A obra de Laerte, nos quadrinhos e no desenho, já era marcante por si só. Tal qual a artista, sua criação é diferente de tudo aquilo que vemos e logo se distingue do restante por seu traço e suas fortes características. Se a intenção de “Cidade dos Piratas” era transmitir tal sensação de peculiaridade e de singularidade, fica logo evidente que isso foi bem sucedido. Afinal, falamos aqui de um longa-metragem de animação que não é apenas baseado nos quadrinhos de Laerte e na própria Laerte, mas também possui tom fortemente metalinguístico. Não é missão fácil, mas como o filme coloca-a em prática?

O que fica mais claro, logo nos primeiros momentos de projeção, é a mistura entre realidade e ficção que é colocada em tela. Pessoas e cenários de verdade são intercalados com sequências puramente inspiradas em animação e em humor mais ácido proveniente das histórias em quadrinhos voltadas para o público adulto. É por essa vertente que “Cidade dos Piratas” vai contando a trajetória de Otto Guerra perante a realização de seu filme, assim como tece panorama geral e importante da vida de Laerte.

Infelizmente, apesar da ousada e criativa ideia apresentada, não temos bons resultados. As transições feitas entre momentos reais e ficcionais são feitos de modo bastante estranho, muitas vezes calcando-se em piadas internas ou em fios condutores que apenas iniciados nos quadrinhos de Laerte e seus personagens vão entender. Na mesma medida que é inovador, de certo modo, parece uma obra feita para uma quantidade pequena de pessoas e que não procura ser acessível ao restante dos possíveis espetadores. Isso tudo sem mencionar as inúmeras referências feitas, tanto à realidade quanto ao mundo artístico, que são jogadas em tela dentro de um ritmo muito acelerado e pouco palatável. Fica a impressão de que o diretor e seu roteirista fizeram um longa-metragem apenas para eles próprios assistirem.

Dessa forma, mesmo as fluidas animações mostradas e as potenciais piadas engraçadas acabam perdendo força. É importante mencionar que elas são bem feitas e que são retrato muito fiel ao que é a arte de Laerte em quadrinhos. Se a ideia era representá-la com fidelidade, há sucesso nesse ponto. Aquilo que poderia ser o charme de “Cidade dos Piratas” acaba sendo apenas insosso e sem sentido para a maior parte daqueles que o assistirem. Mesmo as importantes lições e aprendizados da vida de Laerte, que inclusive são repletos de proveitosas discussões acerca de sexualidade e gênero, são desprovidos de força pelas próprias características do filme. Sendo questões bem importantes para serem abordadas na atualidade, sobretudo na atualidade brasileira.

É uma pena um filme com envolvimento de uma das maiores cartunistas do país receba esse tratamento, que é tão cheio de pretensões e não as alcança em quase nada. Falta ritmo mais equilibrado e maior foco daquilo que se quer mostrar, para que não se criasse o caos megalomaníaco que é “Cidade dos Piratas”. Em algumas sequências, até, é impossível não se pegar pensando se não estamos assistindo a uma colagem aleatória e sem muito propósito de cenas aleatórias. Salvam-se apenas uns momentos, que não dão conta de fazer valer todos os minutos assistidos.

 


Sympla

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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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