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Crítica

Crítica: A Viagem de Fanny

Um drama infantil na França da Segunda Guerra Mundial, que consegue ser inocentemente grandioso

Fazendo parte da seleção oficial do Festival Varilux 2017, que aconteceu em 55 cidades do Brasil inteiro durante as últimas duas semanas, “A Viagem de Fanny” emociona, alegra e ainda transmite um belo recorte sobre o que era ser criança em uma época tão sombria vivida pela França no período da Segunda Guerra Mundial.

Baseado na história real, vivida e contada posteriormente por Fanny Ben-Ami em sua autobiografia “Le Journal de Fanny”, o filme acompanha oito crianças de uma casa de acolhimento que também servira como uma espécie de esconderijo durante a Segunda Guerra. Com o decorrer dos desdobramentos do período, elas precisam fugir e percorrer um determinado território da França em direção à fronteira com a Suíça.

Inicialmente elas são acompanhadas pela Sra. Forman (Cécile de France), mas o plano de levá-las para um ponto estratégico próximo da fronteira acaba falhando, e com o constate avanço das tropas alemãs pelo país, fica cada vez mais arriscado percorrer grandes distâncias. A partir daí, o desenvolvimento da história ultrapassa as próprias barreiras emocionais da personagem principal, Fanny (Léonie Souchaud), uma menina de apenas 12 anos, que apesar da pouca idade, ainda é a mais velha do grupo. Acompanhada de suas duas irmãs, Fanny tem o destaque necessário durante o início do filme, com a construção sutil de sua personalidade ainda sendo moldada. A ocasião excepcional força uma prematura obrigação de proteção e tomadas de decisões que fogem da naturalidade da vida que conhecemos hoje.

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Formado por um elenco quase que inteiramente de crianças e jovens, a alternância da narrativa entre momentos que vão do suspense – pelas incertezas sobre o que irão encontrar durante a jornada -, chegando ao drama em cenas mais fortes, como quando a guerra chega realmente a fazer parte daquele universo, na interação direta com soldados alemães por exemplo. É neste ponto que percebemos qual a intenção da história que está sendo contada, embora sejam momentos de puro drama e apreensão, o diálogo e as interações entre as próprias crianças são normalmente de forma inocente, como convém a ser. Com todo o cenário ameaçador, principalmente marcado pela trilha sonora, é fácil esquecer que estamos assistindo um filme sobre a infância, e o que é ser criança.

A direção de Lola Doillon sobre as atuações de todas as crianças é algo a ser muito elogiado, embora sejam parte de um filme, antes de tudo elas precisam se divertir. A diversão faz parte do processo para elas, e de forma brilhante, Lola consegue encaixar momentos de pura inocência e alegria em cada ato do longa, sempre lembrando o espectador de que aqueles personagens, por mais afetados pela guerra ainda são parte de um mundo único e que só elas são capazes de acessar. Chamar um nazista de “monstro” ou “bobalhão” é algo natural, se eles existem ou não, é na cabeça de cada uma.

O fato é que, no entrelaçar destes dois mundos, o real e o das crianças, aos poucos as barreiras são lentamente ultrapassadas, e assistimos o crescimento de cada uma delas à sua maneira e tempo. É verdade que em quesitos técnicos como a fotografia por exemplo, o longa é perfeito, porém o diferencial desta produção francesa em comparação com tantas outras, inclusive a maioria que também está incluída no Festival Varilux 2017, é o seu conteúdo. Não necessariamente a mensagem que quer transmitir, nem sempre isto é o mais importante, mas a construção de uma narrativa inteligente envolvendo diversos personagens e seus conflitos íntimos perante o desconhecido. “A Viagem de Fanny” estreia no circuito comercial do Brasil apenas em 10 de agosto.

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Por Guilherme Santos

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