8 de dezembro de 2019

“A Barraca do Beijo”, novo queridinho “Original Netflix”, é uma colcha de retalhos de elementos que deram certo em comédias românticas adolescente. A protagonista narra suas desventuras em primeira pessoa como em “Meninas Malvadas” (2004), tem uma relação de gato e cachorro com seu par romântico como em “Dez Coisas que Eu Odeio em Você” (1999) e não só sua festa de formatura é embalada por “Don’t You (Forget About Me)” do Simple Minds, como sua sogra é nada mais que Molly Ringwald, ícone teen dos anos 80 conhecida por estrelar os filmes de John Hughes. De todas essas características, entretanto, a que se sobressai no projeto, apontado por representantes da plataforma como um dos mais assistidos este ano, não é regra para todos os títulos do gênero, mas é uma das mais infames: discurso sexista velado.

O curioso é que o projeto dirigido e escrito por Vince Marcello parece querer ir pelo sentido oposto ao contar as peripécias juvenis de Shelly “Elle” Evans (Joey King), uma adolescente de dezesseis anos independente e insubordinada, menos quando o assunto é seu melhor amigo Lee Flynn (Joel Courtney) e o irmão mais velho dele, Noah (Jacob Elordi). Com uma queda pelo primogênito dos Flynn desde a infância, já que pela proximidade de suas mães os três foram criados quase como irmãos, a garota se vê em conflito quando percebe que o interesse do rapaz é recíproco, o que pode lhe arranjar problemas com o amigo, uma vez que entre eles existe uma lista de “regras da amizade” em que uma das cláusulas é não se envolver com seus respectivos familiares. Manter esse acordo se tornará ainda mais difícil com a proximidade da feira beneficente da escola em que Elle e Lee encabeçaram a ideia de arrecadar fundos através de uma barraca do beijo, artifício que só aproximará o possível casal.

A premissa não traz necessariamente nenhuma surpresa, a maior delas talvez seja, em pleno 2018, a naturalização do machismo que a personagem principal sofre. Marcello até tenta nos convencer do contrário. “Sério? Você vai mesmo por esse caminho?”, Elle questiona Noah depois dele determinar o tamanho de sua roupa como o catalizador da situação de assédio por qual ela passa. “Não, acabei de ouvir a conversa machista na minha cabeça e fiquei parecendo um idiota no final”, o galã responde, uma tentativa do roteiro de afastar o fantasma misógino que paira sobre ele. Ao lado do desfecho provocativo esse diálogo poderia indicar “A Barraca do Beijo” como uma comédia adolescente perspicaz no modo com situa a discussão de gênero, mas não é o que acontece.

Não há cerimônias: em menos de 10 minutos de exibição, a protagonista é apalpada por um colega da escola que se acha no direito de tocá-la por estar usando uma saia curta e o cenário não é encarado com a gravidade que merece, longe disso. Não só a produção trata como natural Elle aceitar sair com o próprio assediador depois de receber um pedido de desculpas espirituoso, como o ocorrido serve apenas como um mecanismo do enredo para mostrar que Noah se preocupa com a mocinha, já que ele prontamente a salva do ataque, como um cavaleiro que resgata a donzela em perigo.

Detalhe revelador sobre o desenvolvimento do personagem, uma vez que depois de se mostrar consciente do próprio machismo, Noah segue uma descendente e se mostra um homem controlador e violento. Não que isso seja um problema para o roteiro de Vince Marcello, que, mesmo com o estranhamento da protagonista, transforma o fato dele ter usado o seu poder de macho alfa da escola para controlar a vida amorosa da amada no que faz a garota perceber – e se regozijar ao saber – que ele está apaixonado por ela. Por Seus traços de violência, por sua vez, quase não têm fundamento e ainda que a produção dê a desculpa de que o comportamento do bad boy tenha preocupado os pais ao ponto dele ter feito terapia, ela mostra pouco se importar com a repercussão dessa característica. Não é a toa que se em uma cena o garoto faz Elle o acompanhar depois de bater agressivamente no capô do carro, na seguinte eles têm a primeira vez romântica ao ar livre.

Quanto à outra figura masculina importante na vida da jovem, seu melhor amigo, o ponto também não sai tão fora da curva. Lee proíbe a de namorar o irmão a fim de preservá-la de sua má conduta, mas também para proteger o seu ego, já que, segundo o que ela acredita, o rapaz criou essa regra por “viver à sombra de uma lenda do ensino médio”. Graças a essa razão, ele passa por cima dos sentimentos da garota, mesmo quando outro ponto de seu código de amizade diz que eles têm que ficar felizes pelo sucesso um do outro, e só fica satisfeito quando ela atende os seus pedidos.

 No meio do fogo cruzado por baixo da pele de comédia romântica adolescente, fica Elle. É uma personagem carismática que sofre de um fenômeno peculiar de ao mesmo em que parece contestar o domínio masculino, é marionete dele. Pede para Noah parar de tentar controlar a sua vida, mas no fundo vê romantismo nesse controle; exibe seu corpo não porque vê nele poder, mas sim para provocar ciúmes no garoto e, no fim, não fica com seu amado, mas nos lembra de que uma parte dela sempre pertenceria a ele.

Sim, pertencer. Escolha de verbos reveladora da natureza de “A Barraca do Beijo”, um filme inócuo em aspectos estéticos, nada mais que convencional dentro dos limites de seu gênero, porém perigoso na mensagem que carrega. Um perigo bem-humorado e colorido, importante dizer, mas que encheu os olhos dos espectadores púberes bem como as carteiras de homens adultos engravatados.

Que venha “A Barraca do Beijo 2”.

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Rita Constantino

1995. Cobra criada em Volta Redonda. Um dia acordou e queria ser jornalista, não sabia onde estava se metendo. Hoje em dia quer falar sobre os filmes que vê e, se ficar sabendo, ajudar o Truffaut a descobrir com que sonham os críticos.

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