11 de dezembro de 2019

A definição popular de família é aquela em que há vários indivíduos do mesmo sangue vivendo harmoniosamente em um ambiente perfeito. O pai provê o sustento, a mãe cuida dos filhos e da casa e as crianças seguem a rotina de lazer e estudos. Esse panorama, evidentemente, foi imposto à sociedade por sonhadores que julgam o que é certo e errado ou feio e bonito de acordo com suas concepções fabricadas pela mídia. Mídia essa onde o cinema se inclui e que tem em Hollywood o seu mais poderoso construtor de ilusões. Infelizmente, o mundo real pode ser bem mais cruel e sombrio com suas famílias dissolvidas; seus filhos, mães e avós abandonados e a constante violência doméstica. Por outro lado, existem também casos de completos desconhecidos que se encontram e, numa demonstração de fraternidade, se unem em comunidade, buscando fugir da solidão. Apenas artistas com uma visão de mundo mais ampla podem fugir do maniqueísmo comercial e representar pelo menos parte das verdadeiras histórias.

Pois bem, dito isso, no vencedor da Palma de Ouro em Cannes deste ano, “Assunto de Família”, o celebrado Hirokazu Kore-eda aponta suas lentes para um grupo de pessoas que vive em um cubículo bagunçado na periferia de uma grande cidade do Japão. Só que esses indivíduos não possuem parentesco entre si, eles simplesmente passaram a morar juntos por motivos diversos: há a idosa que foi abandonada por seus parentes, o casal que não consegue ter filhos e dois adolescentes, sendo um garoto, ignorante sobre seus verdadeiros pais, e uma garota, deixada com a idosa em troca de pagamentos mensais. Se junta a eles, uma pequena garotinha que é achada vivendo sozinha nas ruas. Todos eles tiveram algo que os afastou de seus familiares reais e agora estão unidos como entes que se importam uns com os outros e não apenas fisicamente.

Mesmo enfrentando a pobreza com subempregos e furtos em pequenos supermercados, essa inusitada família é feliz em seu microcosmo abastado de cumplicidade e união. Suas tristes vidas passadas são superadas e mesmo esquecidas, deixando as dores para trás. O exemplo mais evidente é o da garotinha que encontra nos braços de estranhos o amor que não tinha com seus jovens pais, que a espancavam com frequências. Porém, a ilegalidade do  atos do grupo, já que a garotinha desaparece e é dada como sequestrada, bota em risco tudo o que construíram, fazendo com que as bases tradicionais da sociedade entrem em ação como vilãs implacáveis. Isso abre uma ótima discussão sobre como as pessoas estão cuidando de seus filhos. Será que uma casa bonita, escola e comida são suficientes para formar adultos felizes, ou é preciso algo mais? Esse algo pode estar escorregando pelos dedos daqueles que se preocupam apenas com seus trabalhos e status sociais e menos com os outros a sua volta.

Kore-eda não poderia retratar esses dramas de outra forma se não a naturalista. Sua câmera está na posição de espectadora e quase não se intromete nas cenas com maneirismos ou movimentos que lembrem que aquilo é um filme. Os planos são fechados, possibilitando intimidade e até gerando certo desconforto por serem tão próximos aos corpos suados nos momentos de verão escaldante, mas também acalentadores quando o inverno é rigoroso do lado de fora das velhas paredes. Como em um documentário, o diretor expõe as mazelas de um país que o mundo acha perfeito e mostra algumas formas de resolvê-las. Afinal, somos humanos antes de sermos asiáticos, ocidentais ou africanos e é por meio de nossa ligação fraterna que conseguimos sobreviver até hoje e um ambiente hostil a nossas frágeis existências.

Essa crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

 

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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