Crítica: Ninguém está olhando

Mais um filme argentino que precisamos assistir

Existem muitas formas de mostrar a rotina do povo latino nos EUA, mas dificilmente você encontrará algo como “Ninguém está olhando”. O filme mostra que nem todo estrelato local tem peso fora do seu país e que sim, todos precisam se virar de alguma forma para viver e esperar um sonho acontecer.

A trama gira em torno de Nico (Guillermo Pfening) um ator argentino, muito famoso em seu país devido a uma novela, que larga tudo e se muda para Nova York na esperança de que em breve atuará em um longa com um elenco particularmente latino. Mas enquanto as gravações não começam, ele se vira da forma que pode, trabalhando como babá e garçom e cometendo pequenos furtos para economizar. Em meio a tudo isso está o fato dele nunca ter superado o ex, produtor da novela em que ele atuava, esconder de amigos e familiares que não está vivendo bem no exterior, e decidir se desiste de tudo e volta para casa e para o elenco da novela.

O longa é falado em 3 idiomas: inglês, espanhol e um pouquinho de português. Mas o elenco é principalmente latino, a começar pelo protagonista e seu ciclo de amizade. Ele é babá do filho de sua amiga Andrea (Elena Roger), argentina como ele, que é casada com um americano e recentemente se tornou mãe. Vendo a situação de Nico, Andrea o convence a ser babá de seu filho para que assim ele possa se sustentar enquanto o início das gravações é adiado. Por causa disso, ele acaba convivendo com outras babás que frequentam o mesmo parquinho na cidade, o que o leva a participar de todo tipo de conversa – desde a profissão até a vida e suas dificuldades na América.

O roteiro e direção pertencem a argentina Julia Solomonoff, que acerta bastante em cada detalhe. A começar pelo roteiro, pois apesar da trama seguir uma sequência linear, utiliza-se do recurso de flashback e o público não fica sabendo do enredo logo de início, pois até o final somos apresentados a fatos relevantes que explicam certas atitudes ao longo do filme. A primeira cena, por exemplo, só tem sua continuação muitos minutos depois, e talvez esse seja um diferencial importante, pois cria-se aquela expectativa de qual será o desfecho daquele momento dramático e incógnito.

A trama pode ser considerada um pouco “parada”, devido a melancolia de algumas cenas, mas os recursos utilizados por Solomonoff na direção fazem com que o público fique atento a cada detalhe para entender cada ponto da história. Outra particularida é o fato da priorização da linguagem corporal. Os diálogos são curtos e objetivos, mas as trocas de olhares se alongam e isso faz parecer que a diretora deu total liberdade para o elenco, como se ela dissesse “atuem sem focar no que deve ser dito”.

A fotografia encanta e revela as mais belas paisagens de Nova York nas quatros estações do ano e isso casa muito bem com a trama. O público entende perfeitamente quanto tempo está passando apenas atentando-se para o cenário. Aliás, todo departamento de arte faz um trabalho excepcional, o próprio personagem principal muda um pouco sua personalidade e cores de vestimentas com o passar das estações, o que vem bem a calhar com a própria iluminação de cada período, as cenas internas poderiam ter sido gravadas na mesma época e seria impossível perceber. Claro que mostrar a temporada do ano pode soar um pouco clichê, como a neve no inverno e folhas caídas no outono por exemplo, mas mesmo assim essa simplicidade deu uma sutileza na medida certa.

O elenco é funcional e os atores representaram muito bem seus papéis, mas os destaques ficam para Guillermo Pfening, o protagonista – bem como Rafael Ferro, que viveu Martin, o ex-namorado de Nico. Em relação a Nico, esse é um pouco de tudo, galã, anti-herói, mocinho, e passa por muitas situações extremas de formas positivas e negativas e mesmo quando achamos que age de forma errada, já nos afeiçoamos a ele, não tem jeito, queremos que ele tenha um final feliz. Mas essa torcida só é possível porque a construção do personagem foi muito bem feita e envolve o público na obra. Já Ferro traz uma atuação impecável, 100% corporal. Difícil ter toda essa carga e demonstrar apenas com um tom de voz ou um olhar, mas ele consegue e faz isso de forma envolvente.

Contar a história do povo latino nos EUA não é nenhuma novidade, mas a visão mostrada surpreendeu e o talento de toda a equipe fez o com que o longa agradasse e muito. Não é a toa que foi selecionado para diversos festivais (entre esses o Festival do Rio) e ganhou prêmios no 27º Cine Ceará, incluindo melhor longa-metragem e melhor ator. Um filme belíssimo que encanta e que não precisa daquele final “felizes para sempre” que coloca fatos mirabolantes para mostrar que tudo deu certo e pronto. É apenas o recorte de uma história, e essa tem seu começo, meio e fim, o longa apenas mostra um pequeno trecho que se fez interessante ser acompanhado.

Crítica: Ninguém está olhando
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