Crítica: Vendo Memórias

“Vendo Memórias” é um número teatral que  traz a tona o papel da memória, mostrando como ela se constroe ao longo da vida, e qual o seu lugar  na constituição da personalidade e do indivíduo. O espetáculo leve e interativo, nos convida a passear pelos mistérios daquilo que salvamos de nossas experiências,  e como isso pode ser mudado, fantasiado, ou mesmo alterado de forma inconsciente.

André, um jovem ator, se dá conta de que nos dias de hoje tudo passou a ser comercializado, e ele, atento a tendência, decide que passará a comercializar memórias… memórias próprias ou de qualquer pessoa que as deseje ceder (ou vender) a ele. E nessa proposta se desenvolve uma peça de trocas, apropriações e histórias comoventes.

Memórias são trocadas entre ator e plateia,  não ficando claro na fala natural de André quais daquelas memórias contadas fazem parte de sua história ou foram compradas de outras  vidas. Neste espetáculo,  não existe uma separação sólida entre ator e personagem,  levando-nos a crer (na maior parte do tempo) que tudo o que é falado vem da memória afetiva do ator. Em determinados momentos, no entanto, a apropriação de fatos “comprados” ao longo do espetáculo revela que as narrativas não só são plurais em suas origens, como também se confundem entre si. Como diz André logo de cara:

“ Eu sei como essa peça começa mas não sei como ela termina”.

E, desta forma, cada espetáculo se dá de forma singular, única.

A peça direciona o espectador por meio da fala da psicóloga Dani Queiroz, que em momentos alternados explica quais os mecanismos psicológicos que envolvem a formação e a transformação das memórias ao longo da vida. Os áudios de Dani não só respaldam o monólogo de André, como mostram como esse processo possui nuances subconscientes interessantes, e faz com que possamos refletir e entender o sentido por traz de diversas lembranças afetivas, e a forma como nós as interpretamos.

A peça tem sua origem em um trabalho performático anterior, no qual André se encontrou com diversos voluntários que abraçaram a ideia de vender momentos importantes de suas vidas ao performer. E a adaptação para os palcos se tornou uma consequência natural. A direção é assinada por Renato Sampaio, que soube encaminhar a proposta com leveza e clareza, fazendo com que a ideia central não se perdesse ou se tornasse piegas. A proposta desenvolvida pela direção e ator é apresentar o espetáculo quase na forma de bate papo (variando de acordo com a receptividade do público).

Em linhas gerais, a estrutura é bem simples, contando com um cenário capaz de se adequar aos espaços onde se apresentam com relativa facilidade. A simplicidade também pode ser notada no figurino e na iluminação (essa última, especialmente, que se adapta das fartas opções do palco, às menores possibilidades de uma sala comum). No entanto, a sensação é a de que a direção soube utilizar de forma inteligente a pouca estrutura disponível (arte independente, né mores?). E, no final das contas, o peso maior se dá na troca e na proximidade com o público.

Um trabalho divertido e que pode te emocionar.

Crítica: Vendo Memórias
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