Crítica: Slender Man – Pesadelo Sem Rosto

“Quanto mais medo ele cria, mais fascinados ficamos.”

Na primeira sequência de Slender Man – Pesadelo Sem Rosto” (Slender Man, 2018), um grupo de amigas assiste a um vídeo. Enquanto graciosos gatinhos brincam na tela do celular, as meninas discutem a fofura das cenas. O comentário de uma delas, no entanto, rompe quaisquer expectativas. Em vez de uma estética macia e felpuda, Katie prefere ver os animais explodindo. A inesperada fala introduz uma sombria personagem, peça-chave no desenrolar do longa-metragem. A partir de sua intervenção, as imagens virais perdem sua inofensividade. No lugar do domínio do “fofo”, as garotas e os espectadores adentram, assim, o do horror. E desse mundo, Slender Man é seu mais alto representante.

Com grande estatura e compridos braços, o monstro, criado pelo internauta Eric Knudsen, tem na ausência de rosto a principal marca. Nesse sentido, o subtítulo brasileiro, “Pesadelo Sem Rosto”, bem compreende sua essência. Negada a face, a criatura pode corresponder a qualquer um. Ou, melhor, pode apresentar-se em qualquer homem. Tanto na lenda urbana quanto no filme, o terno preto, figurino característico, simboliza o gênero do “Homem Esguio”.

Se, contudo, as narrativas online elegem crianças como grupo de risco, o roteiro de David Birke (“Elle”) coloca em perigo adolescentes femininas. Após assistirem a um vídeo viral como a fita de “O Chamado”, o quarteto de colegiais Wren (Joey King), Hallie (Julia Goldani Telles), Chloe (Jaz Sinclair) e Katie (Annalise Basso) sofre consequências semelhantes às impostas por Samara. As associações com o terror oriental refilmado por Gore Verbinski não param, porém, por aí. Em determinado momento, a referência explicita-se mesmo visualmente, traduzida pelo pentear de longos cabelos em cena passada no hospital. Diferentemente do japonês Hideo Nakata e do estadunidense Verbinski, entretanto, o diretor Sylvain White (“Assassinato Em 4 Atos”) trabalha mal o horror das imagens virulentas.

De um lado, portanto, o roteiro de Birke coloca em questão a emergência de predadores online. Contra essas iminentes ameaças, por exemplo, Hallie desconfia até do próximo. Nem com seu colega de classe e pretendente romântico Tom (Alex Fitzalan) sente-se, então, segura. Outro recurso, a persistente ideia de estar sendo filmado aponta para riscos de invasão da privacidade, como o vazamento de fotos íntimas. Do outro lado, no entanto, a direção perde-se em meio a esses elementos. Seja com os jump scares do início ou com o horror visual do fim, White falha em tensionar o espectador. Ao passo que falta à montagem de Jake York (“Martyrs”) e à edição de som de Trevor Metz (“Covil de Ladrões”) a agilidade para assustar, os precários efeitos visuais geram antes a ridicularização que o esperado terror.

Uma das mais antigas criaturas da creepypasta – fóruns e redes sociais de lendas urbanas -, Slender Man certamente merecia uma adaptação mais consistente. Para ilustrar caminhos possíveis, a série original SyFy “Channel Zero” reúne interessantes soluções audiovisuais. Durante suas três temporadas, o criador Nick Antosca explora com riqueza as sombrias histórias virais “Candle Cove” “The No-End House” “Butcher’s Block”.

Infelizmente, porém, Sylvain White não alcança semelhante resultado. Não obstante a promissora premissa e a competência das jovens atrizes – especialmente Joey King (“A Barraca do Beijo”) e Julia Goldani Telles (“Bunhead”) -, o filme decepciona. Limita-se, afinal, à aparência barata e aos clichés do gênero.

* O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros desde ontem, quinta-feira, dia 23.

 

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