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Crítica: O Animal Cordial

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Luiz Baez
9 de agosto de 2018 3 Mins Read
“A culpa é sempre do preto, do paraíba, do viadinho.”

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Sobre uma tábua de cozinha, estende-se um cadáver. O corte da faca acompanha o do plano. O coelho perde a cabeça, e o filme ganha título: “O Animal Cordial” (2018). Resumido nas poucas palavras, um discurso se antecipa. Enquanto humano e alimento equivalem-se para as duas primeiras, a terceira remete a Sérgio Buarque de Holanda. Cunhado pelo sociólogo, o conceito “homem cordial” retrata um Brasil de relações afetivas, onde esferas pública e privada se confundem. Em contato com seu lado bestial, enfim, as personagens de Gabriela Amaral Almeida – roteirista de “Quando Eu Era Vivo” (2014) – representam arquétipos nacionais.

Inácio (Murilo Benício), o típico patrão burguês, ignora os direitos envolvidos em vínculos trabalhistas. Em seu restaurante, espera, de outro modo, a disposição para trabalhar além do horário. Tal comportamento patrimonialista encontra respaldo em Sara (Luciana Paes), a puxa-saco garçonete. Por trás da dedicação, a empregada nutre, afinal, o sonho de seduzir o empregador e ascender socialmente. Com os demais funcionários, por outro lado, atritos se sucedem. O cozinheiro Djair (Irandhir Santos), por exemplo, gay e nordestino, sofre diário preconceito. A crescente tensão encontra ápice em noite inusual. Perto de fechar, o estabelecimento recebe três clientes: o policial aposentado Amadeu (Ernani Moraes), o advogado Bruno (Jiddu Pinheiro) e sua desinibida esposa Verônica (Camila Morgado). Após uma tentativa de assalto, os tranquilos jantares dão lugar a um interminável suplício.

Microcosmo de uma nação conflitiva, o espaço já reduzido de um restaurante diminui ainda sob a sufocante direção de Amaral Almeida, estreante em longas-metragens. Na trilha sonora, as músicas invadem os diálogos em tom de iminente ameaça. Ao misturarem elementos clássicos, como uma sinfonia de Vivaldi, e contemporâneos, como sintetizadores, as ferozes composições de Rafael Cavalcanti (“Trabalhar Cansa”) homenageiam o horror tradicional ao mesmo tempo que dele se diferenciam. Em termos imagéticos, por sua vez, os planos fechados de Barbara Alvarez (“Que Horas Ela Volta?”) violam tanto a privacidade do espectador quanto a das figuras capturadas. x78261235 SCFilme O animal cordialna foto Luciana Paes e Murilo Benicio.jpg.pagespeed.ic .jhMLzSmSXB

Confinadas, portanto, as personagens revelam-se em elucidativas falas. “Eu sou advogado da União” e “Eu sou seu chefe”, ameaçam Bruno e Inácio. Aproximados pela posição social, ambos personificam uma classe média reacionária, para a qual “bandido tem que morrer”. Síntese dessa lógica policial, Amadeu se orgulha: “Você sabia que eu já matei muita gente?”. No outro extremo, os marginais resistem. Nesse sentido, reivindicar o próprio nome, como fazem a garçonete Sara e o ladrão Magno (Humberto Carrão), significa lutar contra a invisibilidade. “Sei muito bem como sua cabeça funciona. Igual a você tem um monte. No fundo, no fundo, você morre de medo”, resume Djair, em postura semelhante. A burguesia teme, em outras palavras, o “preto”, o “pobre”, o “viadinho”. Teme, em suma, quem ameaça seus privilégios.

Apesar de interessantes, os antagonismos pouco se aprofundam. As duas mulheres, em especial, cumprem papéis demasiadamente esquemáticos. Verônica, endinheirada e bem vestida, reúne todas as características negadas a Sara. A ascensão social sonhada por esta traduz-se, assim, nos luxuosos brincos daquela, importantes signos narrativos. Intérprete da garçonete, Luciana Paes (“Sinfonia da Necrópole”) incorpora, genericamente, todos os anseios de uma sociedade estratificada, dividida em patrões e funcionários. Contrapondo-se a essa abordagem reducionista, contudo, o comprometimento de Paes, Benício (“Divórcio”) e Santos (“Aquarius”) dita a intensidade da experiência.

Levadas ao extremo, as tensões sociais transformam a estreia de Almeida em um sanguinolento slasher. Em conjunto com recentes exercícios de gênero – “As Boas Maneiras” e “Motorrad – A Trilha da Morte”, para citar alguns -, “O Animal Cordial” aponta, por fim, para um fenômeno atual. Em tempos de desmonte, o cinema brasileiro responde com o horror.

* O filme estreia hoje, dia 9, quinta-feira.

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Camila MorgadoFestival do RioFestival do Rio 2017Filmes de TerrorGênero TerrorLuciana PaesMurilo BenícioslasherTerror

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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