Imagem: Divulgação/Lionsgate/Paris Filmes

O movimento “Me Too” abalou as fundações de Hollywood ao incentivar denúncias de abusos sexuais cometidos por homens poderosos da indústria cinematográfica contra atrizes, roteiristas e outras trabalhadoras. As acusações começaram em 2017, porém, um ano antes, como em uma espécie de prólogo do que estava por vir, uma avalanche de acusações caiu na cabeça de Roger Ailes, um chefão da Fox News. Dezenas de mulheres denunciaram o homem por sua conduta deplorável. Entre elas estavam duas importantes âncoras do canal. O caso, evidentemente, teve repercussão mundial, ainda mais porque a Fox News era apoiadora do canalha e misógino Donald Trump, então candidato à presidência dos EUA.

O filme “O Escândalo” conta os bastidores desta história ao mostrar o ambiente tóxico criado por Ailes (John Lithgow), em uma redação onde as mulheres eram tratadas como objetos que precisavam expor partes do corpo para que fossem notadas pelos seus superiores homens e para que recebecem a atenção dos telespectadores. O código de vestimenta do local era claro: é preciso que seja sexy através de vestidos curtos e colados ao corpo. Claro, o decote também era imprescindível. Ailes ainda fazia o famoso “teste do sofá”, que era disfarçado em entrevistas com as novas jornalistas. Durante o bate papo, ele solicitava que elas descem “voltinhas” e levantassem o vestido. Em parte das vezes, o assédio físico era consumado.

Quando a âncora Gretchen Carlson (Nicole Kidman), outra das que sofreram assédio, começa a se rebelar contra a postura conservadora Repúblicana do canal (ela faz matérias contra o uso de armas automáticas e muda sua atitude antes conivente com as demonstrações de machismo), Ailes a coloca no segundo escalão jornalístico. Então, a jornalista decide forçar a demissão e entrar com um processo contra o chefe. Para isso, ela precisa da ajuda de outras mulheres que sofreram o mesmo que ela, como Megyn Kelly (Charlize Theron), Kayla Pospisil (Margot Robbie), entre outras.

As ações dessas mulheres foram de extrema importância para o movimento feminista que se fortaleceu posteriormente como o já citado “Me Too”, e contar essa história nos cinemas era essencial para concientizar ainda mais a sociedade, porém, infelizmente, o filme dirigido por Jay Roach não consegue fugir do banal no que diz respeito à narrativa, à direção e ao roteiro, ficando aquém da importância do tema. Como o filme não se sobressai, corre-se o risco de ser logo esquecido e de não ter a atenção devida por parte do público que, porventura, não saiba do ocorrido.

Talvez, Roach tenha preferido uma linguagem simples para que ela não chamasse a atenção para si, deixando os holofotes apenas ao texto, o problema é que esse não faz mais do que descrever o que já foi massivamente noticiado. Não que incluir algo que não aconteceu na realidade fosse uma opção, mas um pouco de apuro artístico poderia inserir nessa representação da realidade fatores de discussões que fariam o espectador refletir. Em outras palavras: usar a linguagem cinematográfica para falar nas entrelinhas a partir do material verídico. De outra forma, que se fizesse um documentário.

Imagem: Divulgação/Lionsgate/Paris Filmes

Dito isso, o  que sobra são as excelentes atuações do elenco, principalmente de Theron, que tem suas feições alteradas para deixa-la irreconhecível. A maquiagem e os outros elementos usados para esconder a atriz servem como apoio para uma atuação convincente. A Megyn que Theron constrói está entre a conivência, o que a mantém no topo, e a vontade de revelar ao mundo os crimes de Ailes. O problema é que sua carreira pode acabar no processo. Theron usa esta dúvida e faz sua personagem praticamente sussurrar nos corredores repressores da redação, o que contrasta com sua voz potente, tão eficazes na frente das câmeras. Outra que se destaca é Robbie, trazendo uma personagem também em dúvida, mas que sofre mais por ter pouca experiência na carreira e na vida. Os olhos sempre marejados e sua dificuldade em se expressar são as amostras do ótimo trabalho da intérprete. Kidman, por sua vez, está bem na pele de Gretchen, uma mulher determinada e segura de si. Carrega elegância em seus modos, ao mesmo tempo em que quer fazer seu abusador sangrar.

O elenco ainda conta com nomes femininos conhecidos, como Kate McKinnon, Jennifer Morrison e Allison Janney, no entanto, são Theron, Kidman e Robbie as detentoras das atenções. É em uma cena com elas, inclusive, que há um dos poucos momentos que a linguagem visual é usada para dizer algo: as três estão em um elevador, Gretchen à frente, vestida de rosa, já decidida em revelar os abusos. Atrás dela, Megyn, em sua eterna dúvida, vestida de cinza, e Kayla, naquele momento ainda nas garras de Aires, vestida de preto. Elas se olham, e se entendem, como se as cores de suas roubas as dissessem algo. Ao espectador diz muito, pena ser uma das poucas vezes que isso acontece em “O Escândalo”.

Vídeo e Imagens: Divulgação/Lionsgate/Paris Filmes

O Escândalo

2.5
Regular

Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusam de assédio sexual no ambiente de trabalho.

Roteiro
Direção
Atuações
Pros
  • Boas atuações
  • Tema de extrema importância
Cons
  • Roteiro não sai do comum
  • Direção simplória
  • Sem inventividade
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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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