O assunto da semana é a série original Netflix “13 Reasons Why”. Adaptação da obra literária do autor Jay Asher, o programa está causando alvoroço nas redes sociais por seu conteúdo denso, além de apontar questões sociais que são menosprezadas pela sociedade, como depressão, bullying e suicídio. Com 13 episódios, a série é produzida por Brian Yorkey, Diana Son e pela cantora Selena Gomez.

Na trama, a adolescente Hannah Baker (Katherine Langford) comete suicídio. Duas semanas após a tragédia, seu colega de turma e amigo Clay Jensen (Dylan Minnette) recebe uma caixa misteriosa em sua residência, que contém treze fitas com as gravações de Hannah e seus motivos para ter se suicidado. Clay deve escutar as fitas enquanto se questiona se foi ou não um dos motivos pelos quais possa ter levado sua amiga a óbito. 

Hannah, a protagonista, é uma adolescente de 17 anos no auge de sua idade. Assim como muitos, precisa escolher uma faculdade, lidar com questões amorosas, fazer amigos, ir às festas, e ao mesmo tempo também é uma pessoa triste. Triste, nesse caso, como um eufemismo, visto que ela possui mesmo uma forte depressão e precisa de ajuda, porém, como acontece na maioria dos casos, sua doença é menosprezada.

Nas fitas, Hannah narra a trama do seu ponto de vista, mostrando ao espectador rumos que certas situações poderiam ter tomado e, assim, evitariam que a doença se agravasse ao ponto de resultar em um suicídio. Através de flashbacks, a série se desenvolve de uma maneira intensa, apesar de sua narrativa ser um pouco vagarosa.

Clay, por outro lado, pode ser caracterizado como uma vítima do sistema machista e patriarcal, uma vez que se difere dos outros rapazes. Apesar de ser um jovem recluso, o que preocupa seus pais, ele transparece seus pensamentos e questões sobre o suicídio de sua amiga, sendo o único a não culpabilizar Hannah e correr atrás da sua visão de justiça.

“13 Reasons Why” apresenta como antagonistas, pessoas que foram condicionadas por um sistema de opressão. Por isso, não há um antagonista específico ou um grupo de antagonistas, uma vez que todos os personagens possuem problemas pessoais e fraquezas. Todos tentam seguir um determinado padrão social, o que torna a trama mais real e cria um elo com o espectador.

E, através desse elo, é que se dá a questão título do texto: e se você for um porquê? Por mais “desconstruído” (a palavra-chave utilizada erroneamente como argumento para ser inocente) que uma pessoa possa ser, ela ainda é capaz de ser um “gatilho” na vida de terceiros. E, como mostra a série, pequenas atitudes podem ser fatais: uma foto, um apelido, um menosprezo ou uma indiferença.

Ser um porquê é ruim, mas o pior é não reconhecer-se como um. É ser incapaz de se arrepender ou não procurar mudança em tempos de empoderamento das minorias, não enxergar que questões como as apresentadas na série precisam ser discutidas e possuem todo um embasamento. Fato é que com o avanço tecnológico, o cyberbullying se tornou cada vez mais frequente, apesar das campanhas contra o ato. Qualquer um se esconde atrás de uma tela e profere ofensas sem pensar.

Por isso, é tão importante que o audiovisual continue a dar visibilidade para questões apontadas como um tabu, como a depressão, o bullying e o suicídio. Através disso, a sociedade consegue ser capaz de formar opiniões diversas acerca de um tema e conscientizar outras pessoas para que prestem atenção naqueles a sua volta. Em “13 Reasons Why”, o cenário que concentra o bullying é a escola, lugar que deveria ser um escudo para proteger seus alunos, mas que, infelizmente, não funciona assim.

Divergindo opiniões, a série também apresenta o lado inconsciente de certas atitudes. Nem todas as condutas tomadas durante a trama são, de fato, feitas com o propósito de fazer mal, o que traz novamente a questão de antagonistas. Até mesmo é válido observar que os personagens precisam escolher entre se prejudicar ou prejudicar o outro e o egoísmo, nesse caso, fala mais alto, porém de maneira não proposital.

Em relação a parte familiar da trama, temos a atriz Kate Walsh (“Grey’s Anatomy” e “Private Practice”) no papel de Olivia Baker, a mãe de Hannah. Olivia é uma mulher comum, que sofre a dor e o luto da morte da filha em seu ápice, mesmo que não entenda os motivos que a levaram àquela decisão. Em diálogos fortes, a atriz nos entrega uma personagem que reflete a falta de comunicação e diálogo entre pais e filhos, muitas vezes derivado de pendências com o trabalho ou até mesmo apenas a incapacidade de se aproximar. De todo o elenco, Walsh é quem desempenha melhor seu papel.

“13 Reasons Why” desencadeou a hashtag #NãoSejaUmPorque no twitter e apresentou opiniões de internautas sobre a conscientização do bullying. Através dela, o Centro de Valorização da Vida (CVV) teve um aumento de 100% de procura através do site e do telefone: 141.

A série possui cenas de violência psicológica e física, agressão verbal, assédio moral e sexual, estupro e suicídio. Caso seja um gatilho, não assista. Procure ajuda no Centro de Valorização da Vida através do site – www.cvv.org.br  ou telefone – 141-, mas não se cale.

“13 Reasons Why” está na Netflix com uma temporada de 13 episódios.