Crítica (2): Sully – O Herói do Rio Hudson

Cinema representado com paixão

É inquestionável que Clint Eastwood se tornou um dos grandes diretores desse século. Mesmo aos 86 anos o artista consegue nos surpreender com projetos aparentemente simples, se formos compará-los com os caríssimos produtos lançados ultimamente indústria, arrancando emoções verdadeiras de um público cada vez mais exigente com histórias do tipo. Alguns de seus trabalhos, principalmente os últimos lançados, foram baseados em histórias reais, o que dificulta ainda mais o desempenho de uma produção e direção pelo simples fato do apego do público com tais acontecimentos. Ou seja, se esses não estiverem próximo daquilo que todos conhecem, o produto pode se transformar em um grande fiasco. – Algo assim aconteceria com facilidade nas mãos de um diretor inexperiente, que não sabe utilizar as técnicas cinematográficas necessárias para dialogar com o público, o que não é o caso de Eastwood. O diretor rompe a barreira do simples e nos apresenta, a cada trabalho, uma verdadeira e sincera obra feita com qualidade, em praticamente todos os ângulos, deixando-nos cada vez mais entusiasmados com o seu cinema.

Em “Sully – O Herói do Rio Hudson”, filme baseado no livro biográfico “Highest Duty: My Search for What Really Matters”, escrito por Chesley Burnett Sullenberger III, em parceria com  Jeffrey Zaslow (Conhecido colunista do The Wall Street Journal, hoje já falecido), acompanhamos o estranho e díficil momento na vida de Sullenberger, conhecido como Sully, piloto do Voo US Airways 1549, que tornou-se conhecido ao fazer um audacioso e bem sucedido pouso forçado no meio famoso rio Hudson em Nova York. Em meio a grandiosa façanha, Sully acaba sofrendo acusações sobre uma suposta má conduta em sua atitude como profissional, depois de 30 anos de serviços bem prestados, deixando sua aposentaria a mercê de um julgamento abrupto e sua carreira bem construída por um triz. O filme nos propõe os dois lados da moeda, levando-nos a questionar junto com o próprio piloto suas atitudes. Seria ele culpado por fugir das normas regradas por manuais criados através de simulações em computador para poder salvar a vida de 155 pessoas, ou o herói do rio Hudson não passa de mais uma vítima assediada pelo sistema que vive em busca de um culpado para poder se livrar de seus próprios erros?!

Produzida pelo próprio Clint Eastwood, Frank Marshall e outros nomes conhecidos do mercado, a realização cinematográfica sobre o extraordinário acontecimento que marcou a vida de muitos americanos no dia 15 de janeiro de 2009, é realizada com toda maestria possível. Com uma produção bem estruturada e, ao seu ponto, charmosa, o filme nos aproxima não só do próprio piloto, como de vários outros envolvidos na história. Sem abusar muito de recursos técnicos aleatórios, se atentando apenas em permanecer dentro de um dia a dia mais descomplicado possível, deixando o grande impacto, literalmente falando, para o acidente com o avião (não trata-se de um spoiler, antes que alguém possa reclamar), a produção acaba apostando na carga dramática dos atores e na empatia que público criou com a história verdadeira. – Quanto aos efeitos visuais utilizados, esses são trabalhados com ponderação para que a obra não se transforme em um projeto sobre acidente aéreo, mas se mantenha como uma história de vida.O roteiro de Todd Komarnicki é bem construído e desenvolvido com inteligência, do inicio ao fim, sem oferecer muitas barrigas e sem querer ostentar possibilidades além daquilo que realmente aconteceu. o roteirista se concentra em contar a história por trás dos fatos, as reflexões e medos que o piloto e seu companheiro de cabine desenvolveram após o acidente. Todavia, também abrange as demais personagens coadjuvantes e disseca com leveza a acusação sofrida pelo piloto, não deixando espaço para especulações sobre o episódio. Claro, quem conhece a fundo a história pode notar pequenas discrepâncias que foram tomadas como liberdade poética para proporcionarem uma maior identificação emocional com o público.

A direção de Clint é pontuada, centrada. Como já foi abordado, o diretor aposta em suas personagens e no poderoso enredo que tem em mãos. De forma linear, ele exalta as complicações após o acontecimento enquanto, aos poucos (me permitam dizer, genialmente), insere a fabulosa façanha do piloto no imenso rio Nova Iorquino. Optando por planos mais fechados, categoricamente criados para revelar com sapiência a emoção e reflexão continua do personagem principal, ele conecta o espectador ao desenrolar da história, enquanto deixa os grandes planos para explicitar com veemencia o tamanho do ocorrido.

A simplicidade da fotografia dialoga com a humildade da personagem título, em todos os aspectos, seja durante a rotina dessa, ou nas refletivas lembranças do acidente que acabam servindo para enfrentar os demônios causados pelo mesmo. Tom Stern, parceiro de Clint de longa data, opta por um trabalho mais opaco para contar o momento vivido por Sully, oscilando entre tons mais fechados de cinza e cores marcantes como o azul escuro, representantes claros do inverno de janeiro. Em paralelo, pincela com tons pastéis o casual dos demais personagens, mostrando o típico adotado na maioria das casas e locações.

O departamento de arte optou por acomodações mais básicas que corroboram, com clareza, da classe social de cada um, enquanto nas dependências governamentais somos atraídos por um estilo mais antiquado revelando a imponência do lugar. Já o figurino de Deborah Hopper (American Sniper), esse seguiu a risca a paleta de cores oferecendo pequenos detalhes que enriqueceram bastante a produção.Com um elenco escolhido a dedo, o filme acaba fazendo um também ótimo trabalho nessa área. Tom Hanks, o grande nome da produção, volta a sua melhor forma com uma interpretação franca e bastante natural. De cabelos totalmente grisalhos e expressões marcadas, o ator demonstra com nitidez seu embarque na construção de sua personagem, tomando para si alguns trejeitos do piloto e memórias emotivas que atraem o espectador. O astro acaba contando com um time de competentes profissionais que o ajudam a engrandecer seu trabalho. Com destaque para a atuação impecável de Laura Linney, que mesmo quase todo o tempo no mesmo cenário conseguiu evitar cair em atuação repetitiva, e Aaroon Eckhart que nos entrega um jogo característico, pontuado no temperado de sua persona, algo na altura do fez no ótimo “Obrigado por Fumar”.

A trilha sonora modorrenta, criada por Christian Jacob e Tierney Sutton Band, que traz impactantes estouros capazes de criar o mistério no meio de todo drama, tal como a marca do piano tocado pelo próprio Estwood em canções poderosamente sentimentais, funcionam como grande diferencial destacando ainda mais a trama.

“Sully – O Herói do Rio Hudson” não funciona como um grandioso blockbuster, capaz de levar milhões de pessoas ao cinema, mas tem grandes chances de fazer bonito nas bilheterias por se apoiar em uma autêntica reflexão sobre a vida e o verdadeira lição que tiramos de certos acontecimentos. Se você gosta de apreciar uma boa direção e atuações ímpares, esse é o filme perfeito, pois trata-se de uma produção que faz a diferença diante a tantos projetos mediocres.

Crítica (2): Sully - O Herói do Rio Hudson
8.5Pontuação geral
Produção8.7
Roteiro8.5
Direção9
Fotografia8.4
Elenco8.9
Figurino e Arte8.6
Votação do leitor 1 Voto
9.0