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Crítica

Crítica: Quatro vidas de um cachorro

Um cãozinho é resgatado por uma família estadunidense típica e, uma vez adotado por um menino, vive uma linda história de amizade e parceria… Ok! Pensando assim esse seria mais um filminho de bichinhos que falam, para fazer a tarde passar leve na programação local. No entanto, “Quatro vidas de um cachorro”, filme baseado em um livro homônimo, tem potencial para surpreender e emocionar até quem não é assim… tão fissurado em Pets.

Contado sob a perspectiva do cão, o longa narra a história de Bailey, um Golden Retriever que ainda filhote é resgatado por Ethan e sua mãe. Um pouco à revelia da vontade do pai, a família adota o cãozinho, que se torna parceiro inseparável de seu “menino humano”. Das brincadeiras entre os dois (“Bailey, pega!”), Ethan (K.J. Apa) vira um promissor jogador de futebol americano – com direito a bolsa de estudos integral em uma boa universidade. Apesar da relação com seu pai, que passa a ser cada vez mais problemática, tudo vai bem na vida do moço. Para arrematar, conhece (com a ajuda de seu fiel amigo canino) Hanna (Britt Robertson): Uma menina doce e solar, com quem vive um verão apaixonante.

Mas, como era de se esperar, reviravoltas mudam o rumo da história,  sem que a amizade entre os dois se acabe, até o último momento de Bailey. E no desenrolar da trama, o cão retorna a terra em diferentes corpos caninos, sempre com a memória afetiva de suas vidas passadas. Assim, acumulando experiências e cada vez mais compreendendo seu propósito por aqui. E, em uma oportunidade improvável, nosso protagonista pode seguir só em sua maior missão ao longo de suas quatro vidas.

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O título em inglês “A Dog’s purpose” (O propósito de um cachorro) consegue retratar de forma mais fiel a verdadeira essência da narrativa. Desde filhote, e por todas as vidas que passa, essa alma canina questiona qual o seu papel no mundo e naquela encarnação. Assim, movido pelas possíveis respostas a essa pergunta, sempre busca uma forma de tornar a vida de “seus humanos” mais feliz e divertida. Essa indagação descreve fortemente ações corriqueiras dos caninos (que amamos!), e, como desenrolar lógico, a parceria que sempre se estabelece entre homens e cães. O propósito de Bailey, no entanto, tem um fundo transcendental. Trata-se de uma missão que atravessa suas vidas e, nessa jornada, a vida de humanos (e famílias) de diferentes realidades. No final das contas, fica o sentimento de que nessa relação se estabelece um laço que pode ser forte o suficiente para motivar buscas que parecem inalcançáveis.É interessante comentar que o roteiro de W. Bruce Cameron, Cathryn Michon e Audrey Wells busca trazer a perspectiva do cachorro em toda a narrativa. Além disso, o que difere bastante de alguns filmes nesse gênero é a valorização de aspectos que são realmente importantes na vivência de cães. O faro, por exemplo, é muito explorado como forma de relação entre o animal e o meio; assim como diversas atitudes comuns à espécie são explicadas considerando essa relação (é quase como se o roteiro tivesse um dedo do encantador de cães, César Millan – que entende profundamente a psique canina). E tudo isso com um senso humor leve e envolvente.

Outros aspectos do longa auxiliam no reforço a essa sensação, como por exemplo, a fotografia assinada por Terry Stacey, que passeia por diferentes realidades, sempre ensolarada. Mesmo nas cenas mais tristes o contexto fotográfico é tranquilizante, retratando o campo e a cidade com uma perspectiva bucólica e amigável.

A trilha de Rachel Portman apoia esta proposta: instrumental em quase sua totalidade, dá o tom de amizade e aventura (bem semelhante aos filmes de animais como os conhecemos… Fórmula simples que funciona, mexendo com os espectadores nas propostas cênicas).

Trata-se, por fim, de um filme bem produzido e dirigido, no qual atores e direção de Lasse Hallström conseguem um resultado de grande sensibilidade. Por retratar diferentes realidades em diferentes décadas, a direção fidelizou os atores nas condutas e costumes das respectivas épocas. E esses, por sua vez, fizeram um lindo trabalho. Cabe aqui um destaque para o pequeno Bryce Gheisar (que vive Ethan na infância), pelo retrato fiel da relação entre meninos e seus cães, no qual a amizade pulsava nos olhares e toques. E também à dublagem realizada por Josh Gad: Dinâmica, inteligente e dando o tom certo para Bailey em cada etapa de suas histórias.

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Como dito, promete arrancar lágrimas nas sessões, bem como sorrisos sinceros. E é uma boa opção para curtir em família (lembrando que a classificação etária é de 10 anos).


(Mesmo se tratando de uma produção realmente bem feita, cabe aqui um pequeno parênteses para tratar da polêmica (que culmina na proposta de boicote) que envolve o filme. Em meados do ano passado (2016), durante a gravação de uma das cenas de ação da Pastor Alemão, foi registrado um vídeo de exploração/maus tratos do animal em prol do filme. Não cabe aqui qualquer juízo de valor, uma vez que a proposta é sempre trazer uma posição imparcial, considerando o material cinematográfico apresentado. Contudo, como certas temáticas não podem (e nem devem) ser ignoradas, faremos aqui algumas pontuações a respeito do episódio: Antes de qualquer coisa é necessário que se diga que para realização deste tipo de trabalho os animais devem ser treinados e aptos para tal, por uma equipe altamente especializada, responsável por avaliar as condições, os riscos e possibilidades para execução de cada cena. Entretanto, é sabido que, independente dos responsáveis por qualquer escândalo na indústria do cinema, a direção e a produção dos longas devem se responsabilizar por qualquer evento que possa ser nocivo à algum envolvido. Dito isso, cabem algumas indagações ao público: Até que ponto a exploração do animal estava além de suas capacidades? E, considerando que estivessem, quem é o principal responsável pelo excesso: Toda a equipe – que envolve diretores, atores, roteiristas, distribuidores etc; ou a equipe contratada de treinadores? Assumindo que a responsabilidade deva ser dividida entre todos os envolvidos no projeto, o que pode ser feito pela produtora no sentido de investigar e punir os responsáveis pela exploração? E onde estava o representante da AHA (American Humane Association) no exato momento e qual o motivo dele não ter multado os estúdios na época? Consideramos importante que cada espectador se manifeste (em relação a esse filme) de acordo com suas crenças e valores, contudo, vale acompanhar os desdobramentos da história, e, é claro, considerar qual o papel de cada envolvido.)

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9.2
8
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Geógrafa por formação, bailarina por amor e crespa por paixão, Lorena é uma estudante carioca que passa a vida em busca de soluções capazes de melhorar a qualidade de vida. Como boa taurina: é boa de garfo (e como come!) e amante das artes. Por isso se aventura em danças e circos para deixar a vida mais leve! Tem uma cabeça grande que nunca para de trabalhar e divide aqui na WOO suas loucuras e delícias.

3 Comments

3 Comments

  1. Valdir

    25 de março de 2017 at 22:35

    Bacana.

  2. Maria

    31 de março de 2017 at 20:08

    Interessante.

  3. felipe

    31 de março de 2017 at 22:07

    Gostei muito do que li aqui no seu site.Estou estudando o assunto,Mas quero agradecer por que seu texto foi muito valido. Obrigado 🙂

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