10 de dezembro de 2019

Superestimado

Com estreia prevista para esse mês, “Manchester à Beira-Mar”, chega ao Brasil causando certo burburinho entre os cinéfilos e os espectadores mais assíduos. Tudo isso porque ele foi indicado à 5 categorias no Globo de Ouro, levando apenas o prêmio de melhor ator, e comenta-se de possíveis indicações ao Oscar 2017. Mas como o próprio título de nossa crítica descreve, a produção vem sendo superestimada, não tem nada de novo e não é tão cativante quanto o esperado.

A produção, escrita e dirigida por Kenneth Lonergan (Margaret – 2011), conta a história Lee Chandler (Casey Affleck), um ‘faz tudo’, solitário e de difícil convivência, que é forçado a retornar para sua cidade natal, após a precoce morte de seu irmão, Joe Chandler (Kyle Chandler), devido a uma doença no coração. Com o objetivo de tomar as providências para o enterro e cuidar temporariamente de seu sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges), Lee percebe que esse retorno torna-se complicado quando começa a reviver os problemas de seu passado, precisando enfrentar as razões que o fizeram ir embora e deixar sua família, anos atrás.

Você pode não conhecer o Kenneth Lonergan, mas “Manchester à Beira-Mar” é seu terceiro longa como roteirista e diretor. Ele foi um dos responsáveis pelo roteiro do aplaudido e premiado “Gangues de Nova York” (2002) e um dos criadores dos personagens de “Máfia no Divã” (2000). Ao contrário dos filmes que lhe renderam know-how em Hollywood, Kenneth apresenta um trabalho como roteirista de maneira interessante, densa, mas demasiadamente cansativa, cultivando a profundidade apenas em seu protagonista. Tal pecado, nos deixa perceber que os demais seguem uma linha contínua, servindo de objetos narrativos para se compreender o que aconteceu e acontece com Lee.

Os problemas seguem também se tratando de sua direção. Primeiro vem uma tentativa frustrada de fazer a cidade, “Manchester”, ser um personagem onírico e relevante para a narrativa visual. Ela acaba se tornando exageradamente utilizada, perdendo o ar de contemplação e melancolia que poderia fazer da produção algo mais interessante. Outro ponto desnecessário, que se agrega a edição de Jennifer Lame, é a inserção de pequenos takes para justificar algum tipo de mudança que o público automaticamente perceberia, ainda que o filme não seja completamente linear. Talvez a maior qualidade de seu trabalho como diretor venha da direção de atores, que é natural e palpável, dando um tom interessante à todo o marasmo.

Se tratando do elenco formado pelo produtor de casting Douglas Aibel, suas escolhas foram bem realizadas, preocupando em trazer rostos não tão famosos no mercado mundial e que conseguissem traduzir a, às vezes desaparecida, complexidade do filme. Com exceção de Casey Affleck, o resto do elenco é uniforme, consegue se destacar em momentos específicos e necessários, mas nenhum se sobressai ao protagonista.

Lucas Hedges, traz uma leveza à languidez narrativa, sendo um adolescente normal, com sonhos desejo e que, a sua maneira, supera as adversidades encontradas. Michelle Williams, em sua pequeníssima participação, que só não se faz desnecessária por dar vida a ex-mulher do protagonista e ter com ele um passado difícil, consegue trazer um tom de humor e drama cativantes para a trama, de acordo com a narrativa que é inserida. Mas como já foi deixado claro por aqui, o mérito de todo o filme é de Casey Affleck que, mesmo estando ótimo, não consegue segurar sozinho os erros de conduta da produção. O seu Lee tem camadas profundas e instigantes que de fato nunca compreenderemos ao todo, psicologicamente falando, mas se faz de uma delicadeza essencial para o que nos é apresentado na tela.

Outro grave problema enfrentado pela produção é a trilha sonora composta por Lesley Barber (ou seria o contrário?). Ela consegue algo que pouquíssimas vezes foi visto e ouvido no cinema, ser uma trilha excelente, com músicas incríveis, mas que não encaixam na produção e fazem elas parecerem tão massantes quanto as cenas que são inseridas. As composições e o coro vocal são de uma refinação artística incrível, mas elas se tornaram um mecanismos de “vamos dar mais”. Vamos dar mais drama, joga a trilha. Vamos dar mais melancolia, joga a trilha. Vamos atenuar as bucalidade da cidade, joga a trilha. E aí ela foi jogada fora.

Indo literalmente na contramão de muitas críticas, “Manchester by The Sea”, título original em inglês, é um longa que não merece tanta atenção quanto está sendo dado. Se não fosse as indicações, ele provavelmente passaria facilmente despercebido pelo público. Dramas familiares no mercado hollywoodiano não faltam, não são novidades. Vale ressaltar que algumas são muito melhores do que o filme de Kenneth e nunca ganharam o reconhecimento merecido.

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Paulo Olivera

Paulo Olivera é mineiro, Gypsy Lifestyle e nômade intelectual. Apaixonado pelas artes, Bombril na vida profissional e viciado em prazeres carnais e intelectuais inadequados para menores e/ou sem ensino médio completo.

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