Crítica (2): Fallen

De volta ao planeta clichê

Desde que resolveram fundir na literatura determinadas mitologias e, por assim dizer, conhecidas lendas, a vida dos conturbados adolescentes do século 21, possibilitando uma espécie de “bad romance” entre criaturas e humanos, uma febre tomou conta do mercado fazendo surgir diferentes tipos de histórias que praticamente inundaram as livrarias de todo mundo. No ápice, não se ouvia falar de outra coisa, novos escritores surgiram de todos os cantos fazendo com que as vitrines das livrarias ficassem abarrotadas de produtos nada originais.

Vendo o caminho lucrativo que ali nascia a indústria cinematográfica, depois do estrondoso sucesso das adaptações de “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis” (não querendo comparar mal, claro, uma vez que ambos bebem em outra fonte), resolveu aproveitar a trilha exposta e adentrou sem medo o caminho apostando em cheio no gênero que vinha roubando a atenção de adolescentes e vários adultos em todo mundo. Como já vinha sofrendo de uma crise criativa, da qual já surgia certos remakes, naquele momento nascia uma exagerada necessidade de adaptações que renderam monstruosas possibilidades financeiras para todos os envolvidos. Com isso, nos últimos 10 anos, fomos bombardeados por uma saraivada de projetos similares dos quais podíamos tirar alguns poucos e bons enredos, que realmente funcionavam para o cinema.

No meio desses produtos temos o Best seller “Fallen”, da escritora norte-americana Lauren Kate, o último a ser adaptado para os cinemas. A história gira em torno de Lucinda Price, uma adolescente problemática que sofre com as sombras de seu passado e repentinas visões que a atormentam sempre. Na tentativa de se afastar dos problemas, os quais já a colocaram em risco e vem aumentando subitamente, ela aceita ser internada em um reformatório especializado em acompanhar jovens com históricos complicados. Buscando uma oportunidade para recomeçar acaba conhecendo um grupo de jovens, entre eles o tímido e misterioso Daniel um rapaz que ela acredita já ter encontrado outras vezes. Ao mesmo tempo “Cam” (o rebelde sem causa), se aproxima de Luce deixando-a confusa quanto aos seus sentimentos. É então que dessas novas amizades surgem as respostas que Lucinda buscava para colocar sua vida no eixo.

Diferente do arrebatador sucesso de bilheteria que trazia o triângulo amoroso entre um Vampiro (que brilhava), um Lobisomem (que vivia sem camisa) e uma humana (…), “Fallen” aporta aos cinemas com uma produção mais humilde. O filme transpõe com satisfação para as telonas o universo de Kate, conseguindo realizar algo melhor do que muitos outros do gênero. Contudo, ao mesmo tempo, somos afastados com a qualidade duvidosa dos efeitos visuais que nos faz lembrar de alguns dos episódios do clássico seriado “Power Rangers”, principalmente nas estranhas cenas de luta.

O roteiro, escrito a três mãos, por Michael Arlen Ross (Turistas), Kathryn Price (The Game Plan) e Nichole Millard, até tenta respeitar a história original escrita por Kate, mas tropeça bastante. Entretanto, para facilitar a adaptação, os roteiristas optam por diferenciar locações e traços da personalidades de alguns personagens, o que acaba gerando um enfraquecimento na construção do enredo que poderia ter funcionado melhor em uma história feita em episódios para tv. Contudo, apesar dos pesares, conseguiram não exagerar ainda mais no clichê pré-definido da história, mantendo uma estrutura mais simples ao invés de algo “supostamente extraordinário”.

A direção de Scott Hicks (indicado ao Oscar pelo excelente “Shine – Brilhante”) talvez seja o grande problema do filme, uma vez que o profissional acaba oferecendo um ar televisivo para produção. Os planos escolhidos pelo diretor, bem como a estrutura psicológica adquirida através dos ângulos e movimentos de câmeras não conseguem proporcionar uma linguagem cinematográfica. Outro ponto falho em sua direção é o trabalho com os atores que poderiam ter oferecido muito mais em cena.

A fotografia de Alar Kivilo (Um sonho possível) é um dos grandes destaques do filme, mesclando perfeitamente ambientações claras e o azulado sombrio que surge repentinamente como se atmosfera se transformasse em um piscar de olhos e criasse certa profundidade. Algo que funciona muito bem ao ser equilibrado com o ótimo desempenho da direção de arte criada por Zsuzsanna Borvendég (O ritual) e Paul D. Kelly (Sicário), que deram vida ao cenário antiquado proposto pelo livro sem que ele parecesse de terror e decidiram por expandir algumas locações oferencendo a determinadas cenas uma visão mais voltada para o cinema (algo que o filme deveria ter feito em um todo). O figurino simples e objetivo, todo trabalhado em cores neutras e alguns detalhes puxados para algo mais quente, idealizado por Bojana Nikitovic (The November man), também faz bonito ao se destacar em meio aos tons pastéis escolhidos pela arte.

Outro problema para o filme é o elenco, a começar pelo trio principal. Embora Addison Timlin (“Irmã” e “Californication”) seja uma atriz esforçada, aqui ela não convence nem por um segundo. Sua beleza singular até nos faz lembrar da personagem do livro, mas sua falta de carisma a afasta completamente. Sua interpretação só não é inferior ao forçado trabalho de Jeremy Irvine (“Stonewall” e “War Horse”) que tenta encarnar o introspectivo Daniel, mas acaba desaparecendo no meio dos demais. Todavia, Harrison Gilbertson (Need for Speed) acaba sendo uma surpresa na pele de Cam. O ator pega um personagem batizado no clichê de James Dean e entrega um jogo direto e contundente. Já a ótima Lola Kirke (Mistress America), fazendo Penn, é quem realmente salva as cenas durante todo o filme com uma presença indiscutível e uma entrega que acaba apagando o desempenho dos principais.

A trilha sonora de Mark Isham, embora muito bonita e bem trabalhada, acaba aparecendo em exagero na produção, algo que poderia ser melhor dosado pela direção. A opção de coloca-la em quase todo momento nos aporta uma sensação familiar muito vista em novelas mexicanas e brasileras, nas quais temos o exagero do melodrama em evidência.

“Fallen” não é um excelente filme, está longe disso, contém furos absurdos em quase todos os departamentos, entretanto também não é de todo ruim. Sem dúvida alguma consegue ser melhor do que “Crepúsculo”, tanto como livro quanto filme, e no fim das contas proporciona um bom divertimento. Vale o ingresso do cinema para quem gosta do gênero e de aventuras adolescentes.

 

Crítica (2): Fallen
6.5Pontuação geral
Produção7.1
Roteiro7.5
Direção5
Fotografia6.5
Arte e Figurino7.3
Elenco7
Efeitos5
Votação do leitor 2 Votos
5.4