8 de dezembro de 2019

No cinema e na TV norte americana, filmes e séries sobre seriais killers são feitos aos montes, há muito tempo. As histórias, geralmente baseadas em fatos, mostram assassinos como frutos de um passado familiar abusivo ou violento. Há também aquelas produções que romantizam as figuras dos psicopatas, focando no charme do personagem ou nas suas habilidades intelectuais e físicas. Eles também podem ser anti-heróis, que só matam outros assassinos, ou bandidos em geral. Basta lembrar-se da série “Dexter”. Talvez por motivos comerciais, as figuras mais repugnantes que viveram no mundo real quase não possuem espaço para adaptações no cinema hollywoodiano. Ou, quando algum produtor se interessa por suas histórias, eles as amenizam para, evidentemente, não chocar o público em demasia.

Bom, chocar parece ser a intenção do cineasta alemão Fatih Akin no seu mais recente filme “O Bar Luva Dourada”. A história é sobre Fritz Honka (Jonas Dassler), um serial killer que viveu nos anos 70 na Alemanha. O tal bar do título era constantemente frequentado por Honka e era lá que ele conseguia suas vitimas. Luva Dourada era um antro de bêbados, vagabundos e prostitutas. Prostitutas essas que, atraídas pela bebida e dinheiro, acompanhavam o assassino até seu apartamento, onde eram mortas, tinham seus corpos esquartejados e depois guardados em um buraco feito na parede do local. O passado de Honka não é abordado e ele está longe de ser charmoso e ter habilidades intelectuais e físicas. Ele é apenas um bêbado que, por ser extremamente feio, não consegue se relacionar ou mesmo fazer sexo.

Os crimes são cometidos quando Honka está sob o efeito da bebida e as mulheres que mata não são seduzidas por ele, são apenas aquelas que topam sair com um ser tão grotesco. O interessante é que ele persegue a beleza, já que se apaixona pela linda estudante Petra Schulz (Greta Sophie Schmidt) que encontra aleatoriamente na rua. A beleza dela fica em sua memória e, como não consegue tê-la, mata como em uma espécie de vingança as mulheres tão grotescas quanto ele. Em sua cabeça há uma batalha entre a realidade nojenta e os delírios de uma vida maravilhosa que nunca se tornará real.


O design de produção e a ótima maquiagem que transfigura o galã Jonas Dassler proporcionam nojo aos espectadores. O apartamento de Honka é entulhado de pratos sujos, restos de comida, bitucas de cigarro e garrafas de bebida vazias. As paredes são imundas e o banheiro é repleto de fezes no chão. Para piorar, o cheiro de carne em putrefação vindo da parede é percebido por todos que entram pela porta. Evidentemente que não é possível sentir o cheiro, mas a imagem de Honka vomitando assim que abre o buraco faz com que a ânsia se manifeste no espectador. O bar não está em melhores condições, assim como seus frequentadores. Todos parecem sujos, com a pele brilhando de gordura e com feridas aparentes. Honka anda curvado e manca, seus dentes são podres e um dos seus olhos sofre de estrabismo.

A intenção de mostrar o ser humano em sua mais degradante forma funciona e trabalha a favor do filme. As gráficas cenas de violência chocam porque Akin não desvia sua câmera, mas o que causa mais asco são as figuras decrépitas que são capturadas em close durante as quase duas horas de duração do longa. Não é para todos os gostos por causa da sua proposta estética de degradação. Realmente, é difícil aguentar tanto horror em tela e muitos irão abandonar a sessões por não conseguirem enfrentar um pouco da realidade.


Imagens e vídeo: Divulgação/Imovision

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Rodrigo Chinchio

Formou-se como cinéfilo garimpando pérolas nas saudosas videolocadoras. Atualmente, a videolocadora faz parte de seu quarto abarrotado de Blu-rays e Dvds. Talvez, um dia ele consiga ver sua própria cama.

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