“Seja na beira do mar ou na virada da Serra, no Norte, Sul, leste, leste, cidade do interior é sempre igual. Homens discutem na praça, nos bares ou nas calçadas, política da província, do prefeito ou do vereador. Sempre o mesmo um do igual, onde todos se conhecem, invejam-se na Vitória, estreitam-se na aflição.”

Esse é o primeiro parágrafo de “Bola de Gude”, que já para ser transportado para o lugar onde a história acontece. O autor, Leir Moraes, apresenta uma escrita tão precisa e envolvente que é impossível não se sentir como uma testemunha dos acontecimentos na vida dos personagens.

Pelo parágrafo apresentado no começo do texto já se sabe que a história se passa em uma cidade de interior, Serrado para sermos mais precisos, e é centrada na vida de dois garotos, Zézinho e Tonico, que pertencem a classes sociais muito diferentes, mas são os melhores amigos que essa cidadezinha poderia ter visto. E para representar o leitor como testemunha dessa amizade, temos seu João, o dono do armazém que está sempre a observar o mundinho das crianças que vivem brincando por ali. Seu João é descrito como alguém que, apesar da idade, é o único dos grandes a entender esse universo infantil, suas fantasias e até os problemas, enquanto a maioria dos adultos não tinha paciência ou compreensão. Mas voltemos aos personagens principais, cuja amizade aquece o coração do dono do armazém.

Os inseparáveis Tonico e Zézinho são de classes diferentes, como já foi dito, no entanto são crianças e não enxergam essa diferença, deixando então a observação desse fato para o leitor e as testemunhas adultas desse livro. Eram amigos apenas. Só sabiam se preocupar com as brincadeiras, o jogo de Bola de Gude, os banhos no Rio, e a euforia de ver o circo chegando na cidade.

Os amigos crescem e seguem caminhos muito diferente, porém não é pela diferença social é sim pelo modo como cada um é tratado em casa, o que influencia no modo como cada um enxerga a vida é lida com ela. Enquanto o de família humilde recebe todo o carinho de uma família afetuosa, o mas abastado é negligenciado pelos pais, que quase não estão em casa e vêem o filho como um estorvo, já que a responsabilidade com uma criança atrapalhava no momento de sair para se divertir. O segundo, chega a refletir sobre a vida de maneira extremamente melancólica para a sua idade, só esquecendo dos pensamentos sofridos em companhia do amigo, em meio às partidas de bola de gude.

Seguindo caminhos diferentes, levam vidas bem diferentes, mas acompanhamos apenas uma delas. A outra, permanece um mistério por boa parte do livro. E em meio a esse crescimento, não só dos dois, como da turma em que eles brincavam, que ia se renovando entre chegadas e partidas, um garoto que crescia e ia embora para estudar e uma criança nova entrando para o bando, o leitor fica cada vez mais envolvido na vida dessas pessoas, de modo que fica difícil segurar as lágrimas diante de alguns acontecimentos ou as risadas diante de outros.

E daquele que permaneceu presente no livro, acompanhamos uma nova etapa. Agora adulto, um desses amigos está em uma nova fase, com uma profissão e novas pessoas em sua vida. Sem esquecer os antigos, é claro, mas precisando seguir um rumo diferente.

Percebam como em nenhum momento é dito aqui quem é um e quem é outro dentre esses amigos. Seria quase um spoiler. Isso porque, sendo um rico e outro pobre, o leitor pode pensar que é capaz de adivinhar o destino de cada um, mas “Bola de Gude” é uma história repleta de surpresas, revelando apenas que mesmo uma cidade pequena do interior possui seus mistérios, que vez ou outra derrubam a fama de lugar pacato.

O livro, apesar de ter protagonistas crianças, contém um drama de apertar o coração de muitos adultos. É o envolvimento com os personagens (que vai acontecer, não há como evitar) leva o leitor às mais variadas emoções, sendo que em dois momentos cruciais da trama elas se mostram mais fortes.
Um final surpreendente também aguarda o leitor, afinal, já foi dito que o livro é cheio de surpresas, não é mesmo?

“Bola de Gude” é um livro que irá permanecer em sua mente por muito tempo após o término da leitura, podendo até mesmo nunca sair.

CLOSE
CLOSE