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CríticaFilmes

Crítica: Homem Livre

Avatar de Luiz Baez
Luiz Baez
19 de fevereiro de 2019 3 Mins Read
“Isso que vocês acham que sentem, acham que escutam, o nome disso é medo.”

Homem Livre Cartaz Estreia WEB

Luzes percorrem verticalmente o quadro. Entre telas pretas, um carro trafega pelo subúrbio carioca. O destino é Piedade, bairro de nome tão sugestivo quanto a estroboscopia. No porta-malas do veículo, acomoda-se Hélio Lotte, recém-saído da prisão. Hoje “Homem Livre”, o antigo astro da música precisa lidar com as consequências de seus crimes.

Para além de um território entre Madureira e Méier, Piedade nomeia uma jornada do protagonista. Mesmo após o cumprimento da pena, a condenação permanece nos tribunais do povo e da mídia. Faz-se necessária, portanto, uma busca por perdão. Nesse sentido, Hélio conta com a ajuda do pastor Gileno Maia, líder da Igreja Renovada Nossa Fé.

Longe de hermético, o processo de espiritualização enfrenta interferências. As luzes verticais, flashes de um perdurante passado, tornam-se leitmotiv sob a direção de Alvaro Furloni (“A Origem da Inspiração”). Como faróis de carro, elas relembram a noite do assassinato. Como esclarecimento, elas conduzem Hélio à assunção de seus delitos. Como brilho ofuscante, por fim, confundem, desorientam, mas também expõem.

Análoga à iluminação cegante, Jamily seduz o protagonista. Em busca de aulas de canto, a jovem estabelece o primeiro contato. Depois, Hélio a observa no coral da igreja. Corte. No plano seguinte, ele se masturba. Uma das poucas mulheres em cena, ela desperta no feminicida Hélio a violência antes em repouso. Como a luz dos faróis, ela ativa a memória do atropelamento. Como luz esclarecedora, ela confirma a incorrigível brutalidade. Como luz ofuscante, por último, incita a paranoia. Sobre esta, a cena do karaokê oferece um claro exemplo.

As duas personagens estão em um bar. Jamily resolve cantar uma música de Aguarraz, antiga banda de Hélio. Nesse momento, o protagonista se sente reconhecido pelos demais clientes. Enquanto perde o controle, a câmera, trêmula, emula seu estado de excitação. O delírio culmina com a pergunta final: “Vocês sabem com quem vocês estão falando?”.

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Como visto, o roteiro propõe uma interessante discussão sobre o livre-arbítrio. Hélio toma decisões tortuosas e é obrigado a enfrentar os resultados. Prefere, contudo, alienar-se. Nessa lógica, até a fé revela-se armadilha. A sentença “ninguém vai te ajudar de graça” ressoa na cabeça da personagem. Qual seria, então, o “preço” do pastor?

Por trás da ajuda sincera, esconde-se a espetacularização da piedade. Ainda que a premissa soe promissora, personagens unilaterais comprometem as boas ideias. Interpretado com comedimento por Armando Babaioff  (“Prova de Coragem”), o misógino Hélio é um tipo de difícil identificação. O pastor Gileno, por sua vez, vivido pelo mais eufórico Flavio Bauraqui (“Madame Satã”), escancara a hipocrisia religiosa, sem espaço para a contradição. A estreante Thuany Andrade, por fim, sofre com Jamily, infantilizada figura feminina a serviço exclusivo do protagonista masculino.

Entre um suspense de aparições fantasmagóricas e um drama de conflitos psicológicos, “Homem Livre” alça vôos demasiadamente altos. O encerramento com Tchaikovsky não deixa dúvidas sobre tais pretensões. Infelizmente, no entanto, os cisnes de Furloni não têm asas. Ou, se têm, não sabem voar.

* O filme estreia dia 21, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Olhar Distribuição

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DramareligiaoSuspenseSuspense DramáticoSuspense Psicológico

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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