Já faz uns anos que as pessoas se perguntam a razão de ainda não ter tido uma adaptação cinematográfica de um game que faça jus a sua obra original. As possíveis razões apontadas já foram diversas, desde diretores que não sabiam o que estavam fazendo, até produções que ignoraram completamente o conteúdo original da história adaptada. Já houveram vários exemplos desastrosos dessas adaptações, mas qual a receita para um game realmente fazer sucesso no cinema?

Primeiro, temos que parar para entender quais pontos narrativos de um game poderiam se sustentar em outra mídia, já que nos video-games o jogador acaba sendo parte da narrativa dessa história às vezes com mais, às vezes com menos liberdade para mudar seu conteúdo. Enquanto no cinema o expectador apenas recebe a história que lhe é contada, sem contar o fato de que na maioria das vezes o tempo de um filme é muito menor do que o tempo de horas que um jogo demora para ser completado.

Então, temos que ter em mente que precisamos fazer um recorte sucinto naquela narrativa, pegar as coisas que mais funcionam e passar para o roteiro. Pode ser cenário, personagens, até parte do enredo, mas tem que ser o que funciona com seu público e também algo que possa funcionar com aqueles que ainda não conhecer a história. Um exemplo de filme que acabou pensando muito nisso, mas esqueceu um pouco dos possíveis novos fãs que poderia ter alcançado foi o “Warcraft“, que tinha um diretor que era profundo conhecedor de todo aquele mundo retratado, mas não pareceu conseguir contar sua história para aqueles que ainda não o conheciam.

Outro fator importante seria o de não desconfigurar tudo, no sentido de fazer algo completamente novo e que só use apenas o argumento inicial apresentado nos jogos, se não o filme corre o risco de virar quase uma sátira. Um exemplo tragicômico são os filmes do Street Fighter, que os fãs só citam se for para fazer memes ou piadas com o fracasso da produção.

Uma direção eficiente é algo fundamental para qualquer filme, mas a afeição pelo game original deve pesar mais que o “estilo” do diretor, a comunicação com o público é importante como já citamos acima, porém é bom o diretor lembrar que ele é parte de algo que os fãs estão esperando, muitas vezes essa espera começa até antes da produção receber sinal verde para ser feita. O filme “Assassin’s Creed” teve o mesmo diretor de “Macbeth” que pareceu estar querendo fazer uma sequência da história shakespeariana usando o clã dos assassinos, e o resultado foi uma das várias apostas ruins que o Michael Fassbender estrelou em 2017.

Pode até parecer chover no molhado, mas o que temos que colocar nessa “receita” é algo que recentemente pareceu não estar muito bem fixado na cabeça dos produtores de Hollywood quando fizeram “Tomb Raider: A Origem“. O capricho e visão a longo prazo, sim temos que falar de capricho. Porque não é só cenas de ação, personagens conhecidos e fan service que fazem um filme bom. Precisamos que ele seja bem escrito, com bons diálogos e mesmo que ele conte uma história com elementos fantásticos, as coisas tem que fazer algum sentido na cabeça de quem tá assistindo. O último filme da Lara Croft teve um roteiro pobre, que achou que o filme seria sustentado apenas pelo nome da franquia e da atriz ganhadora do Oscar que o estrelaria.

Demorou algumas décadas para os quadrinhos ganharem destaque no cinema, não sabemos quanto tempo ainda demorará para os games conseguirem o mesmo. Mas sabemos que os estúdios têm que começar a aprender com os próprios erros e começar a ter uma visão mais ampla das coisas, da mesma forma que a Marvel fez quando decidiu a fazer os seus filmes, começando pelo “Homem de Ferro“. Não digo que a princípio a salvação é um “universo compartilhado”, mas da mesma forma que foi inventada uma “Fórmula Marvel” poderia ser pensada também uma “fórmula de filmes de games”.


Por Fernando Targino


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