9 de dezembro de 2019

Em determinado momento de “Vidas Duplas”, uma personagem afirma que “ler Adorno em um iPad ou em uma edição original não muda o que se tira dele”, e Olivier Assayas parece utilizar essa constatação como estratégia para seu novo filme. Ao apagar qualquer traço estético mais prontamente reconhecível de sua filmografia, o diretor aproxima “Vidas Duplas” de qualquer outra “comédia de arte” francesa, privando-o de uma autorialidade.

Entretanto, essa escolha é deliberada, como forma de aproximar o cinema da literatura. De modo geral, todo livro é um amontoado de folhas impressas e todo tablet é apenas uma tela sensível ao toque. Logo, cabe ao texto contido nessas plataformas o papel de exprimir as particularidades de cada autor. Um raciocínio semelhante guia Assayas: ao, superficialmente, criar uma obra convencional, ele volta todas as atenções aos diálogos, onde as marcas de seu cinema aparecem intactas.

O título do longa já dá uma dica. A duplicidade na obra de Olivier Assayas está presente desde seu primeiro filme, “Água Fria”, e foi assumindo diferentes roupagens até chegar ao último trabalho do diretor, “Personal Shopper”, no qual a protagonista é um ser intermediário por excelência. Em “Vidas Duplas”, essa característica se apresenta de diversas maneiras.

As discussões acerca da transição do analógico para o digital são onde a influência de Assayas é mais claramente sentida. Um dos mais assíduos observadores da globalização e seus efeitos nas relações comerciais e interpessoais, o realizador francês continua em “Vidas Duplas” uma pesquisa que desenvolve ao longo de toda sua carreira. Voltando-se agora para o universo editorial, ele reflete sobre o futuro do livro, os efeitos econômicos que a digitalização da literatura pode acarretar e as mudanças que produtos (e-book, audiolivro) e plataformas (blogs, redes sociais) impõem sobre os hábitos de leitura. De certa forma, esse movimento não é muito diferente dos debates sobre tecnologia e banalização da violência e da pornografia em “Espionagem na Rede”. Porém, a forma como se apresenta essa discussão é drasticamente diferente.

Algo semelhante pode-se dizer da elucubração acerca da tênue linha entre ficção e realidade. O próprio Assayas admite que alguns de seus filmes possuem elementos ligeiramente autobiográficos. Portanto, ao utilizar o escritor Léonard (Vincent Macaigne) como catalisador de um debate ético acerca da utilização de versões romantizadas de acontecimentos e indivíduos reais em obras de ficção, o diretor parece questionar suas próprias estratégias de criação artística.

Outro momento em que os limites entre esses dois espectros se borram é quando as personagens discutem a possibilidade de fazer um audiolivro baseado no novo romance de Léonard, a que Alain (Guillaume Canet), seu editor, responde que convidou Juliette Binoche para narrar a obra. Porém, a atriz interpreta Selena, esposa de Alain, em “Vidas Duplas” e chega a dizer, na mesma cena, que possui o número do agente da estrela francesa. Esse tipo de brincadeira metalinguística remete a outras obras de Assayas, em especial “Irma Vep”.

Essa duplicidade também rege a estrutura do filme, uma vez que o diretor tenta equilibrar a densidade de um ensaio crítico com a leveza de um beach read, isto é, um livro descompromissado, ideal para ler nas férias. Isso pode ser conferido na comicidade que permeia todo o longa – inclusive as discussões teóricas – e, principalmente, nas aventuras extraconjugais das personagens, um clichê narrativo das comédias sobre a burguesia parisiense.

Os fãs mais puristas de Olivier Assayas têm chance de se decepcionar com “Vidas Duplas”, uma vez que, superficialmente, em nada se assemelha à filmografia do diretor. Entretanto, esta parece ser a intenção do cineasta: tirar seus admiradores de sua zona de conforto, a fim de criar uma visão mais ampla de um mundo que parece cada vez mais incerto. Em contrapartida, a estética mais convencional tem o potencial de levar as questões levantadas há quase 30 anos por Assayas a um público que, provavelmente, nunca assistiria a um de seus filmes.

A certa altura do longa, uma personagem define pós-verdade como “permitir as pessoas viverem em seu universo fictício determinado por seus preconceitos”. Partindo desse conceito, pode-se entender “Vidas Duplas” como uma exploração de Olivier Assayas acerca da potencialidade diplomática do cinema verborrágico. Em tempos de pouco diálogo, talvez a valorização da palavra seja um ato revolucionário, capaz de extinguir pós-verdades.

Ou não. Afinal, assim como as personagens de seu filme, dependendo dos acontecimentos, sua opinião pode mudar completamente.


Imagens e vídeo: Divulgação/California Filmes

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João de Queiroz

Passava tardes de final de semana na locadora. Estudou Cinema. Agora escreve sobre filmes.

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