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CríticaFilmes

Crítica (2): Canção da Volta

Avatar de Júlia Cruz
Júlia Cruz
5 de outubro de 2016 3 Mins Read

Cançao da volta cartaz

Quem sou eu? Temos o costume de nos perguntar isso repetidamente até obtermos uma resposta – e nunca obtemos. Por que existo? O que estou fazendo com a minha vida? Por que eu sou assim? Por que eu fiz isso? Vivemos a vida nos questionando, nos reprimindo, tentando entender questões pra ver se encontramos a tão desejada “paz de espírito”. Noites em claro, pensamentos corriqueiros, dúvidas, incertezas, ansiedade, críticas, controle. Controle do nosso tempo, da nossa vida, dos nossos pensamentos, de nós e do outro. Já dizia Freud, nossa vida é baseada no outro. Somos dependentes dos outros. Influenciamos em seus modos de ser, de viver, o que falar e como agir e tentamos constantemente nos fazer pertencentes, desejáveis e únicos. Queremos ajudar o outro sem antes tentar nos ajudar, queremos julgar sem antes ver se não somos alvos de críticas e queremos fazer isso sem nos arrepender.

O filme brasileiro “Canção da Volta”, aprofunda em questões como essas, ao contar a história de Julia e Eduardo, um típico casal paulistano com dois filhos. Voltando de uma viagem, Eduardo descobre que a esposa tentou se matar. Após a volta dela pra casa, ele faz de tudo para que a vida siga normal e Julia se recupere, mas percebe não conhecê-la por completo. Com incertezas do passado interferindo no presente e um constante ciúme da parte de Eduardo, o que era apenas um controle passa a ser uma verdadeira obsessão.

No papel de Julia está a atriz Marina Person, que traduz fielmente a realidade de um suicida e como ele se comporta com o mundo ao seu redor, uma vez que tentou fugir dele. João Miguel faz o papel de Eduardo, o oposto, mostrando o lado de quem tem que carregar o peso dessa convivência e se esforçar para também não perder o controle. Não poderia deixar de falar da atuação do Francisco Miguez como o filho mais velho do casal, Lucas. O ator representa bem o adolescente na sua idade mais rebelde, onde a fase dos questionamentos toma conta de nossas vidas e procuramos entender porque as coisas acontecem do jeito que acontecem. O elenco funciona e dão o toque essencial de seus personagens.

O filme se passa quase todo no apartamento de Julia e Eduardo, é o cenário principal. É interessante perceber como ele é construído e desconstruído durante os momentos vividos pelo casal. É composto de muitos objetos da área da arte, como pinturas e esculturas, dando a ideia de ser uma casa com vida, com energia, muitos móveis e objetos pequenos. Ás vezes o cenário é o carro, a área de refúgio de Eduardo.

Algumas situações são expostas com rapidez e, caso o espectador se distraia, fica difícil entender a cena que se passou. A música do final, “Mora na Filosofia”, interpretada por Caetano Veloso, traduz os sentimentos que o filme tenta passar ao público, como uma síntese. O roteiro mostra em diálogos curtos e simples como um tema, antes difícil de ser trabalhado, pode ser explicado com clareza, revelando com certa fidelidade a verdadeira vivência de uma pessoa depressiva.

O filme é um pouco arriscado em relação a direção, ao causar um leve desconforto por ser rápido demais em algumas cenas, mas em geral, vale a pena assistir. Cumpre o seu papel ao expor um tema que é visto como tabu social. Prestigie! Estreia no dia 03 de novembro.

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ArteCinemadepressão

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Júlia Cruz

Acredita ser uma criação do Projeto Leda enquanto espera o Doutor com a sua Tardis. É apaixonada por cachorros, gosta de acender incensos, observar estátuas e tomar café. Descobriu que tudo é passível de crítica e desconstrói os enredos das mais de cem séries que já viu, para os leitores da Woo Magazine.

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