Crítica (2): Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal

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“Poucas pessoas têm imaginação para a realidade.”

A partir dessa citação do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que abre “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal”, o diretor Joe Berlinger chega a duas conclusões. A primeira, e mais óbvia delas, é que as atrocidades cometidas por Bundy são tão chocantes que, caso fossem obras de ficção, ninguém acreditaria nelas. A segunda, por sua vez, argumenta que qualquer tentativa de compreender os motivos por trás dos crimes seria em vão, uma vez que a mente de Bundy funciona de maneira fora dos padrões.

Assim, pode-se compreender as intenções que regem “A Irresistível Face do Mal”. Em vez de construir um estudo de personagem sobre a figura de Bundy (Zac Efron), Berlinger, no geral, o apresenta de forma bastante objetiva como um assassino carismático, sem nunca se aprofundar nas motivações ou patologias que regem seus atos. Portanto, a maior carga dramática recai sobre as mãos de Liz (Lily Collins), noiva de Bundy à época dos assassinatos, que tem dificuldade em aceitar a real personalidade de seu companheiro.

Infelizmente, essa abordagem nunca é executada satisfatoriamente por Berlinger e pelo roteirista Michael Werwie. Apesar de, teoricamente, buscarem valorizar o ponto-de-vista de Liz, os realizadores, assim como as vítimas de Bundy, terminam por sucumbir aos charmes do notório feminicida. Enquanto muito do filme se dedica a acompanhar as tribulações de Bundy com a Justiça – a exemplo de seu julgamento e suas fugas do cárcere -, muito pouco do drama de Liz é desenvolvido.

Antes de Ted ser preso sob a acusação de sequestro, “A Irresistível Face do Mal” se limita a apresentar o relacionamento deles como o de uma típica família de comercial de margarina. Após o encarceramento, a dinâmica pouco muda, já que Liz apenas incorpora o arquétipo de mulher depressiva – isolada, alcóolatra, sem vontade de fazer nada, constantemente pensando no companheiro criminoso – pelo resto do filme, o que torna o seu sofrimento cada vez mais banal. Em suma, as ações da personagem são totalmente compreensíveis levando em conta o choque de realidade que tomou, mas a forma como o longa aborda isso é preguiçosa.

Outra personagem feminina mal-desenvolvida é Carole Ann (Kaya Scodelario), antiga amiga de Bundy que se torna sua maior defensora e futura esposa. Ao introduzi-la na narrativa, Berlinger e Werwie criam um contraponto interessante entre ela e Liz, uma vez que Carole Ann acredita piamente na inocência de Ted, estando disposta a ajuda-lo de forma obsessiva. Entretanto, esse é o máximo de desenvolvimento que o roteiro dá à personagem, já que ela só parece “existir” quando a trama exige que ela faça algo.

Portanto, a superficialidade é o pior inimigo de “A Irresistível Face do Mal”. Ao mesmo tempo em que, intencionalmente, evita suscitar questões acerca do psicológico de Ted Bundy, o filme também não mostra muito interesse nos dilemas e vivências das outras personagens. Logo, tem-se uma obra dramaturgicamente pobre, marcada pela simples sucessão de datas e acontecimentos, típica dos longas biográficos mais convencionais.

Ainda assim, há alguns elementos que impedem desconsiderar totalmente o filme de Joe Berlinger. A escalação de Zac Efron como Ted Bundy é óbvia, mas bastante acertada, uma vez que a persona de “galã carismático” do ator casa perfeitamente com a personalidade do serial killer retratado. Entretanto, é uma pena que o roteiro, em sua maior parte, não exija muito mais de Efron, pois quando lhe é dada a oportunidade de explorar o potencial dramático de sua personagem, ele se sai extremamente bem (vide a cena em que o protagonista é condenado à cadeira elétrica).

Além disso, apesar do caráter sensacionalista da história, os realizadores conseguem desviar com proeza de todas as armadilhas que pudessem levar a uma glamourização de Ted Bundy e seus crimes. Apesar de narrar a vida de um serial killer, “A Face Irresistível do Mal” é um filme curiosamente pouco violento, em sua maior parte evitando mostrar os assassinatos ou fetichizar a violência cometida por Bundy. Em tempos de crescente recorrência de feminicídios (ou pelos menos do aumento de sua denúncia), isso mostra uma respeitosa empatia dos realizadores com as vítimas (sobreviventes ou não) e seus familiares.

Como introdução ao caso do homem que matou 30 mulheres em apenas quatro anos, “Ted Bundy – A Irresistível Face do Mal” é um filme satisfatório. Todavia, falta-lhe a profundidade necessária para torna-lo mais do que apenas uma página da Wikipédia filmada.


Imagens e Vídeo: Divulgação/Paris Filmes

Crítica (2): Ted Bundy - A Irresistível Face do Mal
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