Documentário sobre Zico se destaca pela riqueza de arquivo e sensibilidade estética, enquanto enfrenta desafios na organização narrativa e no aproveitamento de seus próprios elementos
“Zico: O Samurai de Quintino”, que estreia em 30 de abril, se insere em um território já conhecido do cinema esportivo: o de transformar ídolos em personagens. No entanto, sua proposta vai além da simples celebração ao buscar construir um retrato que equilibra carreira, memória e intimidade. O resultado é um documentário que acerta na emoção e na forma, mas que revela fragilidades em sua organização narrativa.
O roteiro é o ponto de partida — e também onde reside uma de suas principais tensões. A construção narrativa opta por uma abordagem ampla, que acompanha Zico desde a infância em Quintino, passando pelos conflitos familiares, a formação como jogador e os momentos mais íntimos ao lado de filhos e netos. Há uma clara intenção de humanização, que se traduz em um recorte mais afetivo do que puramente esportivo.
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Essa escolha funciona especialmente bem nos primeiros blocos do filme, quando o desenvolvimento segue uma linha mais orgânica. Episódios como o início da carreira — incluindo o quase acerto com o América-RJ e a histórica atuação em um torneio interno, com 14 gols em uma vitória por 16 a 2 — ajudam a construir a ideia de um talento inevitável, reforçando o caráter quase mítico da ascensão de Zico.
No entanto, à medida que a narrativa avança, o roteiro passa a apresentar oscilações. A principal delas está na quebra da linearidade temporal, especialmente ao inserir momentos da passagem de Zico pelo Japão em meio à construção de sua trajetória no Flamengo. Essa decisão, que parece buscar um efeito emocional ou temático, acaba prejudicando a fluidez e gera desorientação, diluindo a força da progressão histórica.
A montagem, diretamente ligada a essa escolha de roteiro, reforça essa sensação. Ao priorizar conexões afetivas em detrimento da cronologia, o filme ganha em sensibilidade, mas perde em clareza estrutural. Não se trata de um erro grave, mas de uma decisão que evidencia um conflito entre forma e organização.
Se o roteiro oscila, a direção de arte se impõe como um dos grandes destaques do documentário. O trabalho de curadoria de imagens é notavelmente cuidadoso, revelando um acesso a materiais raros que ampliam significativamente a dimensão da obra. O uso de registros íntimos — especialmente as filmagens feitas por Sandra Carvalho, esposa de Zico — não apenas enriquece a narrativa, como também estabelece um diferencial claro em relação a outros documentários esportivos.
Esses materiais funcionam como ponte entre o ídolo e o homem, oferecendo uma perspectiva que dificilmente seria alcançada por meios convencionais. A direção de arte, nesse sentido, não apenas ilustra a história, mas participa ativamente da construção emocional do filme.
A fotografia também merece destaque. Ao trabalhar com imagens do Rio de Janeiro em sua dimensão mais estética e simbólica, o documentário reforça o vínculo entre Zico e sua origem. Há uma valorização clara do espaço como elemento narrativo. Em contraponto, a representação visual do Japão estabelece uma ruptura estética que acompanha a mudança de fase na carreira do jogador. Essa dualidade visual é um dos pontos mais bem resolvidos do filme, mesmo que sua inserção narrativa nem sempre acompanhe a mesma precisão.
Outro aspecto relevante está na construção dos depoimentos. A escolha de nomes como Mauro Beting, jornalista e comentarista esportivo, Dani Boaventura, jornalista e apresentadora da Flamengo TV, e José Carlos Araújo, histórico radialista e narrador de rádio — especialmente marcante na época em que Zico atuava — contribui para um tom mais próximo e menos formal. O filme acerta ao transformar esses relatos em conversas, e não em análises distantes, criando uma atmosfera quase íntima.
Por outro lado, a utilização de figuras como Ronaldo Fenômeno, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, e Carlos Alberto Parreira, ex-treinador da seleção brasileira, evidencia uma oportunidade parcialmente desperdiçada. Embora suas presenças agreguem peso simbólico, o tempo reduzido de participação limita o impacto de suas contribuições, que poderiam aprofundar a dimensão histórica e técnica da narrativa.
Nesse cenário, Paulo César Carpegiani, ex-jogador do Flamengo e posteriormente treinador, surge como uma exceção positiva. Sua participação é consistente e relevante, tanto pelo vínculo direto com Zico quanto pela qualidade dos relatos. Momentos como a reconstituição da final da Libertadores de 1981 contra o Cobreloa, do Chile — marcada pela violência em campo — são conduzidos com equilíbrio entre tensão e leveza. O episódio em que relembra a decisão de colocar um jogador em campo para reagir fisicamente às agressões, contraposto pela lembrança bem-humorada de Zico sobre sua atuação decisiva com dois gols, sintetiza bem o tom humano que o documentário busca construir.
Há ainda um cuidado interessante na construção de respiros narrativos, que ajudam a equilibrar o ritmo do documentário. Além da cena em que Zico aparece jogando botão — um momento leve e simbólico —, o filme se destaca pela inclusão de registros familiares espontâneos. Imagens dos filhos ainda crianças, discutindo entre si ou interagindo de forma despretensiosa com a câmera — como um dos mais novos reclamando que o irmão o agrediu — funcionam como fragmentos de realidade que quebram a lógica do herói e aproximam o espectador de um ambiente doméstico genuíno.
Essas sequências, aparentemente simples, têm um papel fundamental: elas desmontam a imagem monumental de Zico e a substituem por algo mais humano, cotidiano e reconhecível. É nesse tipo de detalhe que o documentário encontra sua maior força — não no mito, mas na intimidade.
No fim, “Zico: O Samurai de Quintino” se sustenta pela força de seu personagem central e pela qualidade de sua construção estética. O filme dialoga diretamente com a torcida do Flamengo, mas não se limita a ela — sua abordagem mais ampla permite alcançar qualquer espectador interessado em futebol ou em histórias de formação e legado.
Ainda que apresente irregularidades no roteiro e na montagem, o documentário se destaca como uma obra sensível, bem produzida e, acima de tudo, humana. Mais do que contar a história de um jogador, o filme busca entender o que constrói um ídolo — e, nesse processo, revela que o maior legado de Zico talvez não esteja apenas nos gols, mas na forma como sua trajetória continua sendo contada.
Imagem Destacada: Divulgação/Globo Filmes

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