Álbum de The Weeknd transforma dor, excesso e cinema em uma narrativa sombria que atravessa clipes, performances e referências visuais.
Abel Tesfaye, mais conhecido como The Weeknd, é um dos artistas mais completos da atualidade. Sua autenticidade, versatilidade e voz marcante rapidamente cativaram uma legião de fãs em todo o mundo. Isso fica evidente também nos números: The Weeknd se tornou o primeiro artista a ter 30 músicas com mais de 1 bilhão de streams no Spotify. Antes dele, apenas o rapper Drake havia conseguido emplacar 17 músicas.
Mas, para além do talento inegável, outra característica chama bastante atenção: sua sagacidade ao criar histórias limpas que evoluem de um álbum para outro, como etapas da vida: nascer, crescer, viver e morrer. Foi exatamente isso que aconteceu na trilogia formada por “After Hours” (2020), “Dawn FM” (2022) e “Hurry Up Tomorrow” (2025).
“After Hours” é considerado por muitos um dos trabalhos mais marcantes da carreira do artista.
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After Hours e a estética do excesso
The Weeknd é um dos artistas musicais que mais bebem da água cinematográfica. Pode-se dizer que “After Hours” foi um dos trabalhos em que ele mais acentuou essa paixão. O projeto mistura referências de filmes à própria vivência do artista, acompanhando a trajetória do protagonista central de toda essa era.
A ideia do álbum era enfatizar a melancolia, a luxúria, os erros e a solidão após o fim de um relacionamento, mostrando a instabilidade, a insanidade e o desejo de viver os dias como se fossem os últimos.
Um fato que deixa tudo ainda mais conectado é que, na vida real, Abel realmente havia passado por um término com a modelo Bella Hadid. Em toda a estética do álbum, é possível perceber referências a ela.

Clipes transformam o álbum em cinema
Definitivamente, a curiosidade mais intrigante de toda a trama criada é que a escolha do nome do álbum não foi por acaso; ela faz referência direta ao filme “Depois de Horas”, de Martin Scorsese. O longa se passa inteiro em uma única noite, assim como a ideia principal de The Weeknd era retratar a saga de seu alter ego em uma única noite longa e psicodélica. Isso é reforçado quando se percebe que, em toda a narrativa, o protagonista usa o mesmo conjunto vermelho.
Na música “Heartless”, o personagem é acompanhado em uma busca desesperada por liberdade. Ao lado de alguns amigos, ele sai para beber e usar drogas em um cassino, mas as coisas acabam saindo do controle, ficando cada vez mais loucas e desordenadas. Toda a estética psicodélica do clipe lembra bastante o clássico “Medo e Delírio”, protagonizado por Johnny Depp.
Depois dos episódios de “Heartless”, ele segue para “Blinding Lights”, em que rouba um carro e sai em alta velocidade pela cidade. O segundo ato termina após ele protagonizar uma briga de bar e sair desesperado noite afora.
Antes de o próximo clipe ser lançado, The Weeknd publicou um curta-metragem em que mostrava o protagonista saindo de uma apresentação e sendo possuído dentro de um metrô. A cena é uma referência direta ao clássico filme “A Possessão”. Após a possessão, ele entra em um elevador junto de um casal formado por um homem e uma mulher.
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No clipe de “In Your Eyes”, enquanto ainda estão dentro do elevador, um grito feminino sinaliza que a figura central da história havia matado o namorado da mulher que estava ali. As portas se abrem, a moça corre desesperada, dando início a uma perseguição. Em diversos momentos do clipe, principalmente nas cenas em que ele surge segurando uma faca enquanto persegue a mulher, há referências diretas ao clássico “Psicose”. No final, ela consegue arrancar a cabeça dele com um golpe de machado, originando a cena icônica em que dança segurando a cabeça decepada, referência direta ao filme “O Massacre da Serra Elétrica”.
Será que ele faleceu? A resposta mais lógica seria sim; afinal, o protagonista perdeu literalmente a cabeça. Mas não.
Agora, a narrativa entra em “Too Late”, com a cabeça do protagonista sendo encontrada por duas meninas com os rostos enfaixados, sinalizando a realização de cirurgias plásticas. O clipe funciona como uma crítica ao supérfluo, ao desejo carnal e, principalmente, à indústria da música.
Isso fica muito claro quando é revelado que elas se apaixonam pela cabeça dele e resolvem reconstruí-lo com o corpo de um cara jovem e malhado, tirando a vida dele na intenção de “devolver” para a cabeça encontrada. O clipe inteiro mergulha no vale da estranheza, do psicodélico e do irreal.

A crítica à fama, à imagem e à indústria
A crítica é ainda mais reforçada quando ele surge em uma apresentação do MTV VMA com o rosto enfaixado igual ao das garotas. Em “Save Your Tears”, é revelado que o personagem fez botox e preenchimentos exagerados, acentuando que a indústria só se importa em seguir padrões estéticos impossíveis.
O clipe serviu como um protesto direto ao Grammy, que não o contemplou com nenhum prêmio naquele ano. Em determinado momento, ele urina na cabeça de uma das pessoas que estavam sentadas na mesa, fazendo referência a quando Kanye West postou um vídeo com a estatueta do gramofone dentro de um vaso sanitário enquanto urinava nela. Depois, o protagonista aparece se apoiando na cabeça de um homem careca, que estava ali para representar o presidente do Grammy.
Ao final do clipe, o personagem tira a própria vida de maneira simbólica. No lugar de uma bala, saem papéis coloridos da arma usada no ato. Isso dá então um fim à era “After Hours” e inicia, a partir da morte, a segunda etapa dessa história: “Dawn FM”.
The Weeknd é o tipo de artista que prova que arte vai muito além de cantar bem; envolve conceito bem estruturado, conhecimento de outras artes, imaginação fértil e um toque de loucura. Essa junção é o que forma um verdadeiro artista.
Imagem: Divulgação/the weeknd


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