Perdendo a identidade

Memória não significa apenas lembrar os compromissos do dia a dia e um punhado de informações. Memória tem a ver com a nossa identidade: o que vivemos, quem somos e o que já construímos. E, até mesmo, há uma ligação com o futuro: o que planejamos fazer e o que esperamos colher. “Para sempre Alice, uma adaptação do livro homônimo de Lisa Genova, traz Julianne Moore no papel de uma mulher de cinquenta anos diagnosticada com Alzheimer precoce.

Por ironia do destino, ela é uma conceituada professora de Linguística na Universidade de Columbia. O intelecto e a capacidade de comunicação são seus pontos fortes, mas isso não a salvou da doença.

O longa se inicia com a comemoração de seu aniversário e nos apresenta à sua família quase perfeita: o marido John (Alec Baldwin), os filhos Tom (Hunter Parrish), Anna (Kate Bosworth) e Lydia (Kristin Stewart). Esta última ausente do evento por estar em Los Angeles onde batalha por sua carreira de atriz. Para Alice, os outros dois filhos escolheram “carreiras de verdade” (Medicina e Direito), e por isso ela tenta continuamente dissuadir a caçula de uma opção tão insegura. Esse conflito faz com que a relação das duas tenha mais visibilidade no filme do que o convívio com os outros filhos. Os roteiristas Richard Glatzer e Wash Westmoreland, também diretores do longa, criaram excelentes momentos tanto de embate quanto de amor entre mãe e filha.
O roteiro é linear: vemos a evolução da doença desde o momento em que Alice tem um esquecimento durante uma palestra e quando, ao praticar sua corrida habitual, se perde em um lugar conhecido. Nesta cena foram usados recursos como o giro da câmera ao redor da atriz, transmitindo a sensação de agonia e confusão mental da personagem. A história segue até Alice não ser mais ela mesma.

O tema, sem dúvida uma situação profundamente desoladora, poderia ter transformado o filme em algo melodramático, mas isso não acontece. O que não significa que não seja comovente, principalmente graças à atuação admirável de Julianne Moore. Algo muito positivo neste filme é que ele mostra o ponto de vista da personagem que sofre de Alzheimer; o foco está nela e no que atravessa, e não em seus familiares. A maioria das pessoas acredita que, por se tratar de uma doença relacionada à perda de memória, quem padece desse mal apenas esquece que está nesse mundo e, por isso, migra para uma espécie de limbo onde a alienação não causa dor. Imagina-se que o sofrimento maior é de quem vê a transformação de um ente querido em outra pessoa. Embora assistir a tal processo seja absolutamente doloroso, há sim, angústia por parte do doente, que percebe a perda de suas capacidades cognitivas e tem constantes alterações de humor. Tudo isso fica bem claro no filme, tanto em cenas em que Alice se depara com sua progressiva incapacidade de fazer coisas simples quanto na conversa que tem com Lydia em que diz como é viver nessa condição. Em alguns poucos momentos ela até mesmo brinca com o problema, o que permite um certo respiro no meio de uma situação tão delicada.

Há enquadramentos muito interessantes, como quando Alice é entrevistada pelo médico pela primeira vez. Nesse formato, em que apenas ela aparece na tela, respondendo a uma sequência de perguntas, fica mais em evidência a apreensão da personagem, embora ela tente aparentar calma e naturalidade. Em outro momento, a doença já avançada, John e os filhos discutem a situação e todos aparecem desfocados no campo de visão de Alice. Até que ela diz algo e todos se voltam para ela, que parece um elemento pequeno e isolado no ambiente.

Merecidamente, Julianne Moore levou o Oscar de melhor atriz por sua atuação. Em todo o filme, é possível ver a transformação em seus olhos: o sofrimento da personagem ao contar seu diagnóstico, o olhar que vai ficando perdido e apagado à medida que a doença evolui. O que surpreende é o comportamento do marido. Embora Alec Baldwin seja competente em sua performance, é um tanto estranho ver o personagem tão centrado e quase inabalável, ainda que afetuoso. Faltou mostrar vulnerabilidade; a direção poderia ter optado por explorar alguma fragilidade de John, mesmo que somente visível para o espectador.


Neuza Rodrigues


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1 thought on “Crítica: Para sempre Alice

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