O filme de terror “Black Mountain Side”, dirigido e escrito por Nick Szostakiwskyj, foi lançado em fevereiro de 2016. Szostakiwskyj já trabalhou em três longas, como “Kankered” e – o ainda para sair – “Hammer of Gods”, mas a maior parte de sua carreira se dedicou à sonoplastia e à escrita. 

O filme conta com pouquíssimos protagonistas, como os atores Shane TwerdunMichael DicksonCarl Toftfelt. Uma das razões, além da própria trama, é o claro baixo orçamento da produção, o que não deixa, ainda assim, de ter uma história fiel e dentro do que se propõe, dando suas surpresas lá e cá.

A história de “Black Mountain Side” conta sobre um grupo de arqueólogos que encontram uma estranha estrutura no norte do Canadá, datando milhares de anos. Não se sabe de onde, quando ou que sociedade o construiu. Para tanto, um especialista chega, mas a comunicação de seu acampamento logo se vê perdido e estão isolados frente a esse misterioso objeto.

A iluminação do filme não promete muito. Há uma cor quente para os ambientes interiores e uma cor fria para o exterior na neve. No entanto, servem ao seu propósito muito bem. Não há momentos de escuridão ou má iluminação, e as oportunas cenas noturnas são muito bem escurecidas para o terror. É nesse momento que mostram que sabem o que estão fazendo. Além disso, o figurino é bem colocado. Todos vestem uma cor terrosa que se destaca no meio da neve também, algo prático.

O filme muito bem poderia ser como “A coisa” (1982) com Kurt Russel e, de alguma forma, o é. Mas o faz de um modo mais peculiar. Antes de um inimigo, investe na sanidade, deixando a batalha para o interior dos personagens, aumentando a tensão psicológica. Ambos os filmes acontecem num lugar isolado, sendo um na Antártica e outro no Canadá.

A sensação de isolamento se intensifica, e o terror por estarem sem socorro, é uma nova multiplicação de seu medo. Efeito também muito bem usado em “As montanhas da loucura” – filme cogitado para ser feito por Guilherme del Touro – do escritor americano H. P. Lovecraft.

Spoiler Alert

H.P. Lovecraft é muito conhecido na literatura. No entanto, contraditoriamente, não são muitos que o conhecem. Seu gênero não é para todos, isso é claro. Poucas pessoas sequer leem Edgar Alan Poe, além disso Lovecraft é ainda de um outro nível. Por certo, são escritores distintos, mas é inegável a profundidade maior do terror de Lovecraft.

Talvez o leitor se lembre – se o assistiu – da primeira temporada de “True Detective” (2014) de Nic Pizzolatto com Matthew McConaughey, como Detective Rust Cohle, e Woody Harrelson, como Detective Marty Hart. Aquele último episódio é uma dedicatória a H.P. Lovecraft. Isto, pois o escritor não apenas escreveu um terror de qualidade, criando lendas da cultura pulp e pop  – até certo ponto -, como o “Chamado de Cthulu”. Mas por ter criado um novo gênero que, assim como em “Black Mountain Side”, explodem na alma do leitor em seu final. Este gênero é o terror cósmico.

O autor também conhecido pelo ocultismo e fantasia em seus textos, cria mitos, ou melhor, deuses e ordens de universos inimagináveis. A um só tempo, ele nos dá um contexto de uma cosmologia totalmente alheia à humana e não resta nada àquele indivíduo que consegue sobreviver a tal testemunho. É tamanho o choque “cultural” e também de sua própria incompreensão com o mundo que o resto de sua vida é apenas uma fantasmagoria. Lovecraft lida com a decepção do conhecimento humano, como de supetão podemos ser levados a um isolamento moral do universo e, ainda que toda ordem humana não se modifique, nada faz sentido se você testemunhou o terror cósmico, a pequenez microscópica do ser humano.

Por Paulo Abe

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2 thoughts on “Crítica: Black Mountain Side

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