Crítica: Hurricane Bianca

No olho (com rímel) do furacão

Vida de professor não é fácil. Vida de professor no Texas, não sendo branco nem heterossexual, podemos imaginar. E quando “Hurricane Bianca” foi lançado, o pesadelo Trump nem estava no poder.

Richard Martinez (Roy Haylock) é professor de química em Manhattan e faz stand-ups longe do que podemos considerar bem sucedidos. Novamente não selecionado para o programa de docente embaixador, recebe de última hora uma proposta para uma vaga no Texas. Quem lhe telefona parece especialmente interessado em vê-lo se dar muito mal (aqui temos a participação de Alan Cumming encarnando um personagem com ares maquiavélicos) e Richard nem imagina o que o espera: uma espelunca como moradia e um vizinho hostil, apenas para começo de conversa. No colégio, os alunos atiram-lhe objetos, presenteiam-no com chocolates que provocam diarreia e a suspeita geral de que seja gay acaba resultando na sua demissão: o diretor o acusa de participar de “relacionamentos alternativos”. Para seu espanto, é permitido agir de forma homofóbica no Texas. Felizmente, encontra Karma Johnstone (Bianca Leigh), uma transexual que o convida para ir a um bar gay fora do condado. Depois de ganhar um concurso em que imitou a drag Ambrosia Salad, Richard tem a ideia de montar-se de forma extravagante, criando a persona Bianca Del Rio, sob a qual se candidata à vaga deixada por ele mesmo no Colégio Milford.

Quem é fã do reality show “Ru Paul’s Drag Race” deve saber que Bianca Del Rio não é um personagem criado para o filme; na verdade foi a drag vencedora da sexta temporada do programa. Ru Paul, aliás, aparece como homem do tempo anunciando a vinda de um furacão (hurricane, em inglês) chamado Bianca, servindo de inspiração para que Richard crie sua personalidade alternativa que irá em busca de vingança.

A primeira cena do longa mostra um livro intitulado “O conto de uma fada”, com letras góticas e figuras que se mexem, além da narração em off feita por Richard e Karma. Isso de imediato dá uma aura lúdica ao filme, que continua nos créditos de abertura, bem no estilo desenho animado de super heróis – as imagens, o tipo de letra e a música utilizada nos remetem a isso. A atmosfera fantasiosa permeia o filme, pois os personagens são compostos de forma exagerada, principalmente os que poderíamos chamar de “vilões”. Embora atuar de forma caricata em geral não conte pontos a favor, em “Hurricane Bianca” essa lente de aumento está em harmonia com o tom que o diretor escolheu para a história. O que realmente parece muito estranho é como Bianca, visivelmente uma drag queen, não desperta suspeitas sobre sua identidade em momento algum. Todos acreditam que se trata de uma mulher e os homens ficam fascinados por ela. Os alunos, embora venham a mudar seu comportamento mais tarde, continuam com seus preconceitos raciais e chamam a Srta. Del Rio de Srta. Doritos.
Richard não se transformou apenas fisicamente; o fato de estar protegido por uma falsa identidade lhe deu segurança para tratá-los na mesma moeda ou ainda pior. Já num primeiro momento, os chama por apelidos pejorativos e faz comentários ácidos e cortantes, poupando apenas Bobby (Kaleb King), o adolescente que apanha dos demais todos os dias depois da aula pelo simples fato de ser gay.

O roteiro mostra desde o começo de forma bem clara todo o preconceito existente na escola: a vice-diretora Deborah Ward (Rachel Dracht) implica com a gravata de Richard (“gravata de bicha”) e lhe entrega um livro sobre criacionismo; o treinador Chuck (Denton Blame Everett), ao vê-lo pela primeira vez, pergunta se é entregador de comida mexicana e o aconselha a ter um caderninho com contatos femininos. Tudo isso é bem plausível porque sabemos de que tipo de atitude pessoas com mente estreita são capazes; não muito crível é a rapidez com que determinadas coisas acontecem no filme – será influência do “furacão” no título? Como já foi comentado, ninguém parece desconfiar que Bianca seja uma mulher; da mesma forma, Karma reencontra seus familiares depois de anos e estes não parecem se espantar com sua aparência atual, considerando o fato de que quando ela fugiu de casa tinha dezenove anos e ainda se vestia como homem. Ao menos é o que o roteiro dá a entender. Mas lembremos: o título do livro que aparece na abertura é “O conto de uma fada”. Nesse tipo de narrativa coisas mágicas acontecem e nós aceitamos porque faz parte da brincadeira. “Hurricane Bianca” é isso: um conto de fadas com cara de desenho animado encenado por atores de carne e osso. E às vezes, muito rímel.


Neuza Rodrigues

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