De Travis Scott e Imagine Dragons ao encontro de Katy Perry com Cyndi Lauper, passando por Mariah Carey e pelo inédito Dia Brasil, edição reuniu 730 mil pessoas em sete dias de festival.
Rock in Rio 2024 nasceu com uma missão complicada: celebrar o passado sem transformar a Cidade do Rock em um grande museu de si mesma.
A edição comemorativa dos 40 anos aconteceu nos dias 13, 14, 15, 19, 20, 21 e 22 de setembro, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Ao longo de sete dias, 730 mil pessoas passaram pelo festival para assistir a uma programação que colocou Travis Scott, Imagine Dragons, Avenged Sevenfold, Ed Sheeran, Katy Perry e Shawn Mendes no topo do Palco Mundo.
Só que resumir 2024 aos headliners deixa muita coisa de fora.
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Foi o ano em que o Rock in Rio dedicou, pela primeira vez, um dia inteiro exclusivamente à música brasileira. O Palco Sunset ganhou tamanho e importância. O Global Village estreou. Um musical levou a história da primeira edição para dentro da própria Cidade do Rock. Mariah Carey voltou ao Brasil depois de 14 anos. Cyndi Lauper cantou com Katy Perry. Ivete Sangalo decidiu que caminhar pelo palco era pouco e saiu voando sobre o público.
Também houve atrasos, problemas técnicos, uma estrutura de Ludmilla modificada poucas horas antes de seu show e o cancelamento da participação de Luan Santana no Dia Brasil.
Foi uma edição cheia de acertos, excessos, experimentos e contradições. Ou seja: bastante Rock in Rio.

Uma Cidade do Rock construída para celebrar o passado e testar o futuro
A comemoração começou muito antes de qualquer artista subir ao palco.
Para 2024, o festival reformulou alguns de seus principais espaços. O Palco Mundo ganhou uma nova cenografia com 830 metros quadrados distribuídos em seis telões de LED. Já o Palco Sunset mudou de localização, recebeu uma área maior para o público e passou a ter uma boca de cena do mesmo tamanho da estrutura principal.
Não era uma mudança apenas estética.
Ao ampliar o Sunset, o Rock in Rio 2024 confirmava algo que vinha construindo havia algumas edições: aquele já não era mais um simples palco secundário. Alguns dos shows mais aguardados de 2024 aconteceriam justamente ali.
Foi também o ano de estreia do Global Village, área criada para reunir artistas e referências culturais de diferentes partes do mundo. Hermeto Pascoal, Angélique Kidjo, Amaro Freitas, Mestrinho e outros nomes passaram pelo espaço durante a edição.
A Babilônia Feira Hype ganhou sua primeira versão dentro do festival, com dezenas de expositores de moda, design e economia criativa carioca.
E havia ainda uma atração que olhava diretamente para 1985.
“Sonhos, Lama e Rock and Roll”, musical concebido por Roberto Medina e criado com Charles Möeller, Claudio Botelho e Zé Ricardo, transformava os bastidores da primeira edição em espetáculo. Ao final dos sete dias, aproximadamente 12,5 mil pessoas haviam assistido à produção.
A mensagem estava dada: a festa era pelos 40 anos, mas a Cidade do Rock queria continuar crescendo para todos os lados.
Travis Scott abriu uma edição em que o trap já não precisava pedir licença
O primeiro dia mostrou imediatamente o quanto o perfil musical do festival havia mudado.
Em 13 de setembro, o Palco Mundo recebeu Matuê com WIU e Teto, Ludmilla, 21 Savage e Travis Scott. O Sunset também foi tomado pelo rap, trap e funk, com nomes como Veigh, KayBlack, Orochi, Chefin, Oruam e MC Cabelinho.
Se décadas antes o Rock in Rio precisava justificar a presença de determinados gêneros em sua programação, em 2024 o trap simplesmente ocupou a principal noite de abertura.
Travis Scott encerrou o dia com a intensidade esperada de seus shows, apoiado por uma produção visual gigantesca e por uma plateia que conhecia perfeitamente o ritual. A apresentação acabou aparecendo entre as mais elogiadas da edição e confirmou que aquela geração já tinha público suficiente para comandar uma noite inteira da Cidade do Rock.
Antes dele, Ludmilla viveu uma história mais complicada.
Horas antes da estreia da cantora no Palco Mundo, parte da estrutura cenográfica planejada para sua apresentação foi vetada por questões de segurança. O impasse chegou a colocar o próprio show em dúvida. A produção foi adaptada, a apresentação aconteceu com atraso e Ludmilla admitiu depois que aquilo que chegou ao público não correspondia completamente ao espetáculo imaginado por sua equipe.
Ainda assim, subir ao Palco Mundo marcou outra etapa importante na relação da cantora com o festival, dois anos depois do enorme impacto de seu show no Sunset em 2022.

Imagine Dragons transformou o segundo dia em um enorme karaokê
Se a sexta-feira começou com trap, o sábado seguinte mostrou outra face da programação.
Lulu Santos, Zara Larsson, OneRepublic e Imagine Dragons formaram a escalação do Palco Mundo em 14 de setembro, enquanto o Sunset terminou a noite com o retorno do NX Zero.
O Imagine Dragons fez exatamente aquilo que uma banda construída para arenas sabe fazer: transformar músicas gigantes em coros ainda maiores.
Dan Reynolds correu pelo palco, conversou sobre saúde mental, empunhou a bandeira brasileira e conduziu uma sequência que passou por sucessos como “Thunder”, “Bones”, “Believer” e “Radioactive”. Mesmo críticas menos entusiasmadas ao repertório do grupo reconheceram sua capacidade de comandar um festival desse tamanho.
No Sunset, o NX Zero transformava outro tipo de memória em show. Depois da reunião iniciada no ano anterior, a banda ocupou o festival diante de uma geração que havia crescido ouvindo Di Ferrero e companhia nos anos 2000.
Era o Rock in Rio funcionando como ponto de encontro entre nostalgias diferentes.
O Dia do Rock colocou gerações frente a frente
O primeiro fim de semana terminou em 15 de setembro com a programação mais diretamente associada ao nome do festival.
Os Paralamas do Sucesso, Journey, Evanescence e Avenged Sevenfold ocuparam o Mundo. No Sunset, Barão Vermelho, Planet Hemp com Pitty, Incubus e Deep Purple formaram uma sequência que poderia tranquilamente existir em um festival dedicado exclusivamente ao rock.
Havia história por todos os lados.
Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho conectavam 2024 à primeira edição, na qual ambos haviam se apresentado em 1985.
O Deep Purple, uma banda formada ainda nos anos 1960, conseguiu transformar o Sunset em um dos grandes momentos daquele domingo. “Smoke on the Water”, inevitavelmente, virou um gigantesco coro.
Já o Journey teve trajetória oposta. Problemas de som e uma apresentação pouco empolgante fizeram do show um dos mais criticados daquele fim de semana.
O Evanescence enfrentou falhas técnicas, mas encontrou em Amy Lee uma plateia completamente disposta a cantar “Bring Me to Life” e outros clássicos.
Por fim, o Avenged Sevenfold encerrou a primeira metade do festival diante de um público claramente comprometido com a banda. Depois daquele show, talvez já não fosse necessário continuar perguntando se ainda existia rock no Rock in Rio.
Ele estava ali. Só precisava dividir a Cidade do Rock com todo o resto.

Ed Sheeran provou que nem todo grande show precisa parecer uma nave espacial
Depois de alguns dias de intervalo, o festival voltou em 19 de setembro com uma noite curiosamente diferente.
Jão, Joss Stone, Charlie Puth e Ed Sheeran ocuparam o Palco Mundo. Gloria Groove, Ferrugem com Gilsons, Filipe Ret e o retorno musical de Will Smith estavam entre os destaques do Sunset.
Will Smith escolheu o Rock in Rio para retomar sua carreira musical diante de uma grande plateia, recuperando uma parte de sua trajetória que havia ficado em segundo plano durante os anos em que Hollywood dominou sua imagem.
Mas foi Ed Sheeran quem resumiu melhor o contraste daquela noite.
Em uma edição com telões gigantescos, cenários complexos, efeitos visuais e espetáculos construídos com centenas de profissionais, o britânico fechou o Palco Mundo praticamente sozinho.
Violão, pedais de loop e músicas.
Diante de aproximadamente 97 mil pessoas, conduziu sucessos como “Photograph”, “Perfect” e “Shape of You” sem precisar competir com a escala monumental do próprio espaço. No final, apareceu com a bandeira brasileira.
Às vezes, para ocupar um palco daquele tamanho, basta saber exatamente o que fazer nele.
O Dia Delas entregou algumas das imagens definitivas de 2024
Poucos dias resumem tão bem o Rock in Rio 2024 quanto 20 de setembro.
A programação foi composta exclusivamente por mulheres em todos os palcos. No Mundo, Ivete Sangalo, Cyndi Lauper, Karol G e Katy Perry. No Sunset, Luedji Luna com Tássia Reis e Xênia França, Tyla, Gloria Gaynor e IZA.
Era praticamente impossível atravessar a Cidade do Rock sem encontrar uma história acontecendo.
Ivete Sangalo abriu o Palco Mundo e, em determinado momento, sobrevoou o público presa a cabos enquanto cantava “Pequena Eva”. Foi uma daquelas cenas projetadas especificamente para virar memória de festival.
No Sunset, IZA, então com mais de oito meses de gestação, fez sua apresentação enquanto esperava a filha Nala.
Cyndi Lauper colocou décadas de música pop diante de uma plateia que atravessava diferentes gerações. Karol G levou o pop latino ao Mundo e ainda recebeu Sevdaliza, Yseult e Pabllo Vittar para “Alibi”.
E então chegou Katy Perry.
A cantora escolheu justamente o Rock in Rio para realizar a primeira grande apresentação ligada ao álbum “143”, lançado mundialmente naquele mesmo período. O repertório misturou as músicas novas com a sequência de sucessos que tornou sua relação com o público brasileiro tão forte.
Mas o momento que acabou ultrapassando qualquer campanha de lançamento aconteceu de maneira mais simples.
Katy chamou Cyndi Lauper de volta ao palco. As duas cantaram “Time After Time” acompanhadas por violões.
Duas gerações da música pop, uma canção de 1983 e dezenas de milhares de pessoas cantando junto. É difícil planejar melhor uma comemoração de 40 anos.

O Dia Brasil foi histórico e também revelou os limites da ambição
No sábado seguinte, o festival tentou algo que nunca havia feito.
O Dia Brasil, em 21 de setembro, reuniu um line-up inteiramente nacional e mais de 90 artistas em diferentes palcos.
Em vez de shows convencionais no Palco Mundo, foram montados grandes encontros dedicados a gêneros e movimentos da música brasileira. Trap, rock, MPB, música clássica, samba e sertanejo dividiram o dia.
O projeto permitiu imagens que dificilmente apareceriam em uma programação tradicional. O sertanejo, por exemplo, chegou pela primeira vez ao Palco Mundo do Rock in Rio em uma apresentação conduzida por Chitãozinho & Xororó, com nomes como Simone Mendes, Ana Castela e Junior Lima.
Naturalmente, terminou com “Evidências”.
Havia 95 mil pessoas na Cidade do Rock naquele sábado e a proposta conseguia representar uma diversidade musical que nem sempre aparece quando o festival concentra sua programação em grandes nomes internacionais.
Mas foi também uma experiência que mostrou problemas.
As trocas entre dezenas de artistas tornaram algumas apresentações fragmentadas e o cronograma acumulou atrasos. A consequência mais visível foi o cancelamento da participação de Luan Santana no bloco sertanejo, depois que a mudança dos horários tornou incompatível sua presença no festival com outro compromisso profissional.
O Dia Brasil entrou para a história pelos dois lados.
Foi uma tentativa ambiciosa de colocar a música brasileira inteira no centro da Cidade do Rock, algo provavelmente impossível de fazer literalmente e também uma demonstração de como projetos dessa escala podem se tornar complexos quando chegam ao palco.
Ainda assim, poucos momentos de 2024 traduziram tão claramente a vontade do festival de experimentar.
Mariah Carey roubou o Sunset antes de Shawn Mendes fechar os portões
O último dia, 22 de setembro, havia sido o primeiro da edição a esgotar ingressos, em apenas 37 minutos.
No Palco Mundo, Luísa Sonza abriu a programação antes de NE-YO, Akon e Shawn Mendes.
NE-YO transformou parte da noite em cápsula do tempo para quem viveu o R&B e o pop dos anos 2000. Akon fez o mesmo com seus hits, embora tenha entrado também para a coleção de momentos curiosos da edição quando tentou entrar no público dentro de uma enorme bola inflável que acabou furando.
Só que boa parte da expectativa estava alguns metros adiante.
Mariah Carey não se apresentava no Brasil havia 14 anos.
Escalada como principal nome do Sunset, a cantora surgiu diante de um espaço lotado e entregou uma sequência construída em cima de uma carreira que dispensa qualquer esforço para provar tamanho. Ainda apareceu usando um vestido com referência à bandeira brasileira.
Sua presença também ajudou a confirmar algo que a reforma do palco já sugeria: em 2024, Sunset e Mundo podiam dividir o protagonismo de verdade.
Depois dela, Shawn Mendes teve a responsabilidade de realizar o último show do Palco Mundo.
Era também um retorno particular. O canadense havia reduzido fortemente sua presença nos palcos depois de interromper uma turnê em 2022 para cuidar da saúde mental. No Rio, retomou sucessos como “Stitches”, “Treat You Better” e “In My Blood” diante de fãs que ocupavam a grade desde cedo.
Pouco depois, terminava oficialmente a edição comemorativa.

O festival já era muito maior do que os shows
Se existe uma conclusão importante ao olhar para 2024, é que o Rock in Rio já havia deixado de funcionar somente como uma sequência de apresentações musicais.
Os números fora dos palcos ajudam a perceber isso.
O musical “Sonhos, Lama e Rock and Roll” recebeu cerca de 12,5 mil espectadores.
A roda-gigante transportou aproximadamente 27 mil pessoas. O Mega Drop recebeu cerca de 23 mil; o Discovery, 21 mil; a tirolesa, 8,2 mil; e a montanha-russa, quase 7 mil.
Global Village, Gourmet Square, Babilônia Feira Hype, brinquedos, experiências de marcas e instalações disputavam o tempo do público com os próprios artistas.
Esse crescimento também alimentou uma discussão que continuaria nos anos seguintes: afinal, o Rock in Rio ainda é fundamentalmente um festival de música ou já virou um grande parque de entretenimento no qual os shows são uma das atrações?
Talvez as duas respostas estejam corretas.
Em 2024, era possível passar um dia inteiro correndo entre palcos. Também era possível passar horas em brinquedos, lojas, restaurantes e ativações.
A Cidade do Rock havia se tornado um destino por si só.
Uma edição gigante também teve seus tropeços
Uma retrospectiva construída apenas com fogos, refrões e imagens aéreas deixaria a história incompleta.
O primeiro dia começou com atraso na abertura dos portões e o impasse envolvendo a cenografia de Ludmilla.
Houve reclamações sobre som em diferentes apresentações. O Dia Brasil acumulou atrasos e perdeu Luan Santana. O Journey recebeu críticas por sua performance. Akon virou assunto tanto pelo uso evidente de bases pré-gravadas quanto pela tentativa frustrada da bolha inflável.
Nem todas as experiências funcionaram como planejado. E isso talvez seja parte da dimensão que o festival atingiu.
Com dezenas de shows acontecendo simultaneamente, centenas de artistas, cenografias que precisam entrar e sair em intervalos mínimos e uma cidade temporária operando para centenas de milhares de visitantes, 2024 também mostrou o tamanho da máquina necessária para produzir o Rock in Rio contemporâneo.
Quando funciona, parece simples. Quando não funciona, todo mundo percebe.

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O que o Rock in Rio 2024 deixou para a história
Ao final dos sete dias, 730 mil pessoas haviam passado pela Cidade do Rock e mais de 750 artistas participaram da edição comemorativa.
O impacto também escapou dos portões do Parque Olímpico.
Dados divulgados posteriormente pelo festival apontaram aproximadamente R$ 2,9 bilhões de impacto econômico, ocupação hoteleira média de 88% nos dois finais de semana e faturamento do comércio carioca 24% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
Mas números ajudam apenas até certo ponto. O que define uma edição do Rock in Rio são as imagens que continuam circulando quando a estrutura já foi desmontada.
Em 2024, algumas delas são fáceis de encontrar.
Travis Scott diante de uma multidão tomada pelo trap. Amy Lee conduzindo o público. Ed Sheeran sozinho com seu violão. Ivete voando sobre o Palco Mundo. IZA cantando grávida. Katy Perry e Cyndi Lauper dividindo “Time After Time”. Chitãozinho & Xororó puxando “Evidências” no mesmo palco que recebeu Queen décadas antes. Mariah Carey transformando o Sunset em palco principal por uma noite.
O Rock in Rio comemorava quatro décadas enquanto tentava responder o que queria ser nas próximas.
A resposta de 2024 foi bastante clara: caberia praticamente tudo.
Rock, trap, funk, sertanejo, pop, R&B, música eletrônica, nostalgia, artistas emergentes, veteranos, parque de diversões, musical, moda e algumas dezenas de milhares de pessoas apenas tentando decidir onde estar nos próximos vinte minutos.
Dois anos depois, antes de uma nova edição abrir os portões da Cidade do Rock, 2024 permanece como uma fotografia importante dessa transformação.
Uma festa de aniversário que olhou para 1985, mas passou boa parte do tempo tentando descobrir o que viria depois.
Imagem Destacada: Reprodução/Rock In Rio (Crédito: Guilherme Fontenelle | Approach)


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