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CríticaFilmes

Crítica: Obra

Rodrigo Chinchio
15 de agosto de 2018 4 Mins Read

1wGYDlcLBUt32MX6MXsdQDq2uXRQuem vive em São Paulo sabe como é amá-la e odiá-la ao mesmo tempo. Se por um lado ela é “pulsante” e chega a “respirar” como um ser vivo, por outro é caótica e desorganizada como um grande conglomerado de concreto carcomido. Essa dicotomia é importante na construção de “Obra”, pois representará a persona do individuo principal da trama e dos que o rodeiam. O certo é que, em sua enormidade e complexidade, a capital paulista esconde segredos em suas fundações que nem passam pela cabeça da maioria das pessoas que nela vivem. No filme, o cineasta Gregorio Graziosi conta uma história que vai buscar nas entranhas da cidade suas revelações e complicações para que elas façam parte como personagens principais do longa.

Revelações e principalmente complicações que começam na vida do Arquiteto João (Irandhir Santos de “Tatuagem” e “Aquarius”) quando restos mortais de várias pessoas são achados no terreno onde a obra do título está sendo executada. Essa construção, além de estar sob sua supervisão, ainda pertence ao seu avô. Depois da descoberta, a relação dele com a profissão, com a sua realidade e com a família começa desabar. Aliás, na primeira cena onde o vemos, o roteiro já entrega o há por vir sobrepondo o personagem a um vídeo de um prédio sendo demolido. A imagem projetada se mistura à sua figura, fazendo o paralelo entre ele e àquele prédio. Aliando-se a isso, a montagem, por vezes, usa um plano de João seguido de pedaços desconexos da cidade, intercalando-os. João também possui um erro  estrutural representado por uma hérnia de disco que acomete todos os homens da família (por isso, quando sua coluna cede à doença no segundo ato, a sua desconstrução é completa). Seu pai a possui, assim como seu avô, que vive o que lhe resta da vida preso em uma cama. A doença serve como uma espécie de carma que os assola por causa de seu passado sombrio.

Afirmando seu desconforto, João entra no buraco onde os ossos foram achados e, depois de um ataque de desespero, se deita na terra como mais um daqueles corpos esquecidos no passado. O centro de São Paulo, com seus prédios decrépitos, é o cenário por onde João transita e usa como um enorme mausoléu particular. Os becos quase sem iluminação expressam a semivida dele e da cidade. A sua confusão psicológica é determinada por luz (representado pela igreja onde ele faz uma restauração) e sombra (o terreno do avô, onde a obra está em execução). Parte da luz também vem da figura da esposa grávida (Lola Peploe). A mulher, com sua inocência e carregando, além do filho, uma paixão por um passado rico e vivo (ela é arqueóloga, mas ao contrário dele, encontra vestígios de um povo que viveu harmonicamente) são os respiros de um homem no limite. 505601

Belamente fotografado em preto e branco por André Brandão, a falta de cores casa com uma São Paulo sempre encoberta por névoa e com o céu de nuvens carregadas, servindo ao tom lúgubre da personalidade de João e com sua situação de dor e pressão emocional. Brandão e Graziosi são certeiros ao enquadrar João sempre ereto (apesar das dores nas costas) de frente à selva de prédios, igualando-o com as construções, ou quando o encurrala em cubículos de concreto, fazendo-o caminhar de um lado para o outro batendo a cabeça nas paredes em uma situação que não há saída. Seguindo a mesma ideia, há momentos em que o enquadramento o coloca no canto do plano, com uma parede ou coluna limitando seu espaço.

De acordo com os outros elementos usados pelo roteiro, o figurino é configurado com a pretensão de vesti-lo basicamente com blazers e camisetas, mas sempre de forma alinhada e elegante em tons escuros (quando a sujeira da família vem à tona e quando ele precisa executar um ato reprovável), ou mais claros (quando busca se redimir). O Blazer branco só é maculado quando é atingido pela terra misturada com cabelos das vítimas, que é enviada para o seu escritório dentro de um envelope. Sofisticação e miséria são inerentes a ele. No terceiro ato, depois do nascimento do filho, João está na cama ao lado da esposa, vestindo o blazer preto. Sua imagem é levemente desfocada para deixar a incerteza de qual o papel desempenhará como pai. Será que manterá o legado da família? Complementarmente, há uma cena dentro do carro que evidencia o quão pressionado pelo passado ele está, já que seus apreensivos olhos são filmados como reflexo no retrovisor. Como dito acima, o futuro é deveras incerto, e, em outra cena, o vidro dianteiro totalmente embaçado prova isso. Há ainda a intromissão dos sons da metrópole misturados com a trilha sonora de tons graves, que inundam o apartamento em que mora, gerando desconforto e nervosismo ao espectador e colocando-o cada vez mais em um turbilhão de desespero.

Graziosi usa todas suas ferramentas para confeccionar sua narrativa com moldes de thriller e pitadas de drama psicológico, mas, executa de fato um ótimo conto moral carregado de toneladas de arrependimentos misturados com concreto, terra e ferro retorcido.

 

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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