Da frase “Numa toca no chão vivia um hobbit” nasceu um universo que redefiniu a literatura fantástica e continua influenciando escritores, cineastas e leitores ao redor do mundo
Quem nunca ouviu falar de “O Senhor dos Anéis” ou “O Hobbit”, de J. R. R. Tolkien, certamente vive em uma caverna. As duas obras, de maneira inesperada e extremamente orgânica, tornaram-se alguns dos maiores pilares da fantasia moderna, influenciando idiomas, culturas, costumes e até a forma como diferentes criaturas fantásticas passaram a ser imaginadas.
Poucos autores conseguiram construir um universo tão sólido, detalhado e coerente quanto Tolkien. Não por acaso, ele é frequentemente chamado de “Pai da Fantasia Moderna”. O curioso é que toda essa mitologia começou de forma bastante simples, pelo carinho que tinha por seus filhos.
A primeira história ambientada na Terra-média surgiu a partir de uma única frase escrita quase por acaso em uma folha em branco:
“Numa toca no chão vivia um hobbit.”
Foi dessa pequena sentença que nasceu Bilbo Bolseiro e, posteriormente, “O Hobbit”, publicado em 1937, após a insistência dos filhos para que Tolkien continuasse a narrativa.
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Mas de onde surgiu tanta criatividade?

Além de escritor, Tolkien era filólogo, especialista em idiomas antigos, e professor de Língua Inglesa na Universidade de Oxford. Sua paixão pelas línguas influenciou profundamente sua obra, dando origem a idiomas completos, com gramática, fonética e história próprias, como o quenya e o sindarin.
Sua vida também foi marcada por perdas precoces. O pai morreu quando Tolkien tinha apenas quatro anos. Aos 12, perdeu a mãe, Mabel Tolkien, passando a ficar sob a tutela do padre Francis Xavier Morgan.
Católico praticante durante toda a vida, Tolkien nunca escondeu a importância da fé em sua trajetória. Embora evitasse fazer paralelos explícitos entre sua literatura e o cristianismo, reconheceu, em cartas, que sua obra era “fundamentalmente religiosa e católica”, ainda que essa influência aparecesse de maneira implícita.
Essa inspiração é especialmente perceptível na criação do universo da Terra-média.
Segundo a mitologia desenvolvida pelo autor em “O Silmarillion”, no princípio existia apenas Eru Ilúvatar, a entidade suprema responsável pela criação de tudo. A partir de seu pensamento nasceram os Ainur, seres espirituais encarregados de participar da construção do mundo.
Entre eles havia duas categorias, os poderosos Valar e os Maiar, espíritos de menor hierarquia, mas igualmente essenciais na organização da criação.
Antes mesmo da existência do mundo material, Eru reuniu os Ainur para executar uma grande composição musical conhecida como Ainulindalë, ou “A Música dos Ainur”.
Inicialmente, cada um seguia sua própria melodia. Aos poucos, porém, todas as vozes passaram a formar uma harmonia perfeita.
Foi então que Melkor, considerado o mais poderoso entre os Valar, decidiu introduzir sua própria música, motivado pelo desejo de grandeza e domínio.
A semelhança com a narrativa cristã sobre Lúcifer é evidente.
Mesmo tentando corromper a harmonia, Melkor jamais conseguiu superar a vontade de Eru. Ao fim da composição, todas as melodias, inclusive a dele, foram incorporadas à criação de Ea, o universo onde existe Arda, o mundo que mais tarde abrigaria elfos, anões, hobbits e homens.
Posteriormente, alguns Valar e Maiar passaram a habitar esse novo mundo para moldá-lo. Melkor, entretanto, retornaria como a primeira grande ameaça da história daquele universo, dando início aos primeiros conflitos muito antes mesmo do despertar das raças que se tornariam protagonistas das narrativas conhecidas pelos leitores.
Essa profundidade mitológica ajuda a explicar por que Tolkien é considerado um divisor de águas na literatura fantástica. Suas histórias nunca se limitaram a aventuras medievais repletas de espadas e criaturas mágicas. Cada povo possui uma origem própria, cada idioma tem lógica interna e cada acontecimento faz parte de uma cronologia cuidadosamente construída.
O legado também atravessou as páginas dos livros

As adaptações cinematográficas de “O Senhor dos Anéis”, dirigidas por Peter Jackson, conquistaram 17 estatuetas do Oscar e redefiniram os padrões das produções épicas em Hollywood. Décadas depois, o universo criado por Tolkien continuou expandindo seu alcance com “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder”, considerada uma das séries de televisão mais caras já produzidas.
Mas talvez um dos aspectos menos comentados de sua obra seja justamente a maneira como retratou suas personagens femininas.
Em uma época em que muitas mulheres na literatura existiam apenas para servir como interesse romântico ou figura decorativa, Tolkien escolheu outro caminho. Personagens como Galadriel, Éowyn e Lúthien possuem agência, coragem, inteligência e participam ativamente dos acontecimentos que moldam a Terra-média.
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Seu protagonismo nunca depende da sexualização ou de estereótipos rasos. São mulheres fortes porque foram escritas para serem completas, e não para preencher uma cota narrativa. Talvez esse seja um dos detalhes mais fascinantes da obra de Tolkien. Décadas depois, muitas produções ainda tentam alcançar um equilíbrio que ele já havia encontrado de forma absolutamente natural.
Seu legado ultrapassa a fantasia.
J.R.R. Tolkien não apenas escreveu histórias memoráveis, mas estabeleceu as bases sobre as quais praticamente toda a fantasia moderna seria construída. Poucos autores conseguiram criar um universo tão vasto, coerente e influente.
Pode-se dizer que Tolkien tinha o toque de Midas; toda canetada virava ouro.
Imagem Destacada: Reprodução/Tolkien Estate


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