Quando a tradição e a nossa vontade de mudar se encontram, é normal levantar poeira e encher nossos sapatos de terra velha e nova. Tempestade de Areia é um filme sobre estar no meio do caminho entre aquilo que somos e o que queremos ser – ou supomos querer.

O filme não tem acontecimentos de tirar o fôlego, tampouco cenas de fazer o espectador roer as unhas. É simples, com uma história clara, que parece passar diante dos nossos olhos como se estivéssemos lá. No sul de Israel a tradição aparente de uma mãe entra em conflito com um pai de vanguarda. Ou será que é isso mesmo?

Layla é uma jovem que faz faculdade e encontra no ambiente universitário um interesse amoroso, esse que parece não querer desistir dela. Parece, parece, parece! Tempestade de Areia também é sobre parecer. E no âmago das coisas da vida nem tudo pode ser preto e branco e nem todo vilão se contrapõe ao herói.

O pai quer ensinar a filha a dirigir e autoriza as outras filhas a serem mais soltas em suas tradições. É assim que elas justificam cada ação diante da mãe que costuma ser mais não do que sim. A mãe é uma mulher. Ora, que obviedade! Não, ela é uma mulher, sabe? E ela precisa aceitar o segundo casamento do marido, e que com a segunda esposa, mais nova, ele mantenha uma casa luxuosa (dentro daquele contexto) com a geladeira cheia – enquanto o seu pequeno refrigerador que alimenta quatro filhas só tem água.

Ela então o confronta. O coloca diante da figura que ele mesmo persegue, em eterna situação de impotência. Tudo o que o pai faz é porque ele PRECISA e essa palavra o salva de qualquer má intenção. É com boas intenções que ele bane a esposa que o pediu: “seja homem!”. Mas o pai tão contemporâneo, rapidamente encontra um homem qualquer para casar com a sua filha, diante da constatação que ela tem os próprios amores e escolhas.

Por fim, a mãe austera é redentora. A mãe austera não deixa escapar ao marido que a sua filha merece mais. Que ela tem valor. Que aquilo é pouco para ela. Inclusive, em Tempestade de Areia tudo parece pouco, todos parecem insatisfeitos e presos a papéis que não querem ocupar, mas se mostram incapazes de romper.

No túnel entre a escuridão do passado e a luz do futuro, o choro da filha Layla precisa decidir entre a tal poeira interminável do velho mundo e a possibilidade excitante e assustadora do, talvez, mundo novo.

As tempestades em Tempestade de Areia são individuais e intransferíveis. A dor de cada um é uma dor única. O incômodo de cada um é seu e apenas seu. Mesmo que não se note que ao lado não é lá essas coisas.

Ao final, os olhos da filha mais nova que usa jeans e tem uma atitude, representam novamente a pergunta: e agora? De novo nos repetiremos? Não sabemos. Mas as nossas mudanças pessoais não poderiam encontrar olhar mais certo. É sempre um talvez.


Por Érika Nunes


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2 thoughts on “Tempestade de Areia e a poeira das nossas pequenas revoluções

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