de Raúl Julia. Mesmo debilitado (ele enfrentava um câncer no estômago em estágio avançado) durante as filmagens, o ator entregou um M. Bison grandioso, teatral e absolutamente comprometido com cada frase. Qualquer novo intérprete do vilão entra no ringue enfrentando esse legado.
Em 2009, “Street Fighter: A Lenda de Chun-Li” tentou uma abordagem mais séria e urbana. A produção custou cerca de US$ 50 milhões, mas arrecadou apenas US$ 12,6 milhões mundialmente. A ausência de Ryu e Ken, a descaracterização de diversos personagens e o tom de filme de ação genérico afastaram novamente a adaptação da identidade dos games.
A websérie “Street Fighter: Assassin’s Fist”, lançada em 2014, encontrou uma resposta mais positiva ao concentrar a história no treinamento de Ryu e Ken e na mitologia do Ansatsuken. Uma continuação chamada “World Warrior” chegou a ser planejada, mas acabou descartada. A experiência deixou uma lição simples: fidelidade funciona melhor quando vem acompanhada de foco.
A Produção Saiu do Limbo com uma Proposta Mais Assumida
A Legendary adquiriu os direitos de cinema e televisão de “Street Fighter” em 2023. Danny e Michael Philippou, diretores de “Fale Comigo”, chegaram a ser escolhidos, mas deixaram o projeto para trabalhar em “Faça Ela Voltar”. Kitao Sakurai assumiu a direção em 2025, depois de comandar a comédia “Bad Trip” e episódios de “Twisted Metal”.
A troca ajuda a explicar o tom atual. Sakurai tem experiência com humor físico, caos controlado e personagens extravagantes. O trailer aposta em uma estética dos anos 1990, ação colorida e certa consciência de que aquele universo é deliciosamente absurdo. A reação inicial destacou justamente a disposição do filme em aceitar a energia camp dos jogos.
O projeto ainda passou por uma mudança importante de distribuição. Após sair do calendário da Sony, o longa encontrou uma nova casa quando Paramount e Legendary fecharam um acordo mundial. A Capcom participa como coprodutora, e o filme foi planejado para exibição em IMAX. Esses movimentos indicam uma produção tratada como possível início de franquia, e não como experiência isolada.
O sinal positivo está na união entre estúdio, dona da propriedade e equipe disposta a abraçar o material. O alerta vem do conhecido desejo de inaugurar universos antes de garantir que o primeiro filme funcione. “Street Fighter” tem personagens suficientes para vinte derivados. Neste momento, precisa entregar uma boa história sobre três deles.
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Jason Momoa Chama Atenção, mas Blanka Deve Ser uma Atração Coadjuvante
A imagem mais aguardada era a de Jason Momoa como Blanka. O ator aparece coberto por maquiagem e CGI para recriar a pele verde, próteses, dentes pontiagudos e cabelos alaranjados. Em uma cena divulgada pela Paramount, o personagem escapa de uma estrutura de contenção e enfrenta Ryu, usando eletricidade e sua movimentação selvagem.
Visualmente, é uma evolução enorme em relação a 1994. Blanka finalmente parece a criatura feroz dos jogos. A maquiagem preserva parte das expressões de Momoa, enquanto o tamanho físico do ator vende a ameaça sem depender completamente de computação gráfica.
A caracterização, porém, poderia explorar melhor a origem brasileira do lutador. O material promocional enfatiza a fera e a violência, mas ainda oferece poucos sinais de identidade, humor ou humanidade. Nos games, Blanka assusta pela aparência, embora esteja longe de ser um monstro sem consciência. Na cena recente, ele é apresentado de maneira mais brutal, levantando dúvidas sobre controle mental, manipulação de Bison ou uma mudança na personalidade.
Momoa provavelmente será usado como grande atração promocional, mas a sinopse oficial coloca Ryu, Ken e Chun-Li no centro da trama. Blanka tende a funcionar como um confronto marcante e possível aliado posterior. Isso pode favorecer o personagem: uma participação concentrada evita que o ator domine uma história que precisa pertencer aos protagonistas.
Ryu, Chun-Li e M. Bison Têm Chance de Roubar o Filme

Andrew Koji parece ser a escolha mais segura do elenco. O ator traz presença dramática, experiência com ação e uma postura compatível com a disciplina de Ryu. O figurino gasto, as luvas vermelhas e a faixa mantêm o visual reconhecível sem parecer roupa de convenção. O desafio será permitir que Ryu tenha conflitos reais. Sua personalidade reservada funciona nos jogos, mas pode se tornar apatia em um longa de duas horas.
Noah Centineo surge como um Ken mais expansivo e aparentemente cômico. A diferença de energia em relação a Koji pode sustentar a amizade e a rivalidade entre os dois. O perigo está em reduzir Ken ao arquétipo do loiro convencido. A sinopse menciona demônios do passado, sugerindo que o roteiro pretende oferecer alguma densidade à separação dos amigos.
Callina Liang pode ocupar a posição mais interessante. Chun-Li recruta os lutadores e inicia a movimentação da trama, o que indica uma função narrativa maior do que a publicidade mostrou até agora. Caso o filme a utilize somente como mensageira entre Ryu, Ken e Bison, desperdiçará uma das personagens mais importantes dos games.
David Dastmalchian, por sua vez, possui a tarefa ingrata de suceder Raúl Julia como M. Bison. A caracterização é fiel, com uniforme vermelho, capa e imponência militar. Dastmalchian também tem o tipo de presença capaz de equilibrar ameaça e estranheza. Entre todos os nomes, ele parece o candidato mais forte a transformar um personagem exagerado em alguém divertido sem convertê-lo em piada.
Cody Rhodes como Guile, Roman Reigns como Akuma, 50 Cent como Balrog, Orville Peck como Vega e Vidyut Jammwal como Dhalsim ampliam o apelo do elenco. Rhodes e Reigns oferecem fisicalidade; Jammwal tem experiência em artes marciais; e Peck já carrega uma ligação estética curiosamente perfeita com máscaras. O problema é a quantidade. A lista ainda inclui Zangief, E. Honda, Cammy, Dan Hibiki e vários outros combatentes.
Guile, Balrog, Vega, Dhalsim e Zangief provavelmente funcionarão como coadjuvantes ligados ao torneio. Akuma pode ser guardado como ameaça paralela ou preparação para uma sequência. Trata-se de uma leitura baseada na sinopse e no espaço promocional atual, já que a produção ainda não detalhou o tamanho de cada participação.

O Maior Risco Está Entre a Nostalgia e a Falta de Foco
O novo “Street Fighter” já conquistou algo que os filmes anteriores tiveram dificuldade para entregar: seus personagens parecem ter saído dos jogos. Guile tem o cabelo absurdo. Vega mantém a máscara e as garras. Chun-Li veste azul. Blanka é verde e elétrico. O longa compreende que fidelidade visual também comunica personalidade.
A direção de arte ainda parece irregular em alguns pontos. Certos figurinos possuem textura e desgaste, enquanto outros lembram peças promocionais recém-retiradas da embalagem. Balrog é menos reconhecível do que os demais. Guile pode funcionar em movimento, mas seu visual corre o risco de virar meme antes que o público conheça o personagem. O melhor caminho seria tratar esses excessos com sinceridade, e não piscar para a câmera a cada referência.
As cenas de luta também precisam sustentar a promessa. Golpes famosos são ótimos para trailers, mas o impacto depende de enquadramento, ritmo e construção. Cada combate deveria revelar algo sobre o lutador: a precisão de Chun-Li, a disciplina de Ryu, a agressividade de Ken, o instinto de Blanka. Efeitos digitais sozinhos criam espetáculo; coreografia cria identidade.
O maior medo continua sendo o elenco superlotado. A versão de 1994 tentou encaixar quase todos e perdeu Ryu e Ken no caminho. O novo filme pode repetir o problema enquanto imagina estar corrigindo o passado. A solução está em assumir três protagonistas claros, um antagonista forte e participantes que entrem na história com funções definidas.
Até aqui, os pontos positivos superam os sinais de alerta. A produção respeita o visual dos jogos, abraça os poderes, escolheu atores com capacidade física e colocou Ryu, Ken e Chun-Li no centro. Os pontos negativos estão no tom possivelmente cômico demais, no risco de participações decorativas e na tentação de transformar cada referência em anúncio para o próximo filme.
“Street Fighter” não precisa esconder sua origem nem se comportar como drama de prestígio. Precisa construir boas rivalidades, filmar lutas compreensíveis e fazer o público desejar acompanhar esses personagens depois do “K.O.”. A franquia já venceu chefões mais difíceis nos videogames. Nos cinemas, ainda busca completar a primeira fase.
Segundo informações oficiais da Legendary, da Paramount e da Capcom, o longa chega aos cinemas em outubro de 2026.
Imagem: Divulgação/Paramount Pictures/Capcom


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