8 de dezembro de 2019

Quem não se recorda ou não conhece a história de “A Bela e a Fera”, de 1991, pode ter a chance de assistir agora, em 2017, no live-action que a Disney produziu e estreou na quinta, dia 16.

O clássico conta a história de Bela (Emma Watson), uma camponesa que mora com seu pai, Maurice, numa pequena cidade na França. Maurice é inventor e Bela, diferente das outras moças da cidade, tem um fascínio por livros e não cede a pressão social de se casar com Gaston (Luke Evans), o ”partidão” da época. Um dia, em que sai para vender suas invenções, Maurice se perde e acaba por parar no castelo de uma Fera, onde é feito prisioneiro. Assim, Bela vai ao seu encontro e troca de lugar com seu pai. Com o tempo, ela descobre que a Fera (Dan Stevens) é, na verdade, um príncipe que fora amaldiçoado por ser egoísta e essa maldição só será quebrada caso ele consiga amar alguém.

A produção do filme se divide entre seis pessoas que tornam o live-action fiel a animação e ainda acrescentam mais cenas, canções e personagens. Ao contrário do clássico de 1991, o filme procurou por outros lados da história, explicando questões que antes estavam em aberto, como o passado dos protagonistas. Algo que já tinha sido tocado no espetáculo da Broadway.

Os roteiristas Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulous não fazem grandes alterações no roteiro original. Como citado anteriormente, apenas acrescentam cenas sobre o passado dos protagonistas e trabalham em explicar porque a Bela e a Fera são tão ”opostos”. Novos personagens também foram inseridos, o que acabou dando um novo fôlego para algumas cenas.

O trabalho do diretor Bill Condon divide-se em duas partes. A primeira trata-se de um olhar teatral sobre a camponesa da pequena cidade que deseja uma vida melhor do que aquela a qual foi destinada. Nesse momento, todas as atenções são voltadas para ela, inclusive quando já somos apresentados a Fera. Assim, algumas cenas de protagonismo apenas da moça acabam por serem arrastadas, sem uma grande atuação ou expectativa. Até mesmo a falta de ação (no caso, daquela atitude óbvia que esperamos que um personagem tome em um filme) de alguns personagens não passam despercebidas. Na segunda parte, em que começamos a ficar mais íntimos da Fera e dos objetos do castelo, a produção consegue mostrar a que veio e realizar um trabalho impecável.

Emma Watson, a protagonista da trama, consegue se desprender de Hermione Granger, seu papel nos sete filmes da franquia Harry Potter. Para criar a sua própria Bela, a atriz disse ao Entertainment Weekly que optou por fugir ainda mais do padrão social imposto a mulher de constituir família e ser subordinada. Assim, Emma consegue transmitir para a personagem essa questão de empoderamento e emancipação feminina. A atriz desempenha um bom trabalho, principalmente nos momentos em que precisa se fazer mais destemida do que é, mas erra ao não passar toda a emoção necessária da personagem. Algo que não compromete muito suas cenas, pois é possível notar que o trabalho da atriz ainda nos permite enxergar que a personagem não deixou em momento algum de sonhar com seus objetivos.

A Fera é interpretada pelo ator Dan Stevens, que aparece com um sincero e delicado jogo de cena, talvez justificável por sua impecável atuação na série britânica “Downton Abbey”, da qual o ator tira alguns ”traços” para compor os momentos em que ainda é príncipe. Quando é Fera, na maior parte do filme, Stevens muda as características do personagem e transforma-se em outro. A Fera, que também sofreu com a falta de uma figura materna, é introspectivo, solitário e triste. A maldição afeta diretamente em sua vaidade, justificando a necessidade de fazer com que alguém se apaixone por ele ainda como Fera. Após o convívio com Bela, a interpretação do personagem torna-se outra, na qual seu lado mais sensível é apresentado, e, esse, o ator consegue passar com muita naturalidade.

Os objetos-pessoas que moram no castelo são feitos por grandes nomes: Ian McKellen como o relógio Horloge, Ewan McGregor como o candelabro Lumiére e Emma Thompson (foi difícil reconhecer!) como Madame Samovar, o bule. Os três, juntos, dão a trama a parte cômica, afinal, Lumiére e Horloge ainda divergem sobre a melhor maneira de servir seu mestre, como na animação. Os objetos dão respostas para todas as perguntas que o desenho não respondeu, como os outros filhos da Madame Samovar (agora só existe o Zip).

O antagonista Gaston, que quer desesperadamente se casar com Bela, é interpretado pelo ator Luke Evans. No filme, o personagem é narcisista e embora se declare para si mesmo inúmeras vezes, tem a necessidade de ser motivado por seu ajudante LeFou. Esse, interpretado pelo ator Josh Gad, foi alvo de polêmicas por ser um personagem homossexual. É necessário deixar claro que homossexuais sempre existiram, dentro e fora do audiovisual (incluindo diversas animações). Foi – e continua sendo – desnecessário tanta polêmica para uma cena tão curta, inclusive, o ator consegue surpreender nesse papel, dando ao personagem um toque mais humano. Enquanto Gaston é insensível, LeFou pondera cada atitude em que a dupla toma, ainda que não perceba o quanto abusiva é a relação que tem com seu comparça.

Todos os atores cantam as canções do filme. O clássico ”A Bela e a Fera” pode ser ouvido na versão sensível de Emma Thompson. Uma das músicas mais bonitas é ”Evermore”, interpretada pelo ator Dan Stevens, como a Fera, no momento em que Bela volta para salvar seu pai. O toque saudoso e apaixonado com que Stevens domina canção emociona o público. A cantora Céline Dion dá voz a ”How Does A Moment Last Forever”, canção inédita para o filme e desprende a interpretação utilizada anteriormente, na animação de 1991, ao entonar a música tema da trama.

O figurino de Jacqueline Durran tenta ser o mais fiel possível e nos surpreende em cada detalhe apresentado, desde a composição dos personagens da vila como os do castelo. Cada personagem está vestido perfeitamente, como as roupas do baile da Bela e a Fera. A reconstrução de época para as vestimentas, e a fidelidade com que foi feito, é simplesmente extraordinária. O clássico vestido amarelo, referência essencial do filme, é apresentado com minuciosidade, desde as camadas até os brilhos.

Com um design de produção estonteante, o filme tem grandes chances de concorrer ao Oscar do próximo ano nessa categoria. Os cenários arquitetados fazem menção aos do original e nos deixa emocionados com tamanha a perfeição. Mesmo trazendo as tradicionais paletas em tons pastéis, as quais sustentam muito bem a atmosfera da época, é no contraste das demais cores (azul, laranja, amarelo nas cenas do vilarejo – e o toque em vermelho com dourado) que temos o encontro de diversas emoções que o filme acarreta.

Por fim, o live-action mostrou a que veio e não fugiu de nada que propôs. É de se emocionar do começo ao fim e, claro, voltar a ser a criança que desperta em cada um de nós quando falamos da Disney. O filme estreou hoje nos cinemas.


Os créditos finais apresentam os atores e os personagens que interpretaram, fazendo um antes e depois com as imagens. São cenas bonitas que merecem ser vistas, além das canções que voltam a ser reproduzidas durante os créditos.

Polêmica com o personagem LeFou

O filme tem classificação etária de 10 anos. Talvez, a única cena em que crianças consigam questionar seus pais, seja no final, no qual o personagem dança com outro, que também é homossexual. Fora isso, não há necessidade de críticas exageradas e nem boicote ao filme.

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Júlia Cruz

Acredita ser uma criação do Projeto Leda enquanto espera o Doutor com a sua Tardis. É apaixonada por cachorros, gosta de acender incensos, observar estátuas e tomar café. Descobriu que tudo é passível de crítica e desconstrói os enredos das mais de cem séries que já viu, para os leitores da Woo Magazine.

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17 thoughts on “Crítica: A Bela e a Fera

  1. Cheguei ao fim do seu texto sem fôlego! Como você escreve bem! Confesso que tive medo de ler sua crítica, por ainda não ter visto o filme rsrs, mas gostei de saber que o filme traz cenas sobre parte que ficam em aberto na animação. Também gostei da parte em que você menciona a atuação da Emma. Gostei muito da sua crítica, vou assistir ao filme com outro olhar 😀

    1. Nossa, Ariadne, que bom receber um retorno caloroso assim igual ao seu. Eu evito ao máximo dar spoilers dos filmes, isso é essencial quando fazemos críticas, principalmente de um filme que está em alta e teve uma grande recepção pelo público.

  2. Não estava sabendo sobre essa polêmica e concordo que esta é extremamente desnecessária. É triste saber que o preconceito ainda reina em nosso meio a ponto de quererem boicotar uma obra que parece, de fato, estar linda. Estou muito ansiosa para poder assistir ao filme e sua crítica me deixou com ainda mais vontade.

    1. Júlia, enquanto nós, como pessoas formadoras de opinião, nos negarmos a falar sobre questões sociais como orientação sexual, o preconceito ainda reinará. É muito triste, de fato, ainda mais num estado laico onde religião não deveria se misturar com nada – a religião foi um dos grandes argumentos utilizados pelas pessoas que tentaram boicotar e não conseguiram. O filme é um sucesso, ainda bem.

  3. Estou louca para assistir o filme, desde ao ano passado.. mas terei que esperar sair dos cinemas :c

    Adorei sua crítica, visto que, ela foi bem descritiva e argumentativa. Li muitas notícias e críticas sensacionalista, preconceituosas sobre o casal homossexual estragar a história, e toda vez que lia algo a respeito disso recusava terminar a leitura. Como dito por você, casais homossexuais sempre existiram dentro ou fora das telas! Acreditei sim que eles seguiriam a história em si, mas também algo mais aconteceria… já que não é apenas um remake da história em si, eles sempre precisam apresentar conteúdos deveras diferentes e que faça valer a pena.

    Estou feliz pela atuação da Emma e por conseguir se livrar aos poucos da Hermione, ela merece ser reconhecida como atriz e não como personagem, apesar de que, o trabalho feito por ela foi sensacional e Hermione sempre estará em nossos corações!

    Como dito, adorei sua crítica! E ao lê-la só me dei conta de que estou mais triste do que imaginava por não poder ir assistir o filme que tanto estava aguardando! Fazer o que, não é?!

    1. Jéssica, você resumiu tudo o que eu tentei falar com a crítica e mais um pouco. Fico muito feliz pelo feedback positivo. Quanto ao casal homossexual, sua colocação foi perfeita a partir do momento que estamos tratando de representatividade também, independente de ser um remake ou não.

    1. Juliana, eu evito ao máximo os spoilers, acho que toda crítica tem que ser assim. Você poderia ter lido tranquilamente, mas tudo bem. A adaptação está bem fiel sim.

  4. Estou doida para assistir esse filme, com certeza vou me emocionar, adoro filmes da Disney pois lembra a minha infância e como não se emocionar lembrando a infância.

    A sua crítica foi mara e me deixou com mais curiosidade do filme.

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