Crítica: Mulheres do Século 20

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Com uma música. Só assim dá para começar a falar sobre “Mulheres Do Século 20”, um ensaio sobre a vida em forma de filme, concebido pelo cineasta norte-americano Mike Mills, que com o cotidiano de seus personagens carismáticos, embalado pelo Pop-Punk dos anos 1970, consegue nos lembrar como o cinema é uma janela para a história da gente.

Santa Bárbara, 1979. É nesse recorte de espaço e tempo que somos apresentados a Dorothea (Annette Bening), uma mulher que cria sozinha o filho de 15 anos, Jamie (Lucas Jade Zumann). Fazendo de sua casa uma espécie de pensão, ela aluga quartos para Abbie (Greta Gerwig), uma jovem fotógrafa que está em recuperação de um câncer cervical e para William (Billy Crudup), um homem gentil que tira seu sustento trabalhando como mecânico e carpinteiro. Sentindo-se desconectada do garoto depois dele ir parar no hospital por causa de um jogo de desmaio, ela pede ajuda a sua inquilina e a Julie (Elle Fanning), melhor amiga de Jamie, para guiá-lo, possibilitando que ele se torne um bom homem.

“Não importa como você acha que será sua vida, só saiba que ela não vai ser nada parecida com isso”, é um dos conselhos que a garota de cabelo vermelho dá ao adolescente. Conselho que Mills, responsável pelo roteiro e direção, dá ao espectador nessa narrativa que parece simples, mas que, além de muito bem executada, consegue ser delicada, divertida e nostálgica.

Da concepção do script às escolhas estéticas da direção, é invejável como tudo no projeto dialoga entre si. Indicado a prêmio de melhor roteiro original pela Academia este ano – perdeu a estatueta para o também excelente “Manchester À Beira Mar” -, o filme compõe um retrato de uma época ao mesmo tempo em que constrói figuras atemporais. Sensível ao contar essa história, seus personagens são multifacetados, cada um com suas motivações, interesses e conflitos bem estabelecidos. Para isso, o roteirista dedica alguns minutos a introduzi-los e a dar-lhes voz através da narração em off; Eles mesmos nos contam qual será seu futuro.

Para enriquecer o texto afiado e os personagens complexos, está o trabalho exemplar do elenco. Na pele da matriarca, Annette Bening encarna uma mulher de espírito livre, mas que, em contrapartida, naturaliza alguns comportamentos conservadores dos que nasceram em meio aos costumes pré-Segunda Guerra Mundial. Assim, a atriz consegue evocar força e suavidade, trazendo as nuances de alguém que não quer dar o braço a torcer, mas na realidade se sente frágil.

Já o estreante Lucas Jade Zumann é carismático ao interpretar um adolescente cabeça-dura como a mãe, mas que não esconde a admiração pelas mulheres que estão a sua volta. Ao lado da atriz veterana, Greta Gerwig e Elle Fanning mostram o porquê de ocuparem o hall das jovens atrizes mais talentosas da atualidade, enquanto Billy Crudup traz sabedoria e serenidade a esse homem, que segundo Dorothea, é “pouco comum”.

Na direção, Mike Mills materializa a atmosfera idealizada em seu roteiro. Oscilando entre o intimista e o energético, o diretor nos aproxima psicologicamente dos personagens com o movimento delicado de Zoom In e com planos em que a câmera suavemente se aproxima dos cômodos em que eles conversam – técnica de aproximação chamada dolly shot -, somos posicionados no centro de sua dinâmica. Em contraponto, incorporando a vibração de um período de turbulência política nos Estados Unidos, em sintonia com a rebeldia  juvenil do movimento Punk e com os embates entre os próprios protagonistas, fast motion acelera cenas e jump cuts as tornam mais ágeis. Agilidade que também ganha corpo com a montagem de Leslie Jones, que intercalando imagens de arquivo em cortes rápidos, não só ajuda a estabelecer a origem e interesses dos personagens, como construir a aura setentista, com sua ética e singularidades.

Sem falar que aqui música é quase um personagem. Talking Heads, David Bowie, Black Flag, The Raincoasts, Devo, além de clássicos como Louis Armstrong e a canção de “Casablanca”,  “As Time Goes By”, não só dão o tom a narrativa, como criam episódios que a desenvolvem. Como não ficar encantado pela cena em que Dorothea e William resolvem ouvir “Nervous Breakdown” da banda Black Flag, mas acabam  gostando – e dançando – mesmo é de “The Big Country” do Talking Heads?

Bem, “Mulheres Do Século 20” é fantástico, mas infelizmente é preciso falar do elefante na sala. Com um título desses, espera-se um projeto em que as mulheres sejam o grande centro da história e de alguma forma elas são, mas com um porém: sua experiência enquanto mulher está a serviço de uma figura masculina. Todas as personagens femininas são bem escritas, têm profundidade, entretanto mesmo que a relação entre elas se modifiquem com o que uma tem a acrescentar e ensinar a outra, o ponto de convergência entre elas é Jaime.

De fato, é uma situação problemática, mas que o longa consegue contornar com certa dignidade. Primeiro, é importante pensar que enquanto existirem homens no mundo, mulheres também farão parte de sua constituição enquanto indivíduo. Segundo, é menos grave Mike Mills, enquanto pessoa do gênero masculino, contar uma história em que as protagonistas sejam vistas pela perspectiva de um jovem garoto, do que ele ter a pretensão de narrar a experiência de ser mulher, diretamente por uma personagem feminina.

Além disso, o cineasta em momentos pontuais abre espaço para provocação: “Homens sempre sentem que tem que consertar tudo para as mulheres, mas eles não estão fazendo nada demais. Certas coisas não podem ser consertadas”, diz a mãe ao filho. “Mãe eu não sou todos os homens. Eu sou só eu.”, ele responde. “Bem, Sim e Não”, é a resposta final de Dorothea. Não importa o quão queridos sejam os homens próximos a nós, eles continuam fazendo parte do grupo homens, indivíduos privilegiados por um sistema historicamente opressor.

Problematizações à parte, “Mulheres Do Século 20” é daqueles tipos de filmes que precisam ser vistos. É uma delicadeza que traz uma visão muito querida – e real – dos laços que construímos com nossos amigos e familiares. Um lembrete de que a arte às vezes é fuga, mas não há como escapar: ela é e sempre será uma forma de representação da vida.

Crítica: Mulheres do Século 20
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