Original para a televisão, Utena recebeu posteriormente adaptação para mangá e filme animado
Nossa série revisitando animes clássicos retorna para falar sobre “Shoujo Kakumei Utena” (ou “Utena, a garota revolucionária” / lit. ‘da revolução’), um dos títulos mais lembrados dos anos 90 pela estética memorável, estilo teatral, e retratação de um romance proibido.
Esse artigo trata apenas do anime de 1997. Há uma sequência de 1999 intitulada “Adolescence of Utena”, que seria assunto para outro momento. Diferente dos demais textos nossos na temática, o texto a seguir contém spoilers.
Eu mudarei o mundo
Utena Tenjou, uma jovem princesa (bem, não no sentido literal), vê seu mundo abalado quando seus pais morrem em um acidente, deixando-a sozinha. Em meio a tamanho sofrimento surge um príncipe encantado misterioso, que a oferece um anel com emblema de rosa, confortando-a, com a promessa de que um dia se reuniriam novamente. Aquilo mexeu com a cabeça da garota, mas não da maneira que se esperaria: Utena decide que ela mesma vai se tornar um príncipe.
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Anos após o acontecido, nossa protagonista está frequentando a Academia Ootori, onde apesar da popularidade e aplicação acadêmica não escapa de causar dor de cabeça à administração pelo jeito insubmisso. Lá, ela percebe dois membros do alto escalão do Conselho Estudantil perturbando uma garota, Anthy Himemiya. Um deles, Kyouichi Saionji, está noivo dela, e chega a agredi-la com um tapa, o que deixa Utena extremamente irritada. Para adicionar, é por ele que sua amiga Wakaba está apaixonada; ele pendura sua carta de amor no mural da escola, o que a faz se sentir profundamente humilhada.
Inconformada com seus abusos, Tenjou o desafia para um duelo, mesmo sem saber do peso de suas escolhas: aqueles com um anel de rosa como o dela são chamados de duelistas, e ela fará o possível para provar que não só pode ser um príncipe como ser o farol para a injustiçada Anthy, por quem começa a nutrir afeto.

Take my revolution
Utena é… uma viagem de ácido.
Bem, certamente não como “Tatami Galaxy” ou “Serial Experiments Lain”, mas porque o que acontece na frente da tela não tem tanta importância assim. Uma boa forma de ver isso é ver como a série introduz os personagens, o episódio 1; façamos uma digressão tentando tomar disso algum sentido enquanto as coisas não ficam tão abstratas.
A apresentação de Utena inserida nesse mundo de príncipes é tanto um prelúdio quanto uma moldura narrativa, uma forma do narrador manipular a audiência a ver a história de uma certa forma — é como o mito de Orfeu sendo contado no início de “Hamnet” (2025), ou a Ana Francisca de “Chocolate com Pimenta” tomando um banho de tinta para enquadrá-la em paralelo à “Carrie, a Estranha”.
“Não entendo. Todos os rapazes usam roupa parecida”
“Mas você é uma garota!
Depois dessa primeira cena, tudo ocorre na particular normalidade. Descobrimos que Utena é cheia de admiradores — mais garotas que rapazes, aliás —, boa com esportes, embora não demonstre se conformar a certas regras estabelecidas, especificamente de gênero — oras, ela é a garota que quer ser príncipe —, o que fica bem claro na cena em que ela não entende porque a diretora a questiona por usar roupas masculinas e contrariar a ordem e os bons costumes.
A partir dali as coisas escalam, e rápido. Após toda a contenda que tentamos pormenorizar na sinopse da série, vemos a garota subindo as escadas de um suntuoso palácio para lutar por seu destino, e também o de Anthy.
Essa transição de cenários, lutas que são físicas mas mais travadas no campo dos ideais — algo até que comum para battle shounens, embora nem sempre bem sucedido —, conselhos estudantis hiperpoderosos formam uma estética do absurdo que em ponto algum é questionada, mas deixa o telespectador em suspense a todo momento.
Esse estranhamento não ocorre em outros animes como “Kill la Kill” ou “Kakegurui”, também com conselhos praticamente ditatoriais e com humanos com habilidades mentais difíceis de crer. A razão é que Garota Revolucionária Utena é um anime que ocorre em dois planos, o mundo real — aquele que vemos na tela — e o ideal — as obscuridades e metáforas ora mais, ora menos atravessando a penumbra do palpável. Isto é: podemos tomar essa subida ao castelo de cristal como algo real? Sim, e não.
A partir daí o roteiro segue por um caminho episódico serializado, com arcos com um “inimigo da semana”, ao mesmo tempo em que a história progride de forma que é sim uma série que necessita ser assistida em ordem.

Quero encontrar meu lugar no mundo
Uma das “chaves” de interpretação de Utena é através das metáforas de inconformismo de gênero— evidentes, mas nem por isso mais fáceis de digerir. Nossa protagonista é constantemente confrontada pelos maneirismos que não condizem com o que se espera de uma dama, ao que na mesma medida Utena é sempre enfática em reafirmar que ela é sim uma garota.
Não são poucos esses momentos, e talvez valesse a pena dissecar cada uma das implicações de como as relações entre gênero, performance, e expectativas são postas em cheque como centro da narrativa — gostaríamos de destacar três pontos que afetam a percepção da história.
O primeiro é a relação de Utena com Anthy. Parte da evolução de Tenjou é perceber como mesmo ela não escapa das armadilhas criadas para ela e por ela, mesmo antes de seu nascimento: desejando ser um príncipe, proteger a amada, ela replica alguns dos mesmos comportamentos questionáveis daqueles que enfrenta por seus ideais, não até ela reconhecer Anthy como sua igual — não em relação de príncipe e princesa (a metáfora da realeza/pureza remete à “Rosa de Versalhes” (1972), aliás, referência direta para a trama e design de personagens), mas como iguais.
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A segunda, também nesse fio, o que corrobora uma das principais correntes de “interpretação” da obra — nota do autor: não sou um fã de ‘chaves de interpretação’, esse é apenas um possível ponto de vista — é a relação do elenco com Kiryuu Nanami. Loira, ambiciosa, alívio cômico, típica ojou-sama, suas grandes inseguranças revolvem a solidão e o medo de ser uma qualquer no mundo, a mediocridade. Parece existir como contraponto direto à protagonista, forte, resignada, e disposta a confrontar o standard, enquanto Nanami é o próprio status quo, e o anime parece tirar sarro de sua pateticidade, do desejo de ser mais — uma trama bem à “Madame Bovary”.
O que nos leva ao argumento três, e a esse ponto já podemos pontuar o que ao nosso ver é o tema mais relevante — contudo não o único — do anime: indivíduo versus fato social — ou ideologia, ou identidade como forma de prisão, ou (…).
A ideia desse texto não era ser um tratado social ou acadêmico, mas gostaria de chamar a atenção como esse questionamento da construção social é o que torna Utena revolucionária: a Academia Ootori é um microcosmo da juventude, e sua superação — seja pelo aceite passivo, como pela maioria das pessoas, seja pela rebeldia, caso de Utena, marcando a transição para a vida adulta.
A traição de Anthy contra a amiga traz aproximação de como somos vítimas dessas prisões mentais, do medo da coerção social, da repetição conveniente de valores muito maiores que nossas existências isoladas. Mas tudo isso é performance, não existe no mundo real. Ao mesmo tempo, não há como simplesmente viver em sociedade sem nos defrontarmos a eles.

Poderíamos, então, pensar na traição como uma forma de homofobia internalizada e autorejeição? — Anthy chega a comentar na ocasião que Utena não pode ser um príncipe porque é uma garota — acredito que sim, mas que a discussão sobre gênero e sexualidade, embora de forma alguma desprezível, é uma forma de comunicar tensão entre indivíduo e tradição.
Utena é um coming of age, mas sem uma passagem clara para a vida adulta associada à independência financeira, romances juvenis, ou um saber quem sou à Moana. Crescer em Ootori significa perceber — e fazer com isso o que bem entende — que o mundo já havia decidido quem você deveria ser muito antes de seu nascimento.
Talvez por isso a comparação recorrente com “Neon Genesis Evangelion”, não por uma aproximação estética ou temática, embora ambos tratem da individualidade — em uma sociedade que preza pela coletividade e harmonia de grupo —, mas sim por operarem em uma desconfortável zona entre alegoria psicológica e materialidade. Evangelion faz isso nos episódios finais, em Utena essa separação é mais impossível.
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Curiosamente, não é raro encontrar aqueles que rejeitem — talvez por desconforto ideológico — uma leitura do título pelos subtópicos de gênero e homoafetivos. Quem somos nós para ditar como se deve ou não interpretar uma obra — morte do autor —, mas se esse contexto não convence, descobrir que “Rosa de Versalhes” e “Kaze to Ki no Uta” foram referências para o diretor não é bem uma surpresa.
Estaria aí o motivo da série provocar discussões até hoje. Utena morreu? Escapou? Transcendeu? Honestamente, a pergunta parece menos importante do que aquilo que ela representa. Em uma obra tão preocupada com ideais, papéis e narrativas simbólicas, insistir numa resposta puramente literal talvez seja perder parte do ponto. No fim, Anthy, a personagem mais condicionada pelas estruturas daquele mundo, finalmente decide caminhar por conta própria.
Imagem Destacada: Divulgação/Crunchyroll (via TMDB)



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