8 de dezembro de 2019

J.k. Rowling se consolidou há décadas como uma das escritoras mais influentes de todos os tempos, seja com “Harry Potter” ou o “Chamado do Cuco“, sua popularidade e elogios da crítica só vem crescendo com os anos. Somando isso com a vontade da Warner Brothers de trazer de volta a franquia Harry Potter, a criadora do mundo bruxo achou que seria a hora de se aventurar como roteirista dos filmes. Assim em 2016 e nos trouxe o divertido, Animais Fantásticos E Onde Habitam” o qual já se mostrava criativo porém desorganizado. Dois anos depois, temos o novo filme da franquia que nos mostra que Rowling continua cheia de ideias, mas ainda não aprendeu a organizá-las em 134 minutos.  

Newt Scamander reencontra os queridos amigos Tina Goldstein, Queenie Goldstein e Jacob Kowalski. Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore, para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da Macusa (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos.

Diferente do primeiro filme no qual brigavam distintos tons e propostas (hora uma aventura intimista, hora um drama sobre o mundo mágico), aqui o roteiro de Rowling se concentra no macro do universo, temos desde a cena de abertura uma inquietante noção da ameaça que Grindelwald representa para o mundo bruxo, e do quão importante é a escolha de um lado no conflito que está por vir. Se por um lado, isso elimina o problema de digressão de proposta que o primeiro filme apresentava, por outro, traz consigo um outro problema que é o excesso de subtramas. Na tentativa do filme de criar uma nova mitologia, ela acaba constantemente jogando o espectador de um arco para o outro sem a menor sutileza ou respiro entre os mesmos (isso é facilmente perceptível quando em um dado momento saímos de uma cena de assassinato para de uma de humor). Isso tudo somado a flashbacks – e revelações em cima de novas revelações – que acaba transformando o filme em uma mini temporada de Game of Thrones picotada para caber em um filme.

A direção de David Yates (que é o maior veterano dentro da franquia) traz o mesmo “feijão com arroz cinematográfico” que sua filmografia tem apresentado nos últimos anos, que consiste basicamente em deixar o lúdico e criativo do filme para sua equipe de efeito especiais/design de produção, ou para a roteirista, o que acaba por funcionar bem na maioria dos casos. A já citada cena de abertura que envolve a fuga do personagem título, é brilhantemente montada e encenada, é muito criativa usando todo o tipo de feitiço mostrado antes na franquia, que somado aos cortes rápidos e ao desempenho de Depp, se torna a melhor cena de ação do filme.

Com o mesmo fervor de Depp, o restante do elenco tem uma química inegável, que só parece aumentar conforme os personagens interagem entre si, mas são todos prejudicados pelo inchaço do roteiro, que não permite que o filme dê espaço suficiente para mostrar a força de seu elenco. E talvez o caso mais visível disso seja o personagem de Credence (Ezra Miller) que apesar de ter um papel importante na trama, tem muito pouco espaço para desenvolvimento e é transformado em um McGuffin humano, limitando assim o desempenho de Miller para apenas um ou outro diálogo.

Apesar de todos os defeitos citados, o terceiro ato consegue elevar o filme, eliminando boa parte das sub-tramas e a transformando em algo mais uniforme, além de trazer a franquia para um território mais maduro, traçando paralelos da trama com o Nazi-Facismo, e estabelecendo de vez um paralelo entre Hitler e o personagem homônimo, basta ver o local em que o personagem se encontra ao fim da trama. Isso tudo somado a uma sequência que é construída baseada na ideia de que quem der “o primeiro tiro” irá estar em desvantagem na guerra, consegue renovar a energia do filme e o dar uma conclusão satisfatória.

“Animais Fantásticos: os Crimes de Grindelwald”  mostra que J.K. Rowling tem ótimas ideias para franquia, mas que ainda não descobriu a melhor maneira para apresentá-las nas telonas.

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Deivid R. Purificação

Cinéfilo assíduo desde que se conhece por gente,e um amante da nona arte.
É da linha de David Lynch que acredita no potencial onírico das artes.

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