Alexe Poukine faz um retrato ultrarrealista da necessidade de sobrevivência de uma mãe em luto em “A Vida Secreta de Kika”
Histórias de mulheres que precisam seguir em frente e recomeçar após a perda de um parceiro não é lá uma grande novidade no cinema. Porém, o longa belga “A Vida Secreta de Kika“, roteirizado e dirigido por Alexe Poukine, conta essa história com um estilo realista que não tenta suavizar em nada a trajetória de Kika (Manon Clavel), que ao perder o parceiro repentinamente, recorre a uma saída pouco convencional para garantir a sua sobrevivência, de sua filha e do bebê que está gerando.
Em “A Vida Secreta de Kika“, a personagem título é uma assistente social que precisa lidar com a morte precoce de seu parceiro ao mesmo tempo em que se preocupa com a descoberta de sua segunda gravidez. Endividada e com uma filha para criar, ela aos poucos entra no mercado do sexo para complementar a renda. Essa premissa pode parecer simples e batida, salvo por um detalhe: é através de práticas BDSM que essa mulher encontra uma forma rápida de garantir a sua sobrevivência.

Com uma abordagem de direção minimalista e naturalista, Poukine foca na realidade. Sem suspenses, trilha sonora ou qualquer tentativa de guiar o espectador com a fotografia, o que se tem na tela é o foco total na personagem principal e sua luta diária e imediata para existir, sem refletir muito sobre o futuro ou possíveis consequências do caminho que escolheu. É só mesmo a urgência de sobreviver, que é conduzida com muita verdade pela excelente e promissora atriz Manon Clavel (“A Verdade”).
O roteiro que Poukine divide com Thomas Van Zuylen é coerente com a direção, ou seja, não adota tom panfletário nem de pena e nem de empoderamento de Kika. A originalidade da narrativa reside na centralidade na relação de um corpo feminino que está gestando com a prática pouco convencional do BDSM – sigla em inglês para bondage, disciplina, sadismo, masoquismo. Enquanto algumas pessoas enxergam risco, Kika viu oportunidade, pura e simples.

Outro ponto interessante do filme é a forma empática com que trata a comunidade BDSM, de forma mais próxima à realidade e menos tendenciosa para o lado ruim ou glamuroso, como é possível ver em algumas produções hollywoodianas de sucesso. É onde se busca prazer através da dor que Kika encontra apoio emocional e acolhimento, principalmente quando passa a interagir com profissionais mais experientes que ela. Não é o mundo que ela idealizou, mas é o prático e o possível diante de tantos desafios. Inclusive, a outra única atuação que vale destaque além de Clavel é a de Anaël Snoek, que interpreta Rasha, uma dominatrix mais experiente que se torna uma espécie de mentora de Kika.
“A Vida Secreta de Kika” é um filme que não pede permissão para incomodar, mas também não busca chocar pelo choque. Poukine entrega um retrato honesto e corajoso de uma mulher que, diante do irreversível, encontra o possível — e isso, por si só, já é suficiente para tornar a obra necessária. Com uma excelente atuação de Manon Clavel, que carrega o filme com uma naturalidade impressionante, o longa prova que histórias sobre sobrevivência ganham muito mais força quando contadas sem filtros e sem julgamentos.
Imagem Destacada: Divulgação/Synapse Distribution






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