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CríticaFilmes

Crítica: Submersão

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Luiz Baez
3 de abril de 2018 3 Mins Read
“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano.”

2264073.jpg r 1920 1080 f jpg q xA citação de John Donne (1572 – 1631), o mais importante dentre os poetas metafísicos, compõe o vasto quadro de referências organizado por Wim Wenders (“Asas do Desejo”, “Paris, Texas”) em seu mais novo lançamento, “Submersão” (Submergence, 2017). Não só a literatura, porém, inspira o cineasta. O premiado realizador recorre também à pintura, estabelecendo sempre um diálogo entre essas artes e o próprio cinema.

Em uma das primeiras cenas, o espião inglês James More (James McAvoy) senta-se em um banco na Antiga Galeria Nacional de Berlim (Alte Nationalgalerie). Enquanto espera instruções para a nova missão, fixa seu olhar em uma obra. Trata-se de “O Monge à Beira-Mar” (Der Mönch am Meer, 1808-1810), óleo sobre tela de Caspar David Friedrich. Assim como o escritor inglês e o diretor alemão, o pintor romântico tematiza a inserção do homem no mundo. Essa referência imagética serve, portanto, como um sugestivo prólogo para o longa-metragem.

Inspirado no livro de J. M. Ledgard, editado no Brasil pela Record, o filme conta duas histórias paralelas. De um lado, James sofre como refém de jihadistas africanos. Do outro, a biomatemática Danielle Flinders (Alicia Vikander) prepara-se para a perigosa missão de descer até as profundezas do oceano. Em comum, os dois guardam com carinho as lembranças do Natal anterior, quando viveram um intenso romance em um hotel na costa do Atlântico.

Por trás de uma simples história de amor, no entanto, reside uma complexa discussão acerca da natureza do conhecimento. E Wenders, ao adotar uma estrutura narrativa não-linear, endossa essa ideia já indicada pelo roteiro de Erin Dignam (“Crime Passional”, “A Última Fronteira”). Da mesma forma que o cineasta volta ao passado para melhor entender o presente, seus protagonistas encontram esclarecimento na escuridão – seja ela literal, como na zona hadal visitada por Danielle, ou metafórica, como na privação extrema enfrentada por James. As personagens conectam-se, enfim, pela preocupação comum de enxergar o arcaico, as trevas, em meio às luzes da atualidade. Aproximam-se, desse modo, do homem contemporâneo teorizado por Agamben em seu célebre ensaio.

Submersão 159

Se juntos Vikander (“Ex Machina: Instinto Artificial”, “A Garota Dinamarquesa”, “Tomb Raider: A Origem”) e McAvoy (“Desejo e Reparação”, “Fragmentado”) sustentam as sequências passadas no hotel, separados não alcançam o mesmo sucesso. Apesar dos esforços de ambos, a falta de profundidade dos coadjuvantes compromete os momentos transcorridos no Ártico e na África. A esse problema soma-se, ainda, a irregularidade do texto de Dignam. Após um início promissor, a roteirista se perde em sucessivas reiterações da temática principal. A questão do conhecimento reaparece, dessa maneira, derivada sob a forma de embates entre homem e natureza, tecnologia e razão instrumental, ciência e religião – só para citar alguns exemplos.

Os defeitos de “Submersão”, contudo, não se sobrepõem às suas qualidades. Em parceria com o fotógrafo Benoît Debie (“Viagem Alucinante”, “Irreversível”, “Love”) e com o músico Fernando Velázquez (“O Orfanato”, “A Colina Escarlate”, “O Impossível”), Wim Wenders constrói um rico universo sensorial, conforme esperado de um diretor de seu calibre. Além desse refinado tratamento estilístico, a impressionante química entre o casal protagonista revela-se outro ponto positivo. Por meio de suas cativantes performances, a dupla de atores destaca-se e justifica a recente ascensão em suas carreiras. A mensagem central do filme, por fim, suscita interessante reflexão, como a desenvolvida ao longo desta crítica.

* O filme estreia dia 12, quinta-feira.

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6.1
5.5

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Tags:

Alicia VikanderDramaJames McAvoyRomance

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Luiz Baez

Carioca de 25 anos. Doutorando e Mestre em Comunicação e Bacharel em Cinema pela PUC-Rio.

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