Skeelo Talks reuniu Pedro Rhuas, Ilustralu e Apolo Andrade para discutir literatura nordestina, identidade, memória e a construção de novas narrativas brasileira na Bienal do Livro de SP
O Nordeste pode ser muito mais do que a imagem de seca, pobreza e sofrimento frequentemente reproduzida na ficção. Essa foi uma das principais discussões do Skeelo Talks “Nordeste Ficção”, realizado durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2026. O encontro reuniu Pedro Rhuas, Ilustralu e Apolo Andrade em uma conversa sobre literatura, identidade, memória, regionalidade e os novos caminhos da representação nordestina.
Ao longo do bate-papo, os participantes questionaram a forma como o Nordeste foi historicamente retratado no mercado editorial e audiovisual e defenderam a presença de narrativas que apresentem a diversidade existente dentro da própria região.
A discussão também abordou a expansão de autores nordestinos no mercado editorial, a importância da internet para o surgimento de novas vozes e a possibilidade de levar essas histórias para leitores de outras partes do Brasil e do mundo.
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A literatura diante de um Nordeste que não cabe em uma única imagem
Um dos primeiros pontos levantados durante a conversa foi a necessidade de ampliar a representação regional no mercado editorial. Para os participantes, o Nordeste não pode ser utilizado como uma representação única da diversidade brasileira.
A discussão chamou atenção para o risco de o mercado considerar que a presença de um autor nordestino já seria suficiente para representar as regiões que estão fora do eixo Sudeste.
“O Nordeste não pode também ser usado como token do mercado editorial para apagar outras diversidades que são extremamente importantes”, foi apontado durante a mesa.
A crítica se estende à concentração histórica do mercado editorial e à necessidade de olhar também para as produções do Norte, Centro-Oeste e de outros territórios brasileiros.
“Como se o Brasil só existisse na costa”, foi uma das provocações feitas durante a conversa.
Nesse cenário, a literatura aparece como uma ferramenta para descentralizar o olhar sobre o país e permitir que diferentes regiões contem suas próprias histórias.
Entre a seca e a festa: outras histórias sobre o Nordeste
Para os participantes, uma das formas de romper com os estereótipos é apresentar experiências cotidianas que também fazem parte da vida nordestina. Humor, romance, família, amizade, festas populares e diferentes formas de amor foram citados como elementos capazes de construir outras imagens da região.
A proposta não é negar os problemas existentes, mas evitar que eles sejam tratados como a única possibilidade narrativa. Ao falar sobre sua produção, um dos participantes destacou a escolha de construir uma história que não estivesse baseada na imagem tradicional do Nordeste associado à seca e ao flagelo.
“Que não é essa história de seca, de flagelo, que não vai ter o high school, mas que vai ter o amor da família, né, o carinho da avó, vai ter o amor da família que é escolhida, dar o carinho entre os amigos, e mostrar que existem formas de amor outras, que elas precisam e devem ser celebradas e que, quando há isso, o Nordeste vira festa.”
A frase resume uma das principais ideias discutidas na mesa: a possibilidade de construir uma ficção nordestina a partir de experiências afetivas e diversas.

São João, infância e memória como matéria-prima para a ficção
A memória pessoal apareceu como um dos elementos mais importantes para a construção dessas narrativas. O São João foi apresentado como exemplo de uma tradição que pode ganhar novas camadas quando utilizada na literatura. Em “Faísca”, a festa popular funciona como parte fundamental da história e se relaciona diretamente com as memórias de infância e família.
A narrativa também aborda expectativas sociais e a vivência LGBT durante a infância, colocando essas questões dentro de um ambiente marcado por tradições e conservadorismos. A escolha de utilizar o São João como cenário também parte de uma percepção sobre a falta de histórias que explorem a festa como elemento central de uma narrativa.
“Eu queria, porque o São João foi uma coisa tão importante para mim”, foi relatado durante a conversa. A relação entre literatura e memória foi sintetizada em outra fala:
“Eu acho que a gente é feito das coisas que a gente lembra.”
Nesse sentido, lembrar também se torna uma forma de criar. As experiências pessoais podem ser transformadas em personagens, cenários e histórias capazes de produzir identificação em outros leitores.
“Existem muitos Nordestes diferentes dentro do Nordeste”
A ideia de que não existe um único Nordeste atravessou a conversa. Cada estado possui características culturais próprias, e essa diversidade também pode aparecer na produção literária. Para os participantes, não é necessário construir uma representação homogênea da região para que uma obra seja reconhecida como nordestina.
A identidade pode estar presente nos personagens, nas memórias, nos costumes e nas experiências dos autores, mesmo quando a história se passa em outros territórios. “A nossa visão muito diversa de Nordeste, bem porque existem muitos nordestes diferentes dentro do Nordeste”, foi destacado durante o encontro.
Essa perspectiva também questiona a ideia de que uma obra precisa seguir determinados elementos para ser considerada regional.
Quando o Nordeste atravessa fronteiras
A identidade regional também foi discutida a partir da experiência de quem deixa seu território. Pedro Rhuas contou como referências nordestinas continuam presentes em seus trabalhos mesmo quando os personagens estão em outros países.
Em “O Mar Me Levou a Você”, a inspiração surgiu a partir da relação afetiva do autor com Canoa Quebrada. Já em “Swap Life”, escrito em parceria com o autor iraniano-americano Abdi Nazemian, a narrativa transita entre Brasil e Estados Unidos.
A experiência de escrever uma história situada fora do Nordeste trouxe uma constatação para o autor: a identidade regional não precisa desaparecer quando alguém muda de lugar.
“Esse pertencimento atravessa a gente.”
A frase também se relaciona às experiências de famílias que migraram do Nordeste para outras regiões brasileiras e continuaram carregando referências de suas origens.

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Um Nordeste que também pode ser exportado
A conversa chegou ainda ao mercado internacional. Ao comentar a publicação de “Swap Life” no mercado norte-americano, Pedro Rhuas relatou o interesse da equipe editorial pelas referências culturais presentes na obra.
Segundo o autor, elementos específicos de sua experiência nordestina não foram vistos como obstáculos, mas como características capazes de oferecer algo novo aos leitores.
“Quanto mais específico, o que mais de novo você traz, o que mais diferente, é o que a gente tá mais interessado em ver aqui.”
A afirmação abriu espaço para uma discussão sobre originalidade no mercado cultural. Em um cenário no qual filmes, séries e livros podem seguir fórmulas semelhantes, experiências particulares podem representar justamente aquilo que diferencia uma narrativa.
“Se as histórias continuarem vindo dos mesmos lugares elas vão continuar sendo as mesmas.”
Para os participantes, ampliar os espaços ocupados por diferentes autores significa também ampliar as possibilidades da própria ficção.
Do livro para o cinema: novas imagens do Nordeste
O debate sobre representação também ultrapassou a literatura e chegou ao audiovisual. Durante a conversa, produções como “Bacurau” e “O Agente Secreto” foram mencionadas como exemplos de obras que apresentam outras perspectivas sobre o Nordeste.
Imagem Destacada: Fotografia/Woo! Magazine


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