Durante um trajeto de carro com a ativista Laura Rose (Gugu Mbatha-Raw), o detetive Lionel Essrog (Edward Norton) explica como a sua mente funciona. Portador da Síndrome de Tourette (apesar dele mesmo não saber que é este o nome de sua condição), o protagonista de “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” comenta sobre a angústia que é viver sob uma constante contradição interna: ao mesmo tempo em que é uma pessoa extremamente metódica, obcecada por organização e possuidora de uma excepcional memória, ele também se encontra à mercê de, em suas palavras, uma parte de seu cérebro que frequentemente foge de seu controle, pondo-o em situações embaraçosas e que dificultam o seu convívio social. De certa maneira, essa mesma contradição pode ser usada para analisar o próprio filme como um todo, que, se não é um dos melhores do ano, pelo menos é um dos mais curiosos.

Assim como Lionel inicialmente causa um certo estranhamento ao, de repente, ter espasmos e proferir frases sem o menor sentido, o filme (que além de estrelado, é escrito e dirigido por Norton) também parece desconjuntado. Apesar de ser ambientado nos anos 1950, o longa possui uma fotografia tão descaradamente digital que chega a ser perturbadora, abandonando qualquer tentativa de fazer o espectador acreditar que a trama, de fato, se passa em outra época. Além disso, o tom é deveras esquisito, vide a cena em que Lionel chora a morte de seu mentor, Frank Minna (Bruce Willis), ao som de Thom Yorke, enquanto tem uma crise de tiques nervosos. Em suma, o primeiro ato de “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” insinua um desastre cinematográfico prestes a acontecer.

Todavia, assim como a Síndrome de Tourette é o que garante a Lionel a sua grande qualidade como detetive, as idiossincrasias do longa de Norton são o que o tornam uma experiência bastante interessante e divertida. À medida que a trama avança, não só o espectador se acostuma com as escolhas inusitadas do diretor, como também é possível ver nelas uma tentativa deliberada de espelhar o funcionamento do cérebro de Lionel na tela, através dessa oscilação entre sincera homenagem ao cinema noir e a sua própria desconstrução – a rigidez formal irrompida pela despreocupação em segui-la. Dessa forma, a aura cool do detetive é substituída pelo descontrole de Lionel, a femme fatale sedutora dá lugar a uma ativista anti-gentrificação, o chiaroescuro expressionista é trocado pela paleta de cores dessaturada.

Nesse sentido, a presença forte do jazz em “Brooklyn Sem Pai Nem Mãe” é bastante significativa, uma vez que o espírito da jam session marca a projeção do início ao fim. Se nesses encontros, a improvisação mascara o quanto a excelência formal dos músicos é necessária para o seu sucesso, no filme de Norton, as repentinas mudanças de tom e os anacronismos representam uma liberdade criativa que só surte efeito a partir do momento em que seus realizadores têm conhecimento das regras do gênero com o qual estão brincando. Um momento que expressa perfeitamente essa relação entre o longa e o jazz é aquele em que o trompetista interpretado por Michael K. Williams diz que os tiques fônicos de Lionel (no caso, a imitação de um instrumento de sopro) estavam no mesmo tom que a música sendo tocada; ou seja, apesar do aparente descompasso, há um claro domínio da linguagem sendo utilizada.

Apesar da longa duração (quase duas horas e meia) diluir progressivamente o impacto de suas “brincadeiras”, “Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe” ainda é um dos filmes mais surpreendentemente agradáveis de 2019. Se há quase vinte anos atrás, Edward Norton sucedeu suas performances em “Clube da Luta” e “A Outra História Americana” com a simpática comédia romântica “Tenha Fé”, seu primeiro longa como diretor, agora o intérprete estadunidense subverte novamente as expectativas com um excêntrico noir, que mistura ainda drama social e comédia física, de maneira (pasmem!) bem-sucedida. Dizer que “Brooklyn Sem Pai Nem Mãe” é uma obra-prima seria um exagero, porém tem tudo para se tornar um pequeno clássico cult, redescoberto daqui a umas décadas pelo público certo.


Imagens e vídeo: Divulgação/Warner Bros. Pictures


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Brooklyn - Sem Pai Nem Mãe

3.8
Bom!

Após seu mentor ser assassinado, o detetive Lionel Essrog (Edward Norton) sente-se obrigado a descobrir a intricada trama que levou a esse crime. Ele só não imaginava que ela ia chegar até os homens mais poderosos da Nova York dos anos 1950.

Direção
Elenco
Roteiro
Ritmo
Pros
  • Atuações do elenco
  • Relações bem-construídas entre as personagens
  • “Brincadeiras” metalinguísticas
Cons
  • Ritmo
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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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