Crítica: Quem Você Pensa que Sou

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Ao ler o título “Quem Você Pensa que Sou”, é quase inevitável adicionar um ponto de interrogação que não existe. Essa pequena, mas significante, confusão parece ser uma escolha consciente do diretor e roteirista Safy Nebbou, uma vez que representa muito bem o tipo de dúvida que ele deseja jogar sobre o espectador. A protagonista do filme, a escritora e professora Claire (Juliette Binoche), é uma mulher dúbia, cujas atitudes constantemente oscilam entre a plena consciência e o deixar-se levar pelas emoções; ou pelo menos é isso que Nebbou quer que o público ache.

“Quem Você Pensa que Sou” acompanha o relacionamento entre Claire e Alex (François Civil), um homem mais novo que ela conheceu pela internet ao usar um perfil falso. Apesar da sinceridade e intimidade de suas conversas e da confiança que um cria pelo outro ao longo do tempo, essa troca entre os dois é baseada numa rede de mentiras que se torna cada vez mais densa – a começar pelo fato de Alex pensar que, na realidade, está conversando com Clara, uma jovem de 24 anos, estagiária de moda.

Como forma de representar visualmente essa duplicidade, Nebbou frequentemente filma Claire através de janelas, especialmente à noite, criando uma mistura entre matéria e reflexos que se assemelha ao jogo de aparências e falsas identidades que rege o relacionamento principal do filme. Além disso, não é à toa que a protagonista usa óculos, cujas lentes translúcidas permitem ver os olhos de Claire, mas que, ainda assim, representam uma barreira entre a personagem e o mundo à sua volta.

Essas mesmas imagens são usadas também para mostrar o quão tênue é a linha que separa o público do privado, evidenciando o quão próximas verdade e mentira encontram-se uma da outra. Uma cena-chave para entender essa argumentação feita pelo diretor é aquela em que Claire e Alex se masturbam enquanto encenam uma transa pelo telefone. Por mais imaginário que seja (e que Alex não saiba com quem de fato está “transando”), o ato sexual consumado pelas personagens resulta em um gozo verdadeiro e é fruto da construção progressiva de uma autêntica intimidade. Além disso, a cena se desenrolar no carro de Claire – um espaço que não é nem totalmente público, nem totalmente privado – apenas corrobora o quão complexa é a relação entre as duas esferas.

Entretanto, se Nebbou consegue explorar bem – narrativa e esteticamente – essas questões na primeira metade do filme, em sua segunda parte, o diretor começa a cair no exagero. Apesar de contar com uma interessante estrutura narrativa que recontextualiza os acontecimentos mostrados até então, a segunda hora de “Quem Você Pensa que Sou” parece perder o fôlego à medida que se desenrola: os motivos visuais se repetem tanto que ficam banais (particularmente, os planos feitos com drones); cenas piegas surgem com mais frequência (o momento em que Alex tira os óculos de Claire; a protagonista se molhando na chuva); a trilha sonora se torna mais intrusiva; as referências literárias ficam mais óbvias (o manjado uso de “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen para falar sobre emancipação feminina). Enfim, fica a impressão de um filme que quer ser mais sofisticado e profundo do que efetivamente é.

Mesmo assim, “Quem Você Pensa que Sou” não sai totalmente dos trilhos graças ao enorme talento de Juliette Binoche. Uma das melhores e mais versáteis atrizes em atividade, a musa francesa entrega uma ótima atuação, equilibrando com maestria as nuances de sua personagem. É ela que, apesar das escolhas duvidosas do diretor, mantém “Quem Você Pensa que Sou” um filme minimamente interessante do início ao fim.


Imagens e vídeo: Divulgação/California Filmes

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