De 400 toalhas brancas a uma sauna que ficou sem uso, os camarins do festival já receberam pedidos tão específicos quanto inesperados
Os bastidores do Rock in Rio têm uma programação própria, mesmo que ela nunca apareça no line-up. Antes de cada artista subir ao palco, produtores recebem listas detalhadas, transformam camarins, importam alimentos e tentam cumprir pedidos que podem ir de uma simples pizza a centenas de toalhas brancas.
Na edição de 2024, a Cidade do Rock contava com 30 camarins, distribuídos por cinco ilhas ligadas ao Palco Mundo. Todos já possuíam itens básicos, como sofás, poltronas, espelhos, araras e bancadas de maquiagem. A partir daí, cada espaço era adaptado de acordo com as solicitações das atrações.
O contato também não costuma acontecer diretamente com o artista. As demandas são repassadas por produtores e representantes responsáveis por intermediar a passagem de cada músico pelo festival. É nesse processo que começam algumas das histórias mais curiosas do Rock in Rio.
Entre pedidos usados até o último detalhe e estruturas montadas que ficaram completamente intactas, estes são dez episódios que ajudam a revelar o que acontece quando os portões dos camarins se fecham.
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Prince pediu 400 toalhas e queria funcionários de costas
A passagem de Prince pelo Rock in Rio II, em 1991, ficou marcada por uma das listas de exigências mais comentadas da história do festival.
O cantor solicitou 400 toalhas brancas para sua permanência nos bastidores. Segundo relato recuperado pela Caras, apenas 30 teriam sido utilizadas. O restante ficou como mais um exemplo de que, quando se trata de grandes estrelas, a produção precisa estar pronta até para pedidos em escala industrial.
A questão da privacidade também seguia regras próprias. Prince teria solicitado que os funcionários virassem de costas sempre que ele passasse pelas áreas internas do festival.
Para quem estava trabalhando, a orientação provavelmente era simples: se Prince apareceu no corredor, de repente havia algo muito interessante para observar na parede.

Guns N’ Roses pediu 28 pratos de fettuccine e deixou tudo para trás
O Guns N’ Roses também deixou sua contribuição para o folclore dos camarins em 1991.
A banda pediu que fossem preparados 28 pratos de fettuccine. O problema é que nenhum deles foi consumido pelos músicos ou pela equipe.
Em vez de deixar toda a comida ser desperdiçada, a produção distribuiu os pratos entre os profissionais que trabalhavam nos bastidores. Para o Guns, foi uma exigência esquecida. Para parte da equipe, provavelmente foi o jantar mais glam rock do expediente.
Décadas mais tarde, o grupo continuaria demonstrando uma relação intensa com toalhas e camarins. Em 2022, a banda solicitou 12 espaços decorados com rosas vermelhas e brancas, duas massagistas e 200 toalhas.
Britney Spears precisou de escolta policial até o palco
Britney Spears chegou ao Rock in Rio de 2001 como um dos maiores nomes da música pop daquele momento. Sua circulação pela Cidade do Rock, naturalmente, precisava seguir uma operação compatível com o tamanho da estrela.
A cantora solicitou escolta policial para se deslocar dos camarins até o palco. O trajeto, invisível para a maior parte do público, ganhou um esquema especial de segurança para evitar aglomerações e garantir que a apresentação começasse dentro do previsto.
No palco, Britney entregou o espetáculo. Nos bastidores, sua simples caminhada até lá já funcionava como uma pequena operação de Estado.
A edição de 2001 também teve Sandy e Junior ocupando os camarins por três dias para ensaiar antes da apresentação. Milton Nascimento, por sua vez, pediu um colchão de casal e um bolo de chocolate sem glúten.

Elton John queria rosas com talos de exatamente 14 centímetros
Entre flores bonitas e flores aprovadas por Elton John existe uma diferença de alguns centímetros.
Para sua apresentação em 2011, o cantor pediu que o camarim fosse decorado com 32 rosas do mesmo tamanho, todas com talos de exatamente 14 centímetros.
O pedido ainda incluía salada, água destilada, vinhos tintos franceses, um sofá-cama, jogo de cama de 400 fios e travesseiro de plumas. Tudo precisava estar pronto para que o artista pudesse descansar depois da passagem de som.
A equipe de figurino também ganhou trabalho. Elton John levou 20 conjuntos de roupas e solicitou duas camareiras para passar e preparar as peças, combinando cada produção com os sapatos e os óculos correspondentes.
O público viu um show. Nos bastidores, quase aconteceu uma temporada completa de “Queer Eye“.
Rihanna proibiu objetos amarelos em seu camarim
Rihanna pode ter usado praticamente todas as cores imagináveis ao longo da carreira, mas uma delas ficou fora de seu camarim no Rock in Rio de 2011.
A cantora pediu que o espaço não tivesse nenhum objeto amarelo. A lista de solicitações também incluía oito garrafas de vodca importada, pizzas e coxinhas de frango.
Os motivos para rejeitar a cor não foram divulgados. Ainda assim, a orientação precisava ser seguida pela equipe responsável por preparar o ambiente.
Em seu retorno ao festival, em 2015, a artista levou um chef particular e pediu privacidade total nos camarins. As exigências mudaram, mas o controle sobre cada detalhe permaneceu.

Metallica levou máquinas de lavar e secar no avião
O Metallica decidiu que o camarim entregue pelo festival ainda precisava de alguns ajustes.
Na edição de 2013, a banda retirou os móveis do lugar e reorganizou o espaço de acordo com suas preferências. A maior surpresa, porém, veio na bagagem: o grupo teria trazido máquinas de lavar e secar no próprio avião.
Para uma banda acostumada a grandes turnês, a lavanderia particular provavelmente fazia parte da logística de estrada. Ainda assim, transportar os equipamentos até o Brasil mostra o nível de planejamento existente por trás de uma apresentação.
Enquanto o público discutia riffs e repertório, alguém nos bastidores precisava descobrir onde instalar a máquina de lavar do Metallica.
Beyoncé ocupou dez camarins
Em 2013, Beyoncé chegou à Cidade do Rock acompanhada por uma produção à altura de seu nome.
A cantora solicitou dez camarins para acomodar a artista, a banda e as diferentes áreas da equipe. Os ambientes deveriam ter paredes e tetos cobertos por tecidos brancos drapeados, além de móveis brancos, tapetes, plantas e iluminação feita com abajures.
Um dos espaços foi reservado para cabelo e maquiagem. Outros eram destinados aos figurinos e à equipe que cuidava das roupas utilizadas no show.
Curiosamente, a lista de alimentos era bem menos extravagante do que a decoração. Havia frutas, saladas, pães, cereal, barras de granola, chás e a clássica combinação norte-americana de manteiga de amendoim com geleia.
Era quase um pequeno condomínio de camarins, todo decorado em branco e preparado para receber uma das maiores estrelas do planeta.
John Mayer pediu reciclagem, produtos orgânicos e cola instantânea
A lista de John Mayer e sua banda, também em 2013, misturava preocupação ambiental, alimentação saudável e um item capaz de gerar algumas perguntas.
O grupo solicitou que os resíduos fossem separados para reciclagem. O cardápio deveria incluir frutas, saladas e mel orgânicos, água mineral Fiji, iogurte grego, chás e pipoca de micro-ondas.
Para completar, a produção precisou providenciar kits de higiene bucal, dois pacotes de cola instantânea, 84 toalhas brancas de banho e 24 toalhas pretas de rosto.
Não sabemos para quê a cola seria usada. Instrumentos, figurino, objetos quebrados ou alguma emergência muito específica seguem como possibilidades. O mistério permanece colado à história.
Justin Bieber ganhou sauna e banheira de gelo, mas não entrou no camarim
Justin Bieber chegou ao Rock in Rio de 2022 acompanhado por cerca de 70 pessoas e com uma estrutura particular montada para sua passagem.
O cantor pediu 12 camarins, uma banheira de gelo e uma sauna. De acordo com o relato publicado pelo BNews, toda a estrutura foi preparada, mas Bieber sequer entrou no espaço.
A Caras também registrou que a banheira solicitada deveria receber 80 quilos de gelo.
O camarim ficou pronto, a sauna foi instalada e a banheira preparada. No fim, o conjunto permaneceu como uma espécie de exposição privada que o próprio homenageado não visitou.
É difícil imaginar uma metáfora melhor para a imprevisibilidade dos bastidores de um festival.
Em 2024, teve grama sintética, mel importado e mais de 260 toalhas
Os pedidos curiosos não ficaram presos às primeiras edições.
Em 2024, a coordenadora dos camarins do Rock in Rio, Mariana Sirena, revelou algumas das solicitações recebidas pela produção sem identificar os artistas responsáveis.
Uma das atrações pediu que o carpete do camarim fosse substituído por grama sintética. Outra solicitou um tipo específico de mel produzido na Nova Zelândia, que precisou ser importado.
A equipe também teve de buscar um vinho exclusivo no exterior, encomendado com antecedência para que chegasse ao Brasil antes do festival. Já uma banda pediu mais de 260 toalhas.
As histórias mostram que o trabalho da hospitalidade começa muito antes da abertura dos portões. Encontrar os itens, negociar alternativas e garantir que tudo esteja pronto na hora marcada exige uma operação que o público raramente percebe.
Segundo a equipe responsável, nem todos os pedidos podem ser atendidos exatamente como aparecem nas listas. Quando surge algum obstáculo, a produção negocia com o representante do artista até encontrar uma solução possível.
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O verdadeiro espetáculo começa antes dos shows
Os pedidos de camarim podem parecer caprichos vistos de fora, mas também revelam o tamanho da estrutura necessária para receber artistas que viajam com grandes equipes, figurinos, equipamentos e rotinas muito particulares.
Algumas exigências estão ligadas à alimentação, à saúde ou à preparação vocal. Outras buscam criar um ambiente familiar em meio a uma turnê internacional. E existem aquelas que provavelmente deixarão até o produtor mais experiente olhando para a lista por alguns segundos antes de perguntar: “Onde se compra isso?”.
É nesse território entre planejamento, improviso e extravagância que os bastidores do Rock in Rio constroem suas melhores histórias.
Quando as luzes dos palcos se acendem, o público vê o resultado final. Nos corredores internos, porém, o festival já começou há muito tempo, entre rosas medidas com régua, toalhas empilhadas e uma sauna esperando por alguém que nunca apareceu.
Imagem Destacada: Reprodução/Rock In Rio (Crédito: Guilherme Fontenelle)


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