7 de dezembro de 2019

O apartheid, regime de segregação racial aplicado na África do Sul durante parte do século XX é uma das páginas mais lamentáveis da história humana recente. Não se tratava apenas de racismo praticado por brancos, verbal ou fisicamente, mas uma marginalização radical amparada pelo próprio Estado sul-africano, em todas as instâncias que fossem possíveis. Negros não podiam usar os mesmos assentos que os brancos em transportes públicos, não podiam beber água nos mesmos bebedouros e tinham o convívio social isolados um do outro. Tal modelo de sociedade perdurou até meados dos anos 90 e foi fruto de sucessivas lutas para que a realidade pudesse então ser mudada, como fez a figura de Nelson Mandela, por exemplo. No entanto, nem só ele foi ativista dessa causa e nem só por ele a África do Sul acabou se transformando em definitivo. “Fogo Contra Fogo” conta uma dessas histórias, a do jovem Solomon Mahlangu, executado por pegar em armas contra o apartheid.

A produção é sul-africana e isso muda, por si só, já faz toda a diferença. Mais interessante do que ver episódios da história africana contadas por um olhar norte-americano, de Hollywood, enriquece o filme e dá para ele certo cuidado que talvez não fosse tido em outras circunstâncias. Há uma preocupação em representar as diferentes sociedades existentes dentro da África, conforme os diferentes países do continente, assim como os idiomas neles falados. Nesse sentido, até o português moçambicano pode ser ouvido em “Fogo Contra Fogo”, sem esteriótipos e nem nada. As diferentes locações e cenários também dão boa dimensão da vastidão africana, contando com savanas e florestas que aparecem aqui em diferentes momentos e que dimensionam o tamanho da jornada do protagonista e de seus companheiros, dando a ideia de que aquele universo deles é muito maior do que a individualidade de cada um.

Imagem: Divulgação/Elite FIlmes

Outro aspecto da cultura africana bem representado está no design de produção, em figurinos e direção de arte. Mesmo com o baixo orçamento do longa, as representações são bastante fiéis e honestas perante a realidade, o que não apenas gera verossimilhança como também dá um tom muito cru ao que acontece em tela. Momentos de violência não são romantizados ou filmados como em títulos do gênero de ação, mas tem o peso necessário para que o espetador entenda a importância daqueles eventos e como eles devem ser encarados. O mesmo deve ser dito do sacrifício final do protagonista, que falha ao tentar ser inocentado, mas que o longa não transforma em messias. Pelo contrário, “Fogo Contra Fogo” coloca Solomon como ciente de seus atos e das possíveis consequências deles, saudando sua atuação dentre os muitos que acabaram tendo o mesmo destino.

“Fogo Contra Fogo” sofre de roteiro mais impactante e de direção mais ousada em muitos momentos, já que ambos aspectos acabam sofrendo pelo uso de clichês empregados de modo mecânico demais. Ainda assim, é obra com forte mensagem e com história que deve ser, sem dúvidas, apresentada aos que não a conhecem. Para que jamais caia em esquecimento.

Fogo Contra Fogo

3.0
Bom!

Solomon é um jovem vendedor ambulante que, depois dos eventos de 16 de junho, é atraído pelo movimento de libertação sul-africano e decide embarcar na luta armada contra o regime de Apartheid.

Avaliação:
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Mauro Machado

Ser envolto em camadas de sarcasmo e crises existenciais. Desde 1997 tentando entender o mundo que o cerca,e falhando nisso cada vez mais.

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