A história de Geizon, o menino de Sepetiba que se tornou Xamã – e o que isso diz sobre o preço de uma escolha
Quem conhece a trajetória de Xamã entende o peso que os títulos das músicas “Flow do Vendedor de Amendoim” e “Rio de Janê” carregam. E a história que vem antes dessas músicas é o tipo que o Brasil produz com frequência, mas raramente conta com o cuidado que merece. A do sujeito que cresce na periferia, acumula empregos que não têm nada a ver com o que ele sente por dentro, e num determinado momento para, olha para o caminho “seguro” que estava seguindo e decide, com a tranquilidade de quem já não tem mais nada a perder, ir em outra direção.
A trajetória de Xamã é exatamente essa e carrega, em cada dobra, o tipo de detalhe que faz uma história durar mais do que um ciclo de hype. Há algo raro nela: a ausência de um golpe de sorte. O que existe, no lugar disso, é uma sequência de escolhas feitas por um homem que aprendeu, da forma mais dura possível, que talento sem coragem fica parado no mesmo lugar para sempre.
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O menino que Sepetiba não sabia que estava formando
Geizon Carlos da Cruz Fernandes nasceu em 30 de outubro de 1989, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e cresceu em Sepetiba, bairro que fica longe do asfalto bonito e mais perto da vida real do que a maioria das pessoas que fala sobre periferia consegue imaginar. O primeiro sonho tinha chuteira. Futebol, como tantos outros meninos da quebrada. As palavras chegaram antes das oportunidades no campo, e chegaram com uma força que o futebol nunca teve. Aos doze anos, Geizon ganhou o primeiro concurso de poesia. O talento estava lá, claro, limpo e sem saber ainda o que fazer com ele.
O apelido Xamã surgiu nas rodas de freestyle quando alguém, pela semelhança física com um indígena, o relacionou ao personagem Nightwolf, do jogo “Mortal Kombat”. O nome colou. E fazia sentido além da aparência: havia algo naquele rapaz que parecia operar numa frequência diferente dos outros.
Nas batalhas de rap que pipocavam pela Zona Oeste, em Campo Grande, Bangu e São Gonçalo, Geizon começou a construir uma reputação antes mesmo de ter qualquer estrutura profissional. Nesses encontros, a única moeda válida era a palavra. Sem produção, sem gravadora, sem recurso. Apenas a capacidade de improvisar melhor do que o adversário, na frente de quem estava ali para julgar. Foi nesse ambiente que ele foi sendo reconhecido por quem entendeu, antes do resto do Brasil, o que estava acontecendo. Naquelas rodas da Zona Oeste, Geizon já era considerado um nome a se observar.
Amendoim, o primeiro cachê e a rima que ninguém estava esperando
O trabalho pesado já estava presente antes da pressão dos palcos. A vida adulta chegou com a rotina que a maioria das pessoas de origem humilde conhece bem: trabalho, conta pra pagar, sonho em espera.
Geizon foi trabalhar numa loja de roupas no centro do Rio enquanto cursava Direito. Lá, organizava vitrines e atendia clientes ao som de Cone Crew e Marechal tocando ao fundo. Quando falava com os clientes, mostrava o produto rimando. Uma performance sem plateia grande, mas que revelava que ali tinha algo diferente.
Chegou a morar na rua em algum ponto dessa época. Vendeu amendoim nos trens da capital. Trabalhou como camelô. O peso desse período é o tipo de coisa que ou quebra uma pessoa ou afina o que ela tem de mais resistente. No caso de Geizon, afiou.
Foi numa batalha de rap, embaixo do viaduto de Campo Grande, que ele teve sua primeira vitória e, consequentemente, seu primeiro cachê. Enquanto estava na faculdade, acumulava funções que tinham uma coisa em comum: nenhuma delas era o que ele queria ser. Essa fase foi vivida com toda a dureza que isso implica. O sujeito que passou por aquilo carrega uma camada de realidade que aparece na voz, na letra e no modo como ocupa um palco. Dá para sentir quando está lá.
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O salto: Direito para a música, e o primeiro voo
Em 2016, Xamã tomou a decisão que muita gente pensa e poucos executam: largou a faculdade para se dedicar inteiramente à música. Gravou um rap num estúdio improvisado que alcançou 30 mil visualizações no YouTube – número que, para um artista iniciante sem estrutura, funcionou como sinal verde. O caminho existia e ele acabava de encontrar a entrada.
Pablo Martins o conheceu numa batalha e o convidou para participar da então desconhecida 1Kilo. A carreira começou a decolar já na primeira participação, no Cypher “Reza Sincera”, que hoje acumula mais de 35 milhões de visualizações. Depois, passou pelo Cartel MC’s e pela Poesia Acústica. Foi nesse período que lançou, ao lado do MC Estudante, “Flow do vendedor de Amendoim” – música construída diretamente a partir dos dias de vendedor nos trens. Uma forma de a arte devolver, com dignidade, o que a vida havia cobrado no sufoco.
Pecado Capital e o Brasil que começou a prestar atenção
Em 2018, chegou “Pecado Capital”, primeiro álbum solo, com 13 faixas construídas com metáforas, texturas e uma visão poética que o rap brasileiro não via com tanta consistência há um tempo. “Luxúria”, com participação de Matuê, passou dos 80 milhões de visualizações no YouTube e colocou Xamã num lugar que poucos alcançam: o de artista que faz o público querer entender o que vem a seguir.
O trabalho foi o passaporte para o Rock in Rio de 2019 – primeira vez do artista no festival. O segundo álbum, “O Iluminado”, chegou ainda naquele ano e foi muito bem recebido pelo público e pela crítica. O projeto funcionou como um verdadeiro “movie mix”: as faixas foram nomeadas e construídas a partir de clássicos do cinema, como “Matrix”, “Pulp Fiction”, “Advogado do Diabo”, “O Iluminado”, entre outros. Cada música carregava o universo visual e narrativo do filme que a inspirava, criando um álbum que era ao mesmo tempo rap e roteiro. Uma obra de quem sempre olhou para o cinema com a mesma intensidade com que olhava para as rimas e que encontrou, nessa fusão, uma linguagem própria.
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Zodíaco: O disco que nasceu da quarentena e chegou à alma
Em 2020, Xamã lançou “Zodíaco” com um ponto de partida diferente de tudo que havia feito antes. Enquanto o mundo parava, ele virou a câmera para dentro. De acordo com o portal Terra, o artista explicou a escolha: “Os discos anteriores olhavam para fora, esse é para dentro. Quis fazer algo mais particular, para chegar a cada pessoa. Com a quarentena, presos em casa, me observei, observei os outros, e percebi que a gente ficou carente para caramba. O ser humano sempre olhou para o céu e buscou explicação por meio das estrelas, dos astros, da Lua, do Sol. Senti-me mais completo me dedicando ao tema.”
O resultado foi um álbum que atravessou gêneros de acordo com a energia de cada signo. Com participações de Agnes Nunes, Luísa Sonza, Marília Mendonça e Gloria Groove, e versos que o próprio artista descreveu como “viscerais tempestades em copo de água”. A faixa “Leão” ultrapassou os 45 milhões de visualizações. Em 2021, “Malvadão 3” chegou ao primeiro lugar nas plataformas de streaming do Brasil. E em 2022, Xamã subiu ao Palco Sunset do Rock in Rio ao lado de Brô MC’s. O menino do trem estava em todo lugar.
Xamã: O ator que ninguém esperava e que ganhou Gramado

A paixão de Xamã pelo cinema sempre esteve visível – nos conceitos dos álbuns, nas referências que escolhia, nos clipes que construía com intenção de diretor. O trabalho como ator revelou mais uma camada de um artista que a versatilidade nunca assustou.
Em 2019, apareceu pela primeira vez na televisão em “Amor de Mãe”. Em 2023, estreou com peso em “Justiça 2”, série da Globo indicada ao Emmy Internacional. Em 2024, entrou no remake de “Renascer” interpretando Damião, par romântico de Eliana, vivida por Sophie Charlotte, e consolidou o que o setor audiovisual já começava a perceber: aquele rapaz sabia habitar um personagem com uma presença que poucos atores com muito mais tempo de carreira conseguem sustentar.
Na Netflix, viveu Búfalo em “Os Donos do Jogo”, ex-lutador de MMA envolvido com o jogo do bicho no Rio de Janeiro. No cinema, foi Sapinho em “Cinco Tipos de Medo”, traficante de uma favela numa relação violenta com a personagem de Bella Campos. O diretor Bruno Bini descreveu o trabalho assim: “Ele carrega um instinto criativo muito potente e tem uma compreensão de cada cena que o deixa muito confortável para experimentar. É um artista completo, um cara apaixonado pelo processo criativo.” A atuação rendeu o Kikito de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Gramado em 2025.
Em 2026, estreou em “Três Graças”, nova novela das 21h da Globo, interpretando Bagdá, chefe de facção que comanda uma comunidade fictícia. Mais um personagem de camadas. Mais uma entrega sem concessão.
Fora da Globo, integrou o elenco da segunda temporada de “Cangaço Novo”, do Prime Video, vivendo Carioca, um ex-militar enredado no plano de um grande assalto no sertão nordestino. E ainda há mais por vir: Xamã está confirmado em uma série de comédia da Netflix, gênero que vai na direção contrária de todos os personagens que construiu até aqui.
Fragmentado: O inventário de uma carreira que ainda está no meio

Em maio de 2025, cinco anos após “Zodíaco”, Xamã lançou “Fragmentado” – 25 faixas que percorrem a própria história do artista com a maturidade de quem tem distância suficiente para olhar para trás sem precisar embelezar nada. O álbum retoma o boom bap das origens e expande para pop, afrobeat e R&B, numa obra que soa ao mesmo tempo como balanço e como declaração de que ainda há muito a dizer.
O disco reúne Major RD, Criolo, Adriana Calcanhotto, Sophie Charlotte e BK, entre outros. Artistas de universos completamente distintos dividindo espaço com um rapper da Zona Oeste que, há dez anos, vendia amendoim num trem. No currículo acumulado: um Latin Grammy, indicações ao BET Hip Hop Awards e ao MTV Europe Music Awards, e turnês pelos Estados Unidos, Europa, África e Austrália. Mais de uma geração de ouvintes que cresceu com a voz dele tocando em algum momento que importou.
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Rock in Rio 2026: O palco e o que ele representa
No dia 6 de setembro de 2026, Xamã sobe ao Espaço Favela do Rock in Rio. Ao lado de Calvin Harris, Black Eyed Peas, Rael e Budah, num dia com pegada retrô anos 2000. Mais uma vez no maior festival do Brasil, o mesmo que recebeu pela primeira vez um rapper de Sepetiba que tinha acabado de lançar o primeiro álbum e ainda carregava, na memória recente, os dias quentes de trem.
A distância entre aquele momento e este não se mede em anos. Mede-se em escolhas. Em quanto alguém está disposto a abrir mão do caminho previsível para apostar no único caminho que faz sentido de verdade, mesmo quando esse caminho não oferece garantia nenhuma.
Do viaduto de Campo Grande ao Espaço Favela. Do amendoim nos vagões ao Kikito de Gramado. Da loja de roupas do centro do Rio à tela da Netflix. Xamã construiu cada etapa com o que tinha disponível e entregou, no final das contas, um dos percursos mais singulares da música brasileira contemporânea.
Imagem: Reprodução/Rock in Rio (Via site Oficial)


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