Uma Explosão de sentimentos

Sem dúvida alguma o cinema é uma das artes mais imponentes e marcantes que existe no mundo. É o responsavel por um inimaginável poder de comunicação e uma infinidade de histórias que se tornaram inesquecíveis com o passar do tempo. Entretanto, não é qualquer um que sabe fazer uso dessa ferramenta de forma que atinge em cheio o público. Ao longo dos anos, como já dito, muitos foram os filmes que marcaram uma época, porém, a falta de criatividade também bateu com força na porta dos estúdios trazendo histórias que só possibilitaram um emaranhado de ideias sem originalidade – muito menos profundidade. O que levou uma procura ainda maior por outros formatos que serviram e ainda servem como fontes para adaptações de sucesso. Embora esteja cada vez mais difícil encontrar uma obra totalmente original, que funcione de forma significativa para o público, ainda é possível nos deparamos com fascinantes olhares escondidos no cinema independente. Bons exemplos desses é o último ganhador do Oscar na categoria melhor filme, o excelente “Moonlight – Sob a luz do luar”, e o recente e extraordinário “Ciganos da Ciambra” (A Ciambra).

No filme, enquanto as luzes da cidade eclodem com seus bares, boates e trânsito que não para – e o ávido olhar das pessoas insiste em passear, tomando conta do que acontece ao redor – um jovem garoto anseia pela maturidade e traça sua própria jornada em meio as adversidades de sua família e as complicadas relações que essa mantém.

Produzido de forma inusitada em uma parceria que envolve o nome de diversos produtores, entre eles o brasileiro Rodrigo Teixeira (“A bruxa”) da RT Features e o renomado Martin Scorsese (responsável pela Sikelia), o filme acompanha alguns dias na vida de Pio, um adolescente italiano de família cigana que busca se encontrar e ser reconhecido por seus demais. Observando de perto as atitudes de seu pai e irmão, exemplos que adota cegamente, ele acompanha a prisão dos dois em frente a toda a comunidade em que vive e o sofrimento da família diante a estranha relação com a máfia italiana na Calábria. Situação que o leva a colocar em prática tudo o que aprendeu com a vida em prol de uma possível solução.

Mesmo com uma produção nitidamente simples, descomplicada em termos técnicos, temos um filme completo e extremamente bem realizado. Aos poucos Rodrigo Teixeira vem quebrando barreiras, se associando a outros mercados e provando que sabe mesmo escolher bons projetos. E o melhor de tudo, de baixo orçamento. Sem dúvida alguma é um dos nomes que mais representa o cinema independente e não demorará muito para o vermos em projetos grandiosos.

Escrito por Jonas Carpignano, o roteiro possui uma estrutura sequencial, totalmente linear, sem estratégias mirabolantes de tempo, no qual vemos a ação se desenrolar nos permitindo acompanhar de forma realista os acontecimentos em questão. E isso tudo sem perder o ritmo que nos embala insistentemente. Algo que nos faz recordar do cinema italiano de raiz e seu importante neorrealismo. Com personagens fortes e situações verdadeiras, bem como diálogos sem exageros e/ou intenções de sensibilizar, o script nos conquista com suas críticas sociais capaz de rebater ou indentificar-se com qualquer cultura. Carpignano nos convida para uma história poderosa, crua e totalmente visceral, desenvolvida para se deixar engrandecer pelas demais técnicas.

E sendo ele mesmo o próprio diretor do filme, pode explorar muito bem essas aberturas, trabalhando planos próximos e detalhes afim de criar uma maior identificação com o público. Sua inquieta e sufocante câmera explode na tela aflorando uma tensão que desenha com sinceridade as relações de uma família problemática, estagnada em uma comunidade cigana – totalmente diferente dos antigos costumes. Algo que incomoda alguns, como podemos ver na poética cena de Pio com seu avô: “Antes, nós éramos livres; Antes, nós éramos da estrada”.

Tim Curtin, em sua estreia como diretor de fotografia, nos instiga ainda mais com um singelo retrato – ao melhor estilo documental. Equilibrando muito bem as cores quentes e frias, o trabalho nos provoca com certa asperidade, com uma textura capaz de desnudar as emoções das personagens, criando conflitos através dos desconcertantes movimentos de câmera e o constante desfoque que nos afasta (ao mesmo tempo que nos arrebata). E essa veracidade torna-se ainda maior com a excelente composição feita pelo design de produção.

Na medida que o longa é projetado, encontramos algo que nos incomoda continuamente: o elenco! Não de uma forma negativa, mas positiva. A química entre eles é tão perfeita que, se você não conhecer nada da história, facilmente imaginará que tem algo de errado ali. Poucos são os times de atores que conseguem tal façanha, podemos contar nos dedos das mãos. Contudo, quando sobe os créditos percebemos que eles vão além da atuação. Para nossa surpresa, a maior parte do casting parece ter sido escolhida dentro de uma mesma família: Algo que deixa a obra ainda mais instigante e verossímil.

A ensurdecedora trilha sonora impõe seu lugar. Elevada ao máximo para quebrar a dramaticidade ou ampliá-la no momento certo, essa vai de um ponto ao outro em instantes. Ora, temos o agitado e contagiante zouk que nos afasta dos problemas vividos por Pio, enquanto o entonante violino rouba a cena para propor uma reflexão entre o protagonista e seu público. Assim, de forma mais natural possível, somos estimulados pelo som que se mantém além dos cortes secos proporcionados por um edição competente.

Visto durante o Festival do Rio 2017, “A Ciambra” não é só mais um filme que chega aos cinemas, mas sim uma explosão de sentimentos lançados a partir de uma história avassaladora. Simplesmente um dos melhores filmes do ano e uma verdadeira escola de como fazer cinema independente.


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Daniel Gravelli

Daniel Gravelli é um brazuca que parle français e roda uns filmes por aí. Apaixonado pelos universos da escrita e da atuação, tem um caso com o teatro e morre de amores pelo cinema. Fotógrafo e crítico nas horas vagas, gosta de cozinhar, apreciar um bom vinho e trocar ideias interessantes.

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