Crítica: Suprema

“Não estamos pedindo que mudem o país. Isso já aconteceu sem
a autorização de nenhum tribunal.”

Rufam os tambores. “Inspirado em uma história real”, anuncia a cartela, enquanto se ouve uma marcha de inspirações militares. “Ten Thousand Men of Harvard”, composta em 1918, até hoje antecede grandes eventos universitários. “Os dez mil homens de Harvard / Desejam a vitória hoje”, diz a letra. E quanto às mulheres?

Em meio a sucessivos planos fechados de ternos, em marcha sincrônica com a da cantiga, irrompe um corte. Um vestido e uma bolsa andam na contramão daqueles dez mil. Assim se apresenta Ruth Bader Ginsburg, protagonista de Suprema” (On the Basis of Sex, 2018).

RBG, como ficou conhecida recentemente, é uma das mais importantes vozes do feminismo liberal norte-americano. Popularizada em memes e paródias no “Saturday Night Live”, a figura da juíza povoa o imaginário do estadunidense médio. Poucos sabem, no entanto, o pioneirismo de sua luta, muito anterior à nomeação para a Suprema Corte.

Nesse sentido, o estreante roteirista Daniel Stiepleman esquiva-se de um problema comuns às cinebiografias: o recorte temporal. Depois de uma breve introdução, o filme deixa claro o seu tema, isto é, o caso Moritz vs. Comissário da Receita Federal. Representando um cliente homem, Charles Moritz (Chris Mulkey), Ginsburg (Felicity Jones) pretendia conscientizar os juízes, também homens, sobre os perigos das leis de discriminação de gênero.

Se acerta nesse aspecto, Stiepleman recai, porém, em algumas contradições. Para uma obra sobre uma mulher forte e independente, impressiona, por exemplo, o destaque reservado aos coadjuvantes masculinos. Em parte, é verdade, isso acontece por culpa de Jones (“A Teoria de Tudo”). Ao confundir timidez com insegurança, a atriz incorpora uma fraqueza estranha à personagem. O longa-metragem parece, assim, dividir os méritos de suas conquistas com o marido, Martin, vivido por um tão charmoso quanto incompetente Armie Hammer (“Me Chame pelo Seu Nome”).

Além de Martin, o roteiro considera outro homem essencial para o sucesso de Ruth. Mel Wulf (Justin Theroux), presidente da UALC (União Americana pelas Liberdades Civis), aparece como o generoso voto de confiança depositado na então novata advogada. Dorothy Kenyon, por outro lado, apesar de inspiração de Bader Ginsburg e grande ativista política, não passa de uma senhora amarga na interpretação de Kathy Bates (“Louca Obsessão”).

Quando comparada às demais personagens femininas, contudo, uma mais complexa se distingue. Trata-se de Jane Ginsburg (Cailee Spaeny), primogênita de Ruth e Martin. De início, a relação entre mãe e filha ameaça endossar uma falsa inconciliabilidade entre trabalho e família. Ao longo da projeção, esse antagonismo revela-se ilusório, bem como aquele entre teoria e prática. A mudança na lei acompanha a mudança no pensamento, conclui o longa-metragem.

Dirigido com sobriedade por Mimi Leder (“Impacto Profundo”), “Suprema” representa, enfim, apenas uma centelha da brilhante Ruth Bader Ginsburg. Aqueles pouco familiarizados com a cultura norte-americana jamais entenderão a dimensão da figura em tela. Talvez seja preferível, portanto, assistir ao documentário “RBG: Hero. Icon. Dissenter.” (RBG, 2018): igualmente convencional, incomparavelmente mais eficiente.

* O filme estreia dia 14, quinta-feira.


Fotos e Vídeo: Divulgação/Diamond Films

Crítica: Suprema
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