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Crítica

Crítica: Ella e John

Durante o verão de 2016, o clima das eleições presidenciais agitava os norte-americanos. Em passeatas pró e contra Donald Trump, multidões tomavam as ruas com gritos e cartazes. Esse conturbado momento político serve de pano de fundo para “Ella e John” (The Leisure Seeker, 2017), primeira produção do diretor italiano Paolo Virzì (“A Primeira Coisa Bela”, “Capital Humano”, “Loucas de Alegria”) nos Estados Unidos.

O longa-metragem, adaptação do livro homônimo de Michael Zadoorian, conta a história de um casal idoso em busca de uma última aventura. Quando a memória do marido, o professor de inglês John Spencer (Donald Sutherland), começa a se deteriorar, Ella (Helen Mirren) resolve cumprir uma antiga promessa: levá-lo para conhecer a casa do escritor Ernest Hemingway. Os dois partem, então, rumo à Florida em seu velho trailer, carinhosamente apelidado de “Caça-Lazer” – em inglês, The Leisure Seeker, título original do filme.

Ao longo do roteiro, elaborado por Virzì em parceria com seus recorrentes colaboradores Stephen Amidon (“Capital Humano”), Francesca Archibugi (“Loucas de Alegria”) e Francesco Piccolo (“Capital Humano”, “A Primeira Coisa Bela”), somam-se menções a Trump. Já na primeira cena pode-se ouvir, ao fundo, sua voz em um carro de som. Em outro momento, John, esquecendo sua histórica posição democrata, encanta-se por uma manifestação a favor do candidato republicano (foto)Nessas mencionadas sequências, não parece haver uma tentativa de crítica aos ideais do atual presidente. O viés “apolítico”, ao contrário, acaba por endossá-los.

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A postura armamentista, por exemplo, ganha concordância na autodefesa de Ella em um assalto. O discurso racista, por outro lado, explicita-se na vergonhosa tentativa de usar como artifício cômico a cor de pele de uma personagem. A xenofobia, por fim, encontra o seu lugar nas cenas finais. Ao perceber a casa de Hemingway tomada por um clima festivo, a protagonista se decepciona com a perda do valor de culto anterior. Enquanto o público identifica a sua frustração, ritmos latinos ocupam a trilha musical de Carlo Virzì (“A Primeira Coisa Bela”, “Capital Humano”, “Loucas de Alegria”). Em outras palavras, o filme parece lamentar a “degradação” dos “valores americanos” e aguardar que alguém “Torne a América Grande Novamente” – tradução livre de “Make America Great Again”, slogan da campanha de Donald TrumpOutro olhar poderia, certamente, encarar os mesmos elementos como sinais de uma sutil ironia. Talvez fosse essa a intenção do cineasta. Não há, porém, suficientes indícios concretos que corroborem essa leitura. A absoluta presença dos veteranos Sutherland e Mirren – indicada ao último Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em comédia ou musical – direciona a visão do espectador e sufoca a possibilidade de novas perspectivas.

Deixada de lado a problemática política, o longa-metragem sofre, ainda, com a falta de ritmo e o predomínio de diálogos sobre ações. As quase duas horas de duração, montadas com pouca eficiência por Jacopo Quadri (“Os Sonhadores”, “Eu e Você”, “Bicho de Sete Cabeças”), não oferecem nada além de um road movie com um destino óbvio e poucas recompensas. Ao final da jornada, nem mesmo a agradável companhia dos premiados atores faz a viagem valer a pena.

Sem saber se situar entre a comédia e o drama, “Ella e John” transita, enfim, entre emoções mal exploradas e piadas de gosto duvidoso – pum, arroto e demência compõem o lamentável repertório. O resultado, dessa forma, não desperta o riso nem o choro de seu público, mas apenas o mais profundo constrangimento.

* O filme estreia dia 5 de abril, quinta-feira, mas tem pré-estreia marcada para o dia 27 de março, terça-feira.

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Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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